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educaportugal


Domingo, 14.06.15

A Grande Tasca

Num Portugal “globalizado”, onde os centros comerciais proliferam em qualquer pequena cidade, as tascas têm vindo, naturalmente, a desaparecer de forma gradual. Resultado duma evolução nas mentalidades, hoje em dia famílias seguem para esses grandes centros, numa peregrinação passível de ser criticada, tendo em conta o desprezo por outros locais onde as vivências e aprendizagens seriam muito mais significativas. Porém, na era das tascas, mulheres ficavam em casa tratando dos afazeres domésticos e dos filhos, estes “viviam” na rua, enquanto os homens se encontravam nas referidas tascas. Perdeu-se, infelizmente, a vida das crianças nas ruas, tão importante no seu desenvolvimento, mas ganhou-se a convivência do casal com, e sem, os filhos, mesmo sendo num centro comercial, em substituição do machismo anacrónico. Penso que, apesar de tudo, ficamos a ganhar. Claro que esta visão é generalista e simplista, ignorando todas as exceções de agora e de outrora.

Na minha infância e na minha juventude ainda tive a possibilidade de conviver nessas tascas, ou cafés ou os chamados “snack-bares” que, pelo seu ambiente, eram verdadeiras tascas. Nesses ambientes maioritariamente masculinos, o que mais me fascinava, aumentando esse fascínio com a idade, eram as discussões a que assistia nesses meios. Foi aí que pude observar os “melhores” treinadores de bancada da história do desporto mundial, que nunca deram nada no desporto. Foi aí que pude observar os políticos, que nunca tiveram qualquer participação política, com os discursos mais incoerentes que alguma vez poderia ter ouvido. E nessas discussões, quão mais inflamados fossem os discursos, mais respeitados eram. E a razão ficava, por norma, naqueles que demonstravam a sua indignação da forma mais violenta, violência essa presente no tom de voz e nas palavras utilizadas. Se tivesse uns palavrões misturado com umas ofensas, então a razão ficava logo entregue… tal nível de indignação só poderia ser de alguém cheio de razão. Felizmente, essa violência ficava, por norma, pelas palavras, apesar de muitas das vezes as ameaças de violência física surgirem. Mas tal era tão comum e a violência efetiva tão rara, que nunca ninguém demonstrava muita preocupação face às ameaças proferidas. Infelizmente, muitas das vezes a violência acabava por surgir no regresso a casa, sendo a vítima alguém muito mais frágil e que não ousava afrontar o agressor. Apesar de, na realidade, serem iguais, agressor e vítima viviam num relacionamento desigual.

O fascínio que sentia fazia-me procurar uma simples resposta: porquê? Depois de muito observar e de muito refletir, uma resposta surgiu: a ignorância. Consegui perceber que, quanto mais ignorantes, mais certezas tinham. Quanto mais ignorantes, mais tinham dificuldade em aceitar que as suas frágeis opiniões fossem questionadas. Quanto mais ignorantes, mais exagerados e ofensivos eram os seus discursos. Quanto mais ignorantes, mais facilmente opinavam sobre tudo e sobre todos, com uma autoridade e assertividade impressionantes. Quanto mais ignorantes, mais irresponsáveis eram os discursos e as atitudes, sem o mínimo pesar das consequências. Mas não estou a falar de uma ignorância académica. Estou a falar de uma ignorância ética e cultural que despreza o conhecimento e a vontade de aprender e progredir.

A memória desta postura de tasca muitas vezes me surge, sobretudo quando observo algumas atitudes similares, num contexto diferente do das tascas e, por norma, inofensivo. Recentemente voltou a acontecer. No entanto, de inofensivo nada teve a situação que vivi faz pouco tempo. Para além deste facto, a dimensão e as repercussões são muito mais graves daquelas que se viviam nas tascas. Isto porque vivemos na era da Internet, onde a informação circula a uma velocidade descontrolada, o que faz com que a irresponsabilidade de um indivíduo possa ter consequências extremamente graves.

Apesar dos seus defeitos, felizmente vivemos numa democracia que é um estado de direito, onde todos temos o direito à indignação e ao protesto, mas onde a responsabilidade advinda da liberdade nos obriga a ter respeito por todos e pelas instituições. Num contexto destes, onde o autoritarismo não tem lugar, a discórdia e a diferença de opiniões é algo que surge com naturalidade, o que faz com que tenhamos de ser maduros de modo a que possamos, respeitosamente, discordar e aceitar opiniões e opções diferentes das nossas, desde que fundamentadas, mesmo que não concordemos com essa mesma fundamentação. No meu trabalho, uma das funções que levo com mais seriedade é ajudar a que as crianças e jovens com que lido diariamente compreendam este facto, para que saibam lidar com as suas frustrações, resultado de não obterem aquilo que pretendem, e não se transformem em adultos inaptos para viver numa democracia.

Posto isto, acho que é tempo de, sem especificar, explanar o que aconteceu de tão grave. Um encarregado de educação, não obtendo aquilo que pretendia da parte da escola, eis que decide usar a maior tasca mundial, o Facebook, para dizer aquilo que lhe ia na alma. Até aqui nada de grave, não fosse o teor ofensivo e desrespeitador da mensagem. Tal como o antigo frequentador de tasca, usou o discurso indignado com o recurso ao insulto gratuito com direito a linguagem imprópria. Moldou os factos de modo a só ser transmitido o que lhe convinha. Usou um alvo do seu discurso sem nome, de modo a poderem ser todos e nenhum, num misto de cobardia e “chico-espertismo”. Usou o discurso do desespero de modo a ser visto como um mártir. Não está aqui em causa se a pessoa tem razão ou não. Não vivemos num mundo a preto e branco onde um lado tem toda a razão e o outro razão nenhuma. O que está em causa é a forma. É o ignorar princípios éticos essenciais.

Porém, o que mais me dececionou não foi esta atitude. Não sou ingénuo e sei que há muitos seres humanos cuja (de)formação ética considera aceitável uma atitude deste tipo. Como antes afirmei, assisti a muitas atitudes similares no passado em tascas e cafés. O único problema no caso da grande tasca é a visibilidade e as consequências destas atitudes, o que faz com que, na grande tasca, o grau de irresponsabilidade demonstrado seja muito superior. O que mais me dececionou foi a leviandade e a imoralidade com que outros frequentadores da grande tasca reagiram a tal texto. Confirmar factos? Permitir o contraditório? Refletir sobre o assunto de um modo ponderado? Para quê? É tão fácil colocar um “gosto” entre o visionamento de um vídeo com gatinhos e a leitura de umas bocas com piada sobre a ida do Jesus para o Sporting… E com tanta informação que recebemos no Facebook nem vale a pena ler o texto com atenção. Lê-se na diagonal… com tanta indignação só pode ser tudo verdade, por isso merece um “gosto”, sem dúvida! Mas ainda há aqueles que têm uns minutos para efetuar uns comentários… seja a dar força, seja a concordar e a juntar mais uns degradantes insultos, seja a incitar à violência… e não, infelizmente não estou a brincar nem a exagerar. E tudo isto público. Como reagirão crianças e jovens que facilmente têm acesso a esta podridão. Que exemplos lhes estão a dar? Que mensagens lhes estão a transmitir? Que o insulto fácil é aceitável? Que a violência numa discórdia se justifica? Que o desrespeito pelo outro e pelas instituições é algo tolerável numa democracia?

Já não é de agora que observo, no Facebook, a facilidade com que algumas pessoas ofendem outras, desrespeitam a opinião das outras, opinam após uma leitura na diagonal, comentam sem verificar a veracidade dos factos, tomam partido a partir de uma meia-verdade, etc.. Provavelmente, por um lado, a falta de um rosto na sua frente funciona como um facilitador para se dizer aquilo que muitos não terão coragem de dizer na presença do outro. Por outro lado, no meio de tanta trivialidade que se vai escrevendo (e que é perfeitamente aceitável), muitos tratarão a escrita sobre assuntos sérios com a mesma leviandade (o que já não poderá ser aceitável, obviamente). Devo acrescentar que nem nas tascas as pessoas passavam tão rapidamente para a ofensa como observo no Facebook, e aí ainda havia a desculpa do catalisador que era o álcool. No entanto, tudo indica que a participação cívica cada vez mais será efetuada através do uso da Internet, visto esta ser um facilitador extraordinário para tal fim. Deste modo, urge que a sociedade tome consciência de tal facto e da importância de todos sabermos respeitar os limites éticos da intervenção nestes meios. Nunca nos esqueçamos que uma discussão em que a ofensa substituí a argumentação nunca poderá ser frutífera.

Por fim, devo acrescentar que nada tenho contra o Facebook. Como tudo, não é bom nem é mau, depende do uso que se dá. No entanto, tendo em conta o alcance do Facebook e o alarme que estes exemplos começam a fazer soar, algo me diz que, para além de todas as outras funções que a Escola já tem, brevemente teremos mais uma: a educação no uso das redes sociais...

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por ap7 às 12:56

Sexta-feira, 27.09.13

“Inventem-se novos pais” VII - As refeições (14/09/2004)

O sétimo texto de 2004 dedicado à educação em meio familiar, teve como tema as refeições. Ler algo com nove anos trouxe-me imensas memórias agradáveis, apesar do tema ser complicado e para muitos eu ter uma posição polémica. Porém, tendo em conta o que observo na cantina da minha escola, sobretudo no que toca a "esquisitices" e à naturalidade com que se estraga tanta comida num mundo cheio de fome, seria bom que todos refletíssemos sobre esta questão e que muitos pais adotassem uma nova atitude no que concerne à educação dos seus filhos neste ponto.

 

“Inventem-se novos pais” VII – As refeições (14/09/2004)

Enquanto se educam as crianças nas dormidas, eis que surge outra questão um pouco mais complicada: as refeições.

De início, salvo certas características físicas das crianças, as refeições não são complicadas. Comem de três em três horas (uns com uns intervalos entre as refeições um pouco maiores, outros um pouco menores), logo não haverá grandes complicações (norma geral). No entanto, a alimentação das crianças sofre evoluções com o seu crescimento. Salvas algumas exceções, o leite materno é substituído pelo biberão, depois surgem as papas, mais tarde as sopas até ao aparecimento gradual dos sólidos. No início de cada uma destas etapas podem, ou não, surgir crises. Por exemplo, no nosso caso, a introdução do biberão na vida do Marcos foi um enorme problema para todos. Perante a escassez do leite materno, vimo-nos na contingência de alimentá-lo com um biberão. O rapaz, habituado que estava a mamar na mãe, não aceitou a ideia de mamar em algo sintético e com um sabor diferente. Fomos sempre, com muita paciência, tentando habituá-lo à nova forma de alimentação. No entanto, ele mostrava-se irredutível. Vendo que “a bem” a coisa não ia, e que ele começava a sofrer com fome, foi tomada a decisão mais difícil, mas necessária: ou “ia ou rachava”. Rachou. Depois de muito se debater contra o biberão, o cansaço venceu-o e ele desistiu, tomando a sua primeira refeição completa de biberão. Depois desta refeição complicada, a sua luta com o biberão diminuiu, até cessar no dia seguinte, passando a encarar com naturalidade a nova forma de se alimentar. Poderá parecer violenta esta forma de agir. No entanto, não se pode esperar que um bebé tenha a maturidade para compreender o que é melhor para si. Se agimos da forma como fizemos, foi só para o seu bem. Tal como relatei este episódio, poderia também fazê-lo relativamente à introdução da sopa na alimentação dos nossos dois pequenos. No entanto, nestes casos não foi tão difícil e sofrível (foi possível habituá-los ao novo sabor e textura de uma forma gradual; no entanto, não esqueçamos que no caso da passagem do leite materno para o biberão foi um corte total com a forma de alimentação anterior, ao mesmo tempo que era a única forma de alimentação, logo, imprescindível).

Todo este relato teve uma única intenção. Costumam dizer-nos que temos sorte com os nossos filhos, pois comem bem, sem necessidade de técnicas de diversão (não tornando as refeições penosamente longas), e a mais velha, vejam lá, come sozinha à mesa desde pouco mais do ano e meio de idade e pede para sair da mesa nos fins das refeições, após todos terem acabado de comer.

Mas vamos por partes. Primeiro, nunca nos permitimos arranjar esquemas para que os nossos filhos comessem. Sendo o Marcos novo de mais para exemplo, a mais velha será melhor para ilustrar o que afirmo. A Alice foi habituada a que, quando era para comer, era para comer. Não havia brinquedos na área, não havia televisão para que estivesse distraída, e quando nos começou a compreender, “sabia” que tinha de estar virada para nós para que pudéssemos dar-lhe as “colheradas” (não andávamos à procura da sua boca, numa ginástica por vezes impressionante, e à custa de uma grande firmeza da nossa parte, o que significou, por vezes, a aplicação da “palmadinha pedagógica”). Assim, quando passou a fazer as quatro refeições normais, facilmente passou a comer connosco. Aqui, enquanto comíamos, dávamos-lhe de comer, de forma que ela desde cedo compreendeu que a refeição é um momento familiar coletivo. Quando ganhou mais destreza com as mãos, enquanto lhe dávamos de comer, deixávamos que ela tivesse uma colher, para que tentasse comer sozinha. Deste modo, rapidamente aprendeu a comer sozinha (apesar de muita comida cair no chão e afins, pois a sua destreza com a colher não surgiu de um momento para o outro). Após ter aprendido a comer sozinha, em seguida aprendeu outra coisa: que só podia sair da mesa com os restantes membros da mesma, salvo raras exceções. Comendo rapidamente, era sempre das primeiras a terminar a refeição. É óbvio que no fim de comer queria ir brincar. No entanto, habituamo-la a sair da mesa depois de todos terem comido. Para isto, o mais importante foi o exemplo. Nunca tentem educar uma criança com o princípio “não faças o que eu faço, faz o que eu digo”. O resultado será catastrófico. Todo este trabalho diário, gradualmente apreendido pela Alice, fez com que ela seja uma criança de três anos (recém feitos) que come com os adultos, e que no fim da refeição pede para ir para o chão, depois de todos terem terminado (não sendo, porém, nenhum fenómeno!). Enquanto se alimenta, está com os restantes adultos ou crianças de igual para igual, com as suas limitações, obviamente, partilhando um momento deveras importante e significativo para a vida familiar.

Por tudo isto e mais algumas coisas, começo a perder a paciência quando dizem termos sorte. O mais grave é que são capazes de nos criticar quando não permitimos que a Alice vá para o chão antes de todos os outros terminarem a refeição, ou de não a permitirmos ser “lambona”, comendo só o que mais lhe agrada, etc.. Ao mesmo tempo criticam os seus filhos por fazerem das refeições um inferno, de saírem da mesa sem acabar de comer e sem pedir, de serem esquisitos só comendo o que querem, etc.. Nem vêm que a culpa não é exclusiva das crianças, e ao estar a criticá-los continuamente, só estão a fazer com que eles interiorizem que são tal como os pais os descrevem, nunca mudando essa sua faceta e criando uma baixa autoestima.

Correndo o risco de ser chato, volto a bater na tecla da primeira infância. Não esperem pelos 5, 6, 7 anos, ou mais, para os habituar a este tipo de coisas. Aí já pouco haverá a fazer. Não é por acaso que há adultos tão “maus de boca”, com montes de manias no que concerne à sua alimentação, algumas que nem mesmo eles conseguem explicar.

Com tudo isto pretendo somente que cheguem a uma conclusão: tudo se educa; seja a boca a diferentes sabores, seja o comportamento à mesa. Todo este esforço da parte dos pais será recompensado. Depois de momentos iniciais de muita tensão e choro à mistura, nunca agradável aos pais (e que alguns consideram cruel, pois nem sequer admitem a possibilidade de deixar os seus filhos chorar), o resultado são crianças equilibradas e felizes, com um comportamento correto.

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por ap7 às 22:02

Sábado, 13.07.13

“Inventem-se novos pais” VI – O início da educação (06/09/2004)

Retomo a divulgação dos meus textos de 2004 dedicados à educação em meio familiar, com ênfase na primeira infância. Aqui fica o sexto da série, que tantas lembranças adormecidas recuperou, dando-me o prazer de reviver momentos em que a minha maravilhosa pré-adolescente era ainda uma criança de 3 anos...

 

“Inventem-se novos pais” VI – O início da educação

Trocando as voltas a mim mesmo, levei a que esta reflexão mudasse de rumo, sem que eu mesmo disso tivesse dado conta. Deste modo, considerei mais interessante para mim e para todos os interessados, não apontar os erros mais frequentes de alguns educadores de forma quase indiscriminada, disparando em todas as direções, mas sim avaliando o nosso, meu e da minha cara-metade, percurso de educadores de uma criança que praticamente concluiu a sua primeira infância. Utilizando a nossa experiência e observação, espero refletir com os interessados com o fim de orientar e apoiar futuros e atuais educadores. Com este propósito, propus-me, no último texto, refletir sobre quando se dá o início da educação, e será este o ponto de partida deste texto.

Diria que a educação começa mal a criança nasce (o que não significa que o nosso papel de pais só surja neste momento). Ainda no berçário do hospital, o comportamento da mãe relativamente ao bebé (infelizmente, o pai está privado desses momentos), é extremamente importante. Isto relativamente à educação de dois aspetos: o dormir e o comer. Vou dedicar a minha reflexão mais ao primeiro ponto, deixando o segundo para mais tarde.

Se observarmos crianças dos 0 aos 4/5 anos, vemos, no que concerne ao hábito de dormir, casos muito distintos. Vemos crianças que, numa determinada hora, vão para a cama, onde ficam sozinhas até adormecerem; outras vão com os pais, também em determinadas horas, adormecendo na companhia dos pais; outras vão com os pais, onde estes “tentam” mantê-las na cama para que adormeçam, realizando várias tentativas, até que consigam, ou até que desistam (neste caso nas sestas da tarde); outras vão para a cama quando querem. Seria extremamente simplista afirmar que uns pais têm sorte e outros azar. No entanto, este é o argumento mais usado nestes casos: o defeito está, pura e simplesmente, nas crianças. Mas, se observarmos o comportamento dos pais relativamente às crianças neste ponto, descobrimos que as coisas não são tão simples assim.

Nos primeiros dias de vida da criança, podemos ver pais sempre com o bebé no colo, e outros a pegar no bebé de uma forma criteriosa. Sabe bem a qualquer pai pegar no seu filho no colo, no entanto, não poderemos pensar só em nós, mas sobretudo na criança. Relativamente a esta, saber-lhe-á bem sentir o calor dos seus pais pegando nela ao colo. Porém, o que se torna hábito deixa de ser um prazer. Deste modo, estamos a retirar um prazer a essa criança, porque o mesmo passa a ser banal. Para além disso, criamos-lhe um hábito que trará muita infelicidade, seja aos pais, seja a ela própria. Com o crescimento da criança, uma de duas coisas irá acontecer: ou lhe iremos retirar um hábito por nós nela inculcado, e daí trazer grande sofrimento ao bebé, ou, por outro lado, sentir-nos-emos prisioneiros daquele ser que não nos deixa realizar os nossos afazeres e ter os nossos prazeres individuais, pois está completamente dependente da nossa presença física ao seu lado, mesmo nos momentos em que não precisa dela.

Voltando à questão da dormida, o que está em causa é a forma como a criança é habituada a dormir. Em relação a este ponto, há dois factos a ter em conta: o ambiente de adormecimento e os horários do mesmo. Este último será, provavelmente, o mais importante. Se a criança for habituada a realizar as suas sonecas aproximadamente no mesmo horário, diariamente, e se for habituada a que a ida para a cama seja definitiva, não uma mera tentativa de adormecimento, ela apreenderá aquele hábito, tornando-se o mesmo natural (no caso das sestas durante o dia, será natural enquanto o seu metabolismo assim o exigir).

Em relação ao ambiente de adormecimento, o que está em causa é a forma como as crianças são adormecidas. Nuns casos, desde bebés que algumas crianças são embaladas até adormecerem. Qual não é o espanto dos seus pais que, ao longo do seu crescimento, essas mesmas crianças quando acordam a meio da noite, exigem tal tratamento. Pergunto: porquê o espanto, se assim foram habituadas? Outras crianças, pelo contrário, quando chega a hora de dormir, os seus pais preparam-nas, preparam o quarto, e simplesmente deitam-nas. Elas lá ficam até adormecerem. Dizem-nos que temos sorte, porque as nossas crianças são assim. Creio que seja algo mais do que simples sorte. Sei que cada caso é um caso, e que há crianças mais difíceis de educar neste ponto específico que outras. Nós próprios temos essa experiência. Foi-nos mais difícil incutir este hábito à nossa filha mais velha. Mas desde pequenos que os dois sabem que, quando é para ir para a cama dormir, é realmente para ir para a cama dormir. No início é relativamente simples, porque, salvo os casos de cólicas e outros problemas, as crianças têm o ritmo de dormir três horas, comer em seguida, e assim sucessivamente. Aos poucos vamos introduzindo a ideia da noite, até que ela surge quando deixam de necessitar comer à noite. O problema começa quando eles descobrem que o facto de irem para a cama dormir é uma decisão tomada pelos pais. Aí começam a lutar contra esse facto. Quando vão para a cama choram, gritam, etc.. Se lá formos sempre que eles o fazem, eles descobrem que a sua tática está a surtir resultados. Deste modo, quando nós, os pais, sentíamos que tudo estava bem, que mal entrávamos no quarto e pegávamos neles o choro cessava, quase por milagre, o que fizemos foi deixá-los chorar. Quem nunca o fez não pode imaginar o sofrimento que os pais passam nestas alturas. As dúvidas que estes momentos trazem. Os momentos de tensão entre os dois progenitores. No entanto, com o passar das noites, o choro diminui até que cessa. A partir daqui é fácil, a criança acha natural que a determinado momento é tempo de dormir, deita-se e dorme. No entanto, o trabalho não está terminado (nunca está), tem que se manter a regra. Aquilo que pode demorar meses a construir poderá ser destruído num dia; nunca nos esqueçamos disso.

Para ilustrar tal facto poderei usar o nosso exemplo. Como quaisquer pais, não temos a alegria de estar com os nossos filhos durante todo o dia. Quando terminámos a licença de maternidade, e fomos os dois trabalhar, a Alice ficou, durante alguns momentos do seu dia, ao cuidado de um infantário. Aqui não houve qualquer problema em relação às dormidas, pois o infantário tinha o horário das sestas bem definido, e como ela estava habituada a dormir sem mordomias desnecessárias, manteve o seu saudável hábito. No entanto, mudámos de cidade e, consequentemente, a Alice deixou o infantário que tanto nós gostávamos. Numa nova cidade, onde os infantários e afins estavam lotados, tivemos de recorrer a uma ama. A que nos calhou em sorte era excelente em praticamente todos os aspetos, não nos podendo queixar da nossa sorte. Porém, nada é perfeito. E o primeiro caso com a ama surgiu pela questão das dormidas. Estando a Alice o menos tempo possível na ama, para que pudesse estar connosco a maior parte possível do dia, ela fazia na ama, por vezes, uma sesta sensivelmente a meio da tarde, antes do lanche. Nos dias em que íamos levar a Alice na hora em que ela devia começar a fazer a dita sesta, alertávamos a ama do facto. No entanto, com o tempo, a ama começou a dizer algo que nos começou a deixar preocupados. Quando nós dizíamos que estava na hora da sesta da Alice, a ama dizia que ela quando queria dormir, dizia-o, não sendo necessário deitá-la no imediato. Logo vimos que tal facto, a médio/longo prazo, iria trazer problemas. Enquanto a sesta antes do lanche foi um imperativo biológico impossível de ultrapassar, o problema estava minimizado. Chegava a um momento em que o seu corpo não mais aguentava, e a Alice pedia então à ama para ir dormir (o problema estava minimizado na perspetiva dos adultos, pois para ela não era saudável brincar até à exaustão). O problema para os adultos, e para ela, surgiu quando começou a aguentar acordada até ao lanche, e um pouco mais, não pedindo à ama para ir dormir. Necessitada de descansar, quando a íamos buscar, encontrávamos uma espécie de zombie, cansadíssima e mal-humorada. Quando chegávamos a casa deitávamos a pobre que, fazendo um sono fora de tempo, desregulava todo o resto do seu dia, passando-o com um humor simplesmente assustador (não estando bem com ninguém, nem com ela própria). Face a isto fomos falando com a ama, alertando-a para o que estava a suceder. Perante tal facto, e depois de compreender o que se passava, ela repensou a sua forma de agir com a Alice. Aí aconteceu o que nós esperávamos: quando um dia, por fim, a senhora resolveu deitar a Alice para que ela dormisse (coisa que ela continuou sempre a fazer em sua casa apesar de passar, na altura, uma fase de negação relativamente às sestas à tarde, o que não era de estranhar), a Alice fez-lhe frente, não dormindo, não ficando sequer na cama, levando a que ama desistisse de tal intento. É óbvio que tal acontecimento não nos surpreendeu. Se habituou a criança a decidir sobre quando ir para a cama, como é que queria que a criança, agora mais velha, aceitasse a perda desse privilégio. Estando cientes que, provavelmente, a repetição deste episódio levaria a que a ama nunca mais conseguisse deitar a Alice, tivemos que modificar os horários desta, para que não necessitasse dormir lá nos tempos seguintes. Readquirindo totalmente o seu hábito de efetuar a sesta da tarde, voltou a dormir uma ou duas vezes na ama, não muitas vezes, pois tal não foi necessário.

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por ap7 às 21:40

Segunda-feira, 22.04.13

Queriam-no? Pois aí o têm!

Quando o atual ministro da educação e ciência foi indigitado para o seu cargo, muitos colegas meus vieram comentar comigo a sua satisfação, ao mesmo tempo que perguntavam a minha opinião sobre o facto e se não me sentia igualmente satisfeito pelo facto do ministro ser da minha área, isto é, de Matemática. Não me querendo, então, alongar muito sobre o assunto, começava sempre por dizer que, em boa verdade, ele não era de Matemática, que a sua formação inicial era Economia (e só posteriormente tinha efetuado estudos no âmbito da Matemática Aplicada), e que, por outro lado, a sua experiência no ensino não superior era muito pobre, ao contrário do que muitos pensavam. Sobre a minha opinião, acabava por dizer que tinha razões para não me sentir satisfeito com a escolha. No entanto, dizia também que, independentemente da minha opinião, o ministro deveria ter o benefício da dúvida, podendo vir a ser uma surpresa para mim demonstrando que eu estava errado. De qualquer modo, estava satisfeito pela escolha por uma simples razão: ou o ministro demonstrava que eu estava errado e a educação em Portugal ficava a ganhar; ou demonstrava aquilo que eu esperava, e os professores poderiam finalmente compreender que o ministro não passava de mais um “educador de bancada”, dos que falam do que não sabem.

Ao longo da legislatura o ministro foi sendo aquilo que eu esperava. Foi tomando muitas decisões com as quais não concordo, no entanto, foi sendo coerente, decidindo de acordo com as ideias que sempre defendeu para a educação. E muitas dessas ideias são também defendidas por muitos professores, deste modo, mesmo não concordando, fui aceitando como normais e expectáveis as decisões tomadas, fazendo sempre apelo ao meu espírito democrático, apesar de considerar que muitas das decisões eram prejudiciais às escolas e, consequentemente, para os seus alunos e professores.

Deste modo, só duas coisas realmente me incomodavam nesta equipa ministerial: as tentativas de justificar o injustificável, de que é exemplo o aumento do número de alunos por turma; e os preâmbulos idiotas de alguns diplomas legais, pejados de juízos de valor sobre fantasmas de correntes pedagógicas das quais o ministro é um crítico. Se, no primeiro caso, ainda se poderá dar o benefício da dúvida visto muitas das decisões tomadas serem resultado do atual estado financeiro e económico do país (só sendo pena que não o assumissem), no segundo caso, dificilmente será aceitável, pois demonstrava uma falta de sentido de estado e um espírito de “vendetta”, claramente reprováveis.

No entanto, nesta última semana, duas decisões vieram mostrar a pior face desta equipa ministerial: a portaria que fixa o número de vagas para o concurso interno e externo de docentes; e o despacho que revoga o programa de matemática do ensino básico.

O primeiro caso representa uma enorme falta de respeito. Falta de respeito pelos diretores cujos cuidadosamente ponderados levantamentos de necessidades não transitórias não foram respeitados. Falta de respeito pelos professores que esperaram quatro anos para tentar de mudar para um quadro de agrupamento mais próximo das suas famílias e, consequentemente, falta de respeito pelas mesmas. Falta de respeito pelos docentes dos quadros de zona pedagógica que esperaram quatro anos para concorrer por um lugar num quadro de um agrupamento. E, por fim, falta de respeito pela verdade, ao deturpar os números das verdadeiras necessidades não transitórias de docentes nos agrupamentos.

O segundo caso é uma irresponsabilidade dificilmente defensável. Não é segredo que o atual ministro da educação não gosta do atual programa de matemática. No entanto, penso que ninguém colocaria a hipótese do mesmo cometer um ato tão irresponsável quanto o agora perpetrado. Seja do ponto de vista financeiro, tendo em conta os avultados investimentos efetuados na criação do atual programa e na respetiva formação de professores. Seja do ponto de vista da tranquilidade nas escolas, onde esta atitude veio trazer uma desnecessária e injustificável agitação. Seja do ponto de vista da seriedade intelectual, visto não haver qualquer indício que justifique a substituição do atual programa. E, mais uma vez, seja do ponto de vista da verdade, tendo em conta que no despacho da revogação em causa se pode ler, relativamente às metas curriculares de matemática: «durante o corrente ano letivo, ao serem aplicadas com carácter não vinculativo, a sua utilização teve resultados muito positivos nas escolas e nas turmas em que as mesmas foram usadas, conforme consultas efetuadas junto das escolas». Não sei se terão escrito tal disparate por ingenuidade ou por simples ironia, mas uma coisa é certa: ou não têm mesmo qualquer conhecimento sobre o que se passa nas escolas, ou não são sérios. Por outro lado, já enjoa a repetição da acusação de dirigismo pedagógico ao atual programa, mais uma vez surgindo no referido despacho. Nem a repetição de tal acusação até à exaustão a torna numa verdade, nem disfarça o dirigismo resultante da aplicação das metas curriculares.

Por fim, espero que todos estes acontecimentos abram os olhos dos professores, para que não voltem a ser ingénuos e tornem a dar crédito ao próximo indivíduo bem-falante que apareça pelas televisões a dizer meia dúzia de chavões provenientes do seu senso comum, sem qualquer conhecimento real sobe educação.

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por ap7 às 00:06

Domingo, 14.04.13

“Inventem-se novos pais" V (01/09/2004)

Em Setembro de 2004, na iminência de um novo ano letivo, escrevi o quinto texto dedicado à educação em meio familiar, com ênfase na primeira infância. Deixo aqui o mesmo, pedindo desculpa pelo facto de um comentário da Joana, referido no texto, ter-se perdido no mundo "internético".

 

“Inventem-se novos pais” V

Depois de um interregno considerável derivado da “silly season”, continuo a minha reflexão escrita sobre a educação familiar. Mantenho este tema por considerá-lo um tema emergente e urgente, pois que as implicações do mesmo são importantíssimas para a vida de muitos futuros adultos. Prova da emergência de tal tema é a chuva de textos nos meios de comunicação social escrita que criticam o nosso sistema educativo e os jovens de hoje, apelidando os últimos de preguiçosos e com outros adjetivos desagradáveis. No entanto, custa-me criticar somente esses jovens, algo muito fácil e que acarreta aplausos de todos os quadrantes, esquecendo aqueles que os ajudaram a crescer, que foram corresponsáveis pela sua formação nos mais diversos aspetos. Os contagiados pela “opinite” (expressão muito bem conseguida pelo Miguel), criticam o sistema educativo, consequentemente criticam os jovens, esquecendo o facto de serem os seus educadores, logo grandes responsáveis pelo estado atual das gerações mais novas. Não quero dizer com isto que não haja razões para criticar muitos dos jovens. No entanto, será mais profícuo gastar uma hora por dia a pensar como melhorar a situação atual, do que estar todo o dia a criticar essa mesma situação.

Apesar das críticas dos “opiniteiros” se dirigirem quase exclusivamente aos jovens, continuo a bater na tecla da primeira infância, onde se forma quase totalmente o carácter e a personalidade da criança, facto que a Joana ajudou a explicar.

Assim, continuo a refletir sobre a questão da procura de consensos entre os educadores sobre o rumo a dar relativamente à educação dos seus educandos.

Um dos fatores importantes para que tal aconteça é a tal comunicação entre os educadores sobre os comportamentos dos seus educandos, e sobre o que fazer para melhorar alguns aspetos dos mesmos. Para tal, será inicialmente necessário que os educadores acreditem no seu papel preponderante na formação da personalidade dos seus educandos. A partir do momento em que acreditam que uns nascem “assim” e outros “assado”, portanto nada havendo a fazer, estamos perante um final catastrófico. Verifica-se, no entanto, que os defensores do determinismo só o são após uma má experiência relativamente aos seus educandos, sendo mais uma forma de justificar o seu “insucesso”. Na realidade, antes de se verem no papel de educadores, todos sabem apontar os erros efetuados por outros educadores. O que sucede então com esses indivíduos quando se vêm nesse papel? Admito não fazer a mínima ideia em alguns dos casos. Existem aqueles que nunca refletiram muito sobre questões educativas. Para além disso, confundem progenitores com pais e, face à falta de vontade em ser pai na sua plenitude, deixam que os seus filhos cresçam e se autoeduquem. O resultado é, na esmagadora parte dos casos, catastrófica, salvo quando existe a intervenção de outros adultos que vão incutindo alguma educação nessas crianças. Depois há aqueles que, por uma série de acontecimentos desafortunados na sua vida, perdem a força para educar os seus educandos. Estes dificilmente poderão ser criticados. Havendo ainda muitas e diversas situações, nas quais se consegue explicar minimamente o que se passou com os educadores para “falharem”, há, no entanto, uma que se apresenta como a mais enigmática: é o caso daqueles que sempre apontaram defeitos à educação ministrada por outros educadores e, quando na situação de educadores, imitam-nos. Já observei e tentei compreender estes casos, mas nunca o consegui. Falta-me a coragem para os interpelar sobre o assunto, pois que o mesmo é muito melindroso, podendo gerar um conflito desnecessário. Compreendo que não é fácil pôr em prática certos procedimentos com os nossos filhos, sobretudo aqueles que implicam sofrimento dos mesmos. O sofrimento que sentimos nessas ocasiões é, por vezes, brutal. No entanto, se os amamos, não compreendo que se opte pelo caminho mais fácil para nós, que levará a um enorme sofrimento futuro dos nossos filhos. Alguns pais dizem: sabemos que estamos a criar maus hábitos no nosso filho, mas quem sofre as consequências somos nós. Infelizmente, futuramente, esse jovem irá ser alvo de um grande sofrimento derivado desses maus hábitos. Em muitos casos, o sofrimento vem a curto prazo, devido às críticas constantes dos pais, à falta de habilidade em lidar com os seus pares, fazendo com que estes os coloquem de parte, e à falta de vontade de outros adultos privarem com estas crianças, pois o prazer em tal facto passa a ser residual.

O prazer supremo resultante do esforço de educar o melhor possível os nossos filhos, é ter orgulho nos mesmos, poder elogiá-los, vê-los felizes e sociáveis, e verificar que as outras crianças e adultos apreciam a sua companhia. Por estes factos, e por saber que os estamos a ajudar a serem potenciais futuros adultos felizes, vale a pena efetuar sacrifícios no sentido de lhes incutir as melhores aprendizagens.

Haveria ainda muito a escrever sobre este assunto, no entanto, irei passar para outra questão ligada à educação na primeira infância: quando começa essa mesma educação?

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por ap7 às 23:02

Sexta-feira, 29.03.13

“Inventem-se novos pais” IV (28/07/2004)

Após o terceiro texto dedicado à educação na primeira infância, Joana de Oliveira surgiu na reflexão conjunta com este pequeno texto:

Estímulos. Penso que poderíamos começar por aí. A quantidade e variedade de estímulos (e agora, pela lógica, deveria dizer "a que as crianças estão sujeitas", não é?) aos quais os adultos estão sujeitos, o trabalho e suas reuniões fora de hora, as formações, o quotidiano – banco, pagamentos, médicos, exames – a família, os encargos, os amigos, o fim de semana para descansar (?), as leituras obrigatórias, ah, e os filhos. O que é que sobra para os filhos? Quando teríamos alguma disponibilidade para eles, estamos feitos num oito. Eles falam, balbuciam, tentam comunicar, e nós não temos mais disponibilidade emocional nem sinapses suficientes para receber, integrar e elaborar as informações que eles nos estão a dar. Ora, as crianças assim como os adultos, comunicam com quem está disponível para comunicar. Com o tempo, desistem. Precisam de respostas, precisam do olhar atento, amoroso ou/e não, da palavra, da risada ou não, mas de comunicar. Se nos pais não houver esta disponibilidade, a criança procura noutro sítio.

Na televisão, no jogo simbólico solitário, na escola com mais 20 ou 25 colegas, na mesma situação deles. Todos aos gritos, todos sem capacidade de esperar a vez de falar e ouvir, de tentar compreender o outro, incapazes de olhar, porque não são olhados. Ficam sem esquemas de comunicação adequados, não por incompetência, mas por falta de prática.

Crianças mal criadas? Talvez crianças não criadas, crianças tidas. Crianças chatas? Adultos, pais, chatos, por falta de hábito na competência de comunicar.

Tentando partir de algumas das ideias descritas pela Joana, surgiu o quarto texto.

“Inventem-se novos pais” IV

O último texto, da autoria da Joana, alerta para um problema extremamente atual no que concerne ao crescimento das crianças: a dificuldade por parte dos pais em gerir o seu tempo. Concordo que hoje em dia não faltam motivos para que os adultos estejam ocupados. Não vou afirmar que é fácil conseguir arranjar tempo para tudo o que quero fazer. Sinto que os meus dias deveriam ter pelo menos quarenta horas, tudo seria mais simples. No entanto, quando decidi ser pai, sabia que teria de prescindir de muita coisa, quer a nível profissional, quer do ponto de vista pessoal. Assim, a partir do momento em que geramos o nosso primeiro filho, nós, os pais, colocamos no topo das nossas responsabilidades esse mesmo ser, pois não foi ele que pediu a sua vinda. Fizemos um pacto silencioso, em que nos responsabilizávamos pelo crescimento espiritual, físico, afetivo e pessoal dessa mesma criança. Quando o segundo filho foi gerado, fizemos o mesmo juramento. Assim, nunca nos permitiremos olhar para estas duas crianças como um fardo, pois somos nós os responsáveis pelo seu aparecimento.

Tendo em conta este facto, procuramos equilibrar o tempo, fazendo com que dê para tudo o que é imprescindível, criando criteriosamente uma lista de prioridades. Não nos colocamos a nós no topo, as nossas vontades e caprichos, mas sim aquilo que merece realmente o nosso empenho. Obviamente que no topo destas prioridades estamos nós os quatro, como um todo, e só depois cada um de nós individualmente.

Com tudo isto, pretendo demonstrar que o que está em causa é o que nos move, quais as razões pelas quais fazemos as nossas escolhas. Neste caso específico, quais as razões que nos levam a procriar. O que leva uma pessoa que vê os seus filhos como um fardo a ter mais filhos? Razões de ordem afetiva, social...? O que são os pais? São o homem e a mulher que geram uma criança, ou aqueles que a orientam e apoiam no seu crescimento? Neste ponto concordo plenamente com a Joana quando fala de “crianças não criadas, crianças tidas”, pois pior que uma educação ineficaz é uma não educação. No entanto, o meu primeiro texto referia-se simplesmente à educação dada às crianças nos seus primeiros 4-5 anos de vida, a educação de base que praticamente molda a personalidade do ser, e condiciona fortemente a forma como a educação será gerida a partir de então. Quando iniciei esta reflexão, somente me referia a essa base educacional construída nos primeiros anos de vida de cada criança. A ênfase que dou a esta fase acontece, porque acredito que são esses primeiros 4-5 anos que irão praticamente determinar de que forma o resto do crescimento da criança irá decorrer. Face às características físicas e psicológicas do ser humano, em que se encontra mais apto a apreender comportamentos no início da sua vida, perdendo gradualmente essa capacidade, facilmente se poderá compreender quão importante é determinar quando se deve começar a tentar incutir certos comportamentos e valores nas crianças. Não é tarefa fácil, pois cada criança tem o seu ritmo de crescimento em cada um dos aspetos que a formam. No entanto, se houver uma verdadeira preocupação e compromisso na procura deste objetivo, tudo poderá ser conseguido. Porém, muitos dos pais que não compreendem o seu papel, quer por verem nele um fardo, quer por ignorarem tais factos, limitam-se a gerir a relação com os seus filhos na perspetiva de uma autoeducação, em que vão cedendo aos caprichos normais de qualquer criança, criando algo com que mais tarde não conseguem lidar, limitando muito do tempo que passam com essas crianças. Deste modo, acredito que se os pais compreendessem e fizessem um esforço considerável nos primeiros anos de vida das crianças, no sentido de moldarem a personalidade das mesmas, procurando, na medida do possível e lógico, incutir-lhes as aprendizagens ao nível da responsabilidade, da autonomia, da entreajuda, do respeito pelo próximo, do respeito pela propriedade alheia, da capacidade de lidar com as frustrações e de todas as regras básicas de vivência em sociedade, muitos destes casos de “crianças não criadas, crianças tidas” não aconteceriam, não se encontrando tanto jovem manifestamente infeliz.

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por ap7 às 15:22

Domingo, 24.03.13

“Inventem-se novos pais” III (22/07/2004)

Recupero o terceiro texto dedicado à educação na primeira infância, publicado no anterior sítio Internet em julho de 2004, dois dias após o anterior.

“Inventem-se novos pais” III

Sendo este tema um daqueles nos quais facilmente podemos cair no radicalismo, tal a sua delicadeza, vou fazer um enorme esforço para utilizar um discurso equilibrado, minimamente consensual, visto que as resoluções desta discussão interessam a todo e qualquer ser humano, independentemente das suas diferentes visões. Assim, as possíveis conclusões a que tal discussão poderá levar, terão de ser compatíveis com as diferentes mentalidades individuais. Por outro lado, tal discussão deixará de fazer sentido para aqueles que têm uma visão extremista em relação a este tema. Porém, estes nunca poderiam participar numa discussão, porque nestas temos de estar preparados para ouvir e aceitar opiniões divergentes da nossa. Deste modo, o objetivo desta discussão não é a defesa de uma qualquer corrente ao nível da educação de crianças, mas sim a procura de pontos comuns e de consensos entre as diversas visões de cada um.

Quando se fala em educação, incluindo a de crianças pequenas, uma das expressões que, mais tarde ou mais cedo, surge é a célebre: “na educação não há remédios nem soluções óbvias...”. Não discordo de tal facto, mas acrescentaria algo mais a tal expressão. Sei que não se sabe exatamente o que se há de fazer no que concerne à educação de miúdos, mas sabe-se razoavelmente bem o que não se deve fazer. Deste modo, estes textos de reflexão educativa irão ser dedicados a esses erros crassos que se cometem na educação de crianças. Por outro lado, estes erros permitem descobrir alguns fatores importantíssimos para uma educação bem conseguida. Portanto, podemos modificar a expressão atrás referida para: “Não há soluções para a educação de crianças, mas conhecem-se alguns fatores basilares em tal educação, bem como procedimentos que nunca se devem ter”.

Sendo assim, dedico este texto àquele fator que será, quiçá, o mais negativo na educação de uma criança: quando os responsáveis por tal educação têm opiniões completamente divergentes em relação a como educar a criança. Obviamente que, ao longo do crescimento de uma criança, vão aparecendo múltiplas situações em que os responsáveis por tal educação divergem. No entanto, o problema está no facto de nessas situações cada um tomar uma atitude completamente divergente da do outro, para além de, por vezes, o demonstrarem na presença da criança. Quantas vezes assistimos nós a situações em que um dos progenitores de uma criança faz algo e é automaticamente desautorizado pelo outro, inclusivamente em frente da criança? Este problema não se colocava há uns anos, quando o pai decidia quais os procedimentos a ter relativamente à educação dos filhos, ou quando era a mãe, completamente isolada, que educava os filhos, sendo o pai uma figura relativamente distante. Felizmente são outros tempos. Estando nós em tempos de relativa igualdade entre os progenitores (relativa porque não é total, não faltam exemplos neste país de famílias “à antiga”), surgiu este problema. O que acontece nestes casos? O mais grave é quando a criança perde totalmente o respeito pela autoridade do progenitor sistematicamente desautorizado pelo outro à sua frente. Quando as divergências não acontecem em frente da criança, mas são óbvias para a mesma (sobretudo quando há pouca comunicação entre os educadores), a criança aproveita-se de tal facto. São muitos os casos de crianças que pedem algo a um dos pais e, perante uma resposta negativa, pedem ao outro, conseguindo aquilo que queriam (para verificar tal facto de forma simples, basta observar uma aula com mais de um professor em que estes não comuniquem ou não tentem convergir em termos disciplinares). Até já assisti a crianças que, depois de conseguir o que queriam, através do segundo responsável pela sua educação, foram demonstrar tal facto, com um ar provocador, àquele que lhe tinha respondido negativamente. Os ensinamentos daqui retirados corroem o sentido de justiça de uma criança, demonstrando-lhe que os meios pouco éticos dão resultados práticos, o que interfere com o sentido ético do futuro adulto.

Sendo este um facto óbvio e dificilmente contra-argumentado, resta-nos concluir sobre qual o comportamento que os educadores devem então ter neste ponto específico. Pessoalmente, acredito em duas coisas: comunicação e procura de consensos. O primeiro fator é, para mim, o mais importante. Não só porque, no caso dos progenitores, estar intimamente ligado à qualidade da sua relação afetiva, mas também pelo facto de ser, teoricamente, o fator mais simples e essencial. Essencial, porque sem comunicação não se poderá chegar à procura de consensos, o segundo fator. Mesmo que estes consensos não sejam totais, a sua procura, através da troca de ideias sobre diversos acontecimentos relacionados com a educação dos seus filhos, permitirá uma reflexão conjunta sobre os mesmos, através de argumentação e contra-argumentação, o que levará a compreender melhor os seus papéis de educadores e, consequentemente, tomar as melhores opções em cada situação (costumo dizer que a melhor opção é aquela que resulta de uma profunda reflexão, independentemente do seu resultado, pois este nunca se pode saber de antemão, pois nesse caso não seria necessário procurar algo como a melhor opção).

Tendo em conta que este fator da educação das crianças merece mais tempo de reflexão, fico, para já, por aqui, esperando reações que me permitam ter outras perspetivas sobre este ponto, as quais poderei ter olvidado.

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por ap7 às 20:42

Domingo, 17.02.13

“Inventem-se novos pais” II (20/07/2004)

Recupero agora o segundo texto dedicado à educação na primeira infância, publicado no anterior sítio Internet em julho de 2004 (tinha a minha pequenina quase 3 anos e o pequeno caramelo quase 1).

Relativamente ao texto anterior, dificilmente poderia concordar mais com os comentários efetuados pela Joana. O dedo colocado na ferida ao comparar a educação de crianças ditas "normais" com as que supostamente não o são, não poderia ser mais oportuno. Relativamente ao apoio profissional que os pais poderão obter, só lamento que haja tantos modos díspares de agir e pensar, por vezes diametralmente opostos, entre os diversos profissionais citados. Mas este facto é simplesmente o fruto natural de um tema deveras complexo e que ainda apresenta mais interrogações que certezas.

 

“Inventem-se novos pais” II

Tendo em conta o fim do ano letivo e a importância do tema que faz título a este texto, resolvi congelar momentaneamente a reflexão coletiva e escrita sobre avaliação, voltando a insistir neste tema de tal forma polémico, ao ponto de quase se poder chamar um tabu da sociedade atual.

Detesto a célebre expressão “no meu tempo...”, mas tenho uma leve impressão que hoje em dia proliferam os casos de miúdos mal-educados. Para dar mais força a esta minha ideia, ouço outros indivíduos, que também detestam a proferida célebre expressão, que também acreditam num crescente número de casos de crianças que apresentam tal característica. Para continuar esta a discussão desta problemática, considero importante definir o que é um miúdo mal-educado. Pessoalmente, não considero um miúdo reguila, remexido ou que faça as suas asneiras, mal-educado. Isto porque, para se aprender o que é correto e errado, é necessário existir uma situação problemática, onde a criança tenha feito algo errado, para aprender que tal comportamento é incorreto. Em muitos casos, têm mesmo de acontecer várias situações para que a criança apreenda tal aprendizagem (por exemplo, lá pela criança aprender que não pode brincar com o comando da televisão não implica que aprenda que não pode brincar com um telemóvel). Com todas estas situações a criança vai aprendendo o que não é correto fazer e porquê. Concluindo, é absolutamente normal que a criança cometa muitas “asneiras”, pois não nasce com a noção do que é lícito fazer ou não. Deste modo, quando falo em crianças mal-educadas refiro-me às que não têm qualquer noção do que está correto, ou não, fazendo ouvidos moucos ao que os adultos dizem, fazendo somente o que querem, em suma, pequenos ditadores. A questão é: porque é que ficam assim?

Uma das teorias que ouço é que nascem assim, o que se há de fazer? Tendo em conta que estas mesmas crianças (as que nascem assim), com outros adultos (que não os que proferem tal teoria), se comportam de um modo, por vezes, fenomenal, coloco esta teoria completamente de parte. Não digo que não haja crianças mais complicadas de educar que outras. No entanto, não posso responsabilizar em exclusivo as crianças por serem, por vezes, insuportáveis. Compreendo que, para os pais dessas crianças, que admitem mesmo não ter paciência para os seus filhos, seja mais fácil acreditar que os seus filhos são como são, não pela sua ação ou inação, mas porque assim nasceram; e que aqueles que têm filhos bem-educados têm sorte. No entanto, vejo que é essa mesma descrença no seu papel, uma das grandes responsáveis pelo seu parco investimento na educação dos seus filhos. Por outro lado, tal como as crianças não nascem educadas, também os pais não nascem sabendo como educá-las. Depois do nascimento da criança, chovem opiniões completamente divergentes de familiares, de amigos, de revistas da especialidade, etc.. Para além disso, nem sempre os dois progenitores estão de acordo sobre as ações a levar relativamente aos seus filhos. Assim, as coisas não ficam tão simples quanto se poderia pensar inicialmente.

Havendo tantos fatores a ter em conta, e sendo este um tema tão melindroso ao ponto deste pequeno texto já dar muito que discutir, continuá-lo-ei num texto posterior.

 

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por ap7 às 17:17

Sábado, 09.02.13

“Inventem-se novos pais” I (06/07/2004)

Depois de uma semana de loucos na escola, com vários episódios complicados proporcionados por alunos cuja educação deixa muito a desejar, ficou-me na retina uma frase de uma das mães envolvidas: "Não se pode culpar os pais."

Esta frase fez-me lembrar uma série de textos por mim escritos entre 2004 e 2006, dedicados à educação em meio familiar, que, devido ao desaparecimento da weblog, desapareceram da Internet.

Deste modo, os acontecimentos desta semana serviram-me de pretexto para recuperar esses mesmos textos, sempre (e cada vez mais) atuais. Só tenho pena de não conseguir recuperar os comentários que os mesmos tiveram, que levaram a uma discussão extremamente interessante (por vezes um pouco agressiva), enriquecendo a mesma e dando-me outras perspetivas sobre o tema.

Por outro lado, é também de lamentar que a falta desses comentários tenha feito com que só tenha sobrado a minha opinião sobre o tema, perdendo-se outros modos de pensar igualmente importantes.

Por fim, devo apenas dizer que, relendo o por mim escrito há quase oito anos, somente diminuiu a dureza do meu discurso, provavelmente devido aos anos que tenho passado a tentar ajudar alguns pais a lidar com os seus filhos, sentindo e partilhando as suas frustrações, e tentando compreendê-los.

A escrita deste texto foi despoletado por um artigo do jornal "O Público", o qual já não se encontra online e que, sinceramente, não me lembro do conteúdo.

 

“Inventem-se novos pais” I

Estava eu a preparar um texto de continuação da reflexão sobre avaliação quando, na leitura de O Público, me surgiu isto. Não me espanta tal notícia, nem me irá espantar quando esta forma de caça às bruxas chegar a Portugal. Socialmente já chegou, bastará para tal verificar as diferentes reações que poderão acontecer em duas situações distintas. Perante um comportamento errado e ignóbil de uma criança num local público, cria mais olhares reprovadores uma palmada de forma a corrigir o dito comportamento, que o comportamento de “bananas”, por parte dos pais, cedendo à chantagem que tal comportamento por norma significa. Não importará que a médio/longo prazo, a criança cujo comportamento foi corrigido seja um jovem/adulto equilibrado, consciente do “eu” e do “não eu”, com um apurado sentido de justiça; e que o segundo seja um imbecil com o único conhecimento da existência de ele próprio, frustrado, infeliz, para quem a justiça consiste na sua vontade (uma curta viagem numa qualquer escola dará para verificar todos estes factos).

Não defendo que se bata nas crianças, desde que tal signifique espancar, de uma forma selvagem, resultado de uma explosão pessoal (muito comum naqueles pais que evitaram castigar as crianças porque eram “pequeninas”, transformando-as em pequenos “monstros”, sendo verdadeiramente insuportáveis numa idade em que os seus comportamentos se revelam totalmente desajustados). Caso fosse possível, seria excelente nunca bater/castigar os filhos, pois não acredito que alguém minimamente equilibrado tenha prazer em tal facto. Verifico que a totalidade dos casais com quem privo, que defendem nunca bater nos filhos, sentem-se algo frustrados e sentem estar a falhar, pois o que não foi feito já não o poderá ser agora. A maioria deles via nos “castigos” a melhor forma de corrigir um comportamento errado. No entanto, fizeram a triste descoberta que tal estratégia não funciona em todas as situações.

É natural que todas as crianças errem. Estão em crescimento e numa aprendizagem constante de como viver em sociedade. Não haverá uma que tenha um comportamento exemplar de raiz. O mais saudável é que façam asneiras (algumas conscientes, outras não), mas o que mais me choca não é que o façam (tenho dois filhos, e não são nenhuns totós, quando podem fazem as suas travessuras). O que mais me choca é ver um pai ou uma mãe dizer para o filho(a) fazer, ou não fazer, algo, e o garoto(a) realizar exatamente o contrário, com um sorriso nos lábios, misto de conquista e afronta, e a reação dos pais ser um: “Ai! Este miúdo(a) é impossível, não sei o que hei de fazer. Estou mortinho(a) que ele(a) vá para o infantário para aprender a obedecer”. Nestes momentos, a minha vontade não é dar um açoite na criança, mas sim espancar os pais. Não por serem uns “bananas”, mas sim por estarem a criar um futuro adulto desequilibrado emocionalmente, incapaz de lidar com qualquer frustração, irresponsável... numa só palavra: infeliz.

Quando me apercebo destes movimentos de caça às bruxas, que comparam a violência atroz a um simples açoite no momento certo, revolto-me, não pelos responsáveis de tais movimentos, mas pelo efeito nefasto que tem sobre as crianças, pais e respetivos ambientes familiares. Quando ouço estas teorias, peço simplesmente para conhecer os filhos dos seus representantes. É o suficiente para terminar a discussão.

Quem conhece um pouco sobre as teorias libertárias da educação, sabe que as únicas que tiveram sucesso foram aquelas em que a liberdade da criança era por esta conquistada diariamente, e não era um dado adquirido. Neste último caso, as experiências resultaram em relativo fracasso. Não esperem que uma criança nasça educada, ou que se autoeduque. Tal como a firmeza não é suficiente para educar uma criança, o amor, por si só, igualmente se mostra insuficiente. E nos casos de manifesta má educação, por muito que o amor lá esteja, os atos não o demonstram (dado que a criança não conhece limites, os pais acabam por considerá-la insuportável, criticando-a constantemente), e isso para uma criança deixa marcas profundas e dolorosas. A própria falta da firmeza tem o mesmo resultado: um sentimento de desamor.

Sendo este um tema extremamente controverso, por ventura o mais dos aqui já tratados, e não havendo “receitas” de uma boa educação, há, pelos menos, traves mestras para uma educação equilibrada. E uma delas é exatamente isso: o equilíbrio, o caminho do meio. Nem o radicalismo dos anti-açoite, nem o radicalismo dos pró-“porrada pr’á frente”.

 

P.S.: o título deste texto não é da minha autoria mas, face à genialidade do mesmo, resolvi utilizá-lo como homenagem.

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por ap7 às 20:25

Terça-feira, 15.01.13

A "examificação" do ensino básico

No dia 6 de dezembro, faltando pouco mais de uma semana para o término do 1.º período e para o início das respetivas reuniões de avaliação, foi publicado o despacho normativo n.º 24-A/2012, o qual, à imagem da maior parte dos diplomas legais que são da autoria da atual equipa ministerial, veio revogar toda a legislação até então existente regulando a matéria em causa. Neste caso, a avaliação dos alunos.

Não me irei alongar muito sobre a irresponsabilidade de introduzir modificações numa data tão próxima do início das reuniões de avaliação. Apesar das escolas e dos professores terem já muito que fazer, tendo em conta o período que se avizinhava, lá estenderam um pouco mais os seus maleáveis horários de trabalho de modo a estudar cada pormenor do novo diploma legal, para que se minimizassem os erros que se poderiam efetuar ao não respeitar cada um dos pormenores enunciados.

No entanto, excetuando os pormenores, o novo diploma legal não veio introduzir grandes mudanças na avaliação dos alunos. Se retirarmos as modificações ao nível da avaliação sumativa interna no primeiro ciclo, podemos afirmar que, grosso modo, a avaliação interna dos alunos em nada mudou. Pelo menos aquela que tem uma vertente contínua e sistemática, nas palavras do referido despacho normativo. Apesar de, inexplicavelmente, terem omitido os artigos que deveriam referir a avaliação diagnóstica e a avaliação formativa, estas modalidades de avaliação continuam naturalmente presentes no nosso contexto legal através do decreto-lei n.º 139/2012 (organização curricular dos ensinos básico e secundário). Ou seja, no que concerne à avaliação interna dos alunos, excetuando a forma como a mesma é formalizada na avaliação sumativa interna no 1.º ciclo, tudo o resto se mantém, como seria expectável e recomendável. Ou seja, por muito que alguns docentes, espero que poucos, quisessem que a avaliação formativa e a diagnóstica desaparecessem da nossa realidade educativa, por serem «pantominas de tantos "pedagogos"», alguém terá explicado ao nosso ministro no que consistem estes tipos de avaliação, de modo a que ele compreendesse que não são nenhuma aberração ou «“modernices pedagógicas”», como inteligentemente disse António Barreto. No entanto, provavelmente para alegrar alguns dos seus correligionários, naquilo que parece uma provocação, as mesmas ficaram fora do despacho que regulamenta a avaliação dos alunos. Um desses correligionários também deverá ter andado a ler umas coisitas sobre avaliação, visto ter sido convidado a escrever o prefácio de um livro sobre a avaliação dos alunos. Claro está que o seu parco conhecimento levou-o a escrever a gafe: «a classificação final do aluno resulta de uma média entre a avaliação sumativa e a avaliação formativa». Porém, também deverá ser afirmado, em defesa do visado, que as suas leituras já o fizeram ver que as duas formas de avaliação, formativa e sumativa, «são necessárias e as duas complementam-se», ao contrário dos docentes anteriormente citados. E sei que o que ele queria dizer na gafe produzida era que a classificação final resulta de uma média entre a avaliação sumativa interna e a avaliação sumativa externa. No entanto, tal como ele, sou um fervoroso defensor do rigor, daí ter dificuldade em perdoar erros desta envergadura, sobretudo escritos. Mas a culpa não é dele, mas sim de quem o convidou a escrever tal prefácio. Convidar alguém que possui espaço mediático em detrimento de quem tenha real conhecimento sobre o tema dá nisto. O único erro que se poderá apontar à pessoa em causa é não ter a humildade de assumir que tal área não é da sua competência e, consequentemente, ter agradecido o convite e assumido que outro, que não ele, deveria escrever tal prefácio. Só lhe ficaria bem. Ainda no que concerne às pequenas modificações registadas na avaliação interna dos alunos, é de estranhar a opção tomada no 1.º ciclo, onde uma equipa ministerial liderada por alguém que põe grande enfoque na quantificação e na classificação, opte por uma avaliação sumativa interna nos 1.º, 2.º e 3.º anos totalmente descritiva. E, mesmo no 4.º ano, excetuando Português e Matemática, onde há classificação nos três períodos, nas restantes áreas disciplinares só no último período há lugar a menção qualitativa.

Apesar de na avaliação interna dos alunos não haver modificações consideráveis a registar, há algo que se observa neste diploma legal que é bastante visível para qualquer docente: a “examificação” do ensino básico (“examificação” porque, sinceramente, “provafinalização” ou “provazação” soam muito mal). E em que consiste esta “examificação”? Consiste em fazer provas para tudo e mais alguma coisa, fazendo lembrar os elixires de outrora que curavam toda e qualquer maleita. Enquanto anteriormente só em raras situações havia lugar, no ensino básico, a provas de equivalência à frequência, agora haverá as mesmas sempre que um aluno não obtenha aprovação no 6.º ou 9.º ano. E em duas fases! Ou seja, as escolas irão ter provas “a dar com um pau”, com a burocracia e os pormenores procedimentais associados. Para além disso, enquanto anteriormente só eram admitidos às provas finais os alunos que tivessem avaliação sumativa interna que possibilitasse, após as provas finais, a obtenção das condições necessárias à aprovação, agora tais condições de admissão só persistem no 3.º ciclo, isto é, qualquer aluno dos 1.º e 2.º ciclos, independentemente da avaliação sumativa interna, poderá efetuar as provas finais na 1.ª fase. Ou seja, para além de haver a “examificação” do ensino básico, ainda se assiste à desvalorização da avaliação sumativa interna efetuada pelos docentes durante um ano letivo, em detrimento de uma prova cuja duração máxima ficará pelos 120 minutos. Ridículo dirão alguns… Facilitismo dirão outros… E esta desvalorização ainda é maior do que as palavras que até agora escrevi possam supor. De acordo com o número 7 do artigo 10.º do despacho normativo em causa, qualquer aluno do 1.º ou do 2.º ciclo que realize as provas finais e fique não aprovado, para além de poder ir à 2.ª fase das mesmas, a classificação que aí obtiver será considerada como classificação final da disciplina, ou seja, a avaliação sumativa interna deixa de ser tida em conta. Poder-me-ão dizer que isso também sucede com as restantes disciplinas (as que não têm prova final). No entanto, há uma diferença: enquanto nestas últimas as provas de equivalência à frequência são criadas pelos docentes que procederam à avaliação sumativa interna, com o grau de exigência que consideram adequado, as provas finais são criadas por entidades externas à escola, sobre as quais os docentes não têm qualquer influência ou controlo, podendo o grau de exigência ser completamente díspar daquele que os docentes consideram adequado. Para se compreender esta situação bastará relembrar o que sucedeu há uns anos, na disciplina de Matemática no 12.º ano, onde o grau de dificuldade dos exames chegou a um nível tão baixo ao ponto de os bons alunos optarem por anular a disciplina, de modo a que a avaliação interna dos seus professores os não prejudicasse na classificação final. E, por muito que o discurso do ministro esteja recheado de palavras como rigor, exigência e excelência, a sua prática governativa e legislativa em nada se harmoniza com esse discurso. De facto, “o rei vai nu”. E mesmo que o nível de exigência seja aquele que o docente considera adequado, nunca uma prova de tempo limitado poderá avaliar tudo o que foi trabalhado durante um ciclo de 2, 3 ou 4 anos, ou seja, nunca a classificação obtida nessa prova poderá ser um resultado fidedigno de tudo o que foi trabalhado em tão longo espaço de tempo e das aprendizagens efetuadas pelo aluno no mesmo. E isto aplica-se tanto nas provas finais como nas provas de equivalência à frequência.

Outra das novidades do novo diploma legal, esta já prevista, pelo menos para o 1.º ciclo, é o período de acompanhamento extraordinário. Este decorrerá entre as reuniões de avaliação após se saber os resultados das provas finais efetuadas na 1.ª fase e as provas finais a realizar na 2.ª fase. Esse acompanhamento extraordinário destina-se aos alunos que não obtiveram aprovação no final dos ciclos referidos, e «visa colmatar deficiências detetadas no percurso escolar dos alunos». Se formos honestos, facilmente poderemos concluir que, face aos alunos em causa e ao tempo previsto para o acompanhamento extraordinário, pouco mais se poderá fazer do que preparar os alunos para as provas que irão efetuar, na pior acessão que esta expressão poderá ter. Para o ilustrar, poderei utilizar a minha experiência pessoal como matemático que, por vezes, dá explicações da área a alunos do ensino superior que estão aflitos com determinadas cadeiras. Certa vez, pediu-me apoio uma aluna num contexto complicado: não tinha tido matemática no secundário, nas aulas da referida cadeira não tinha percebido nada (palavras dela e eu pude corroborar tal facto), já tinha chumbado em exame da cadeira por mais do que uma vez (o que para a sua confiança era destrutivo), e tinha muito pouco tempo até o exame seguinte (o que a impedia de efetuar as aprendizagens necessárias de um modo efetivo). Após observar os exames da cadeira que ela tinha na sua posse, fui sincero e ofereci-lhe o único caminho possível para que pudesse fazer a cadeira após as 5 ou 6 horas que iríamos estar juntos até ao exame: como os exames eram quase todos iguais na sua forma, algo muito comum no ensino superior, iria mostrar-lhe como realizar cada um dos exercícios apresentados num dos exames, proporcionando-lhe o mínimo de conhecimento necessário para compreender a resolução efetuada e, em seguida, ela faria sozinha, com o meu apoio quando necessário, os exercícios do mesmo tipo presentes noutros exames. Ou seja, preocupei-me única e exclusivamente em fazer com que ela conseguisse resolver os tipos de exercícios apresentados, em detrimento de a fazer adquirir os conhecimentos referentes à cadeira em causa. Isto para respeitar a sua vontade que era fazer uma cadeira da qual simplesmente se queria libertar. Encurtando a história, a aluna fez a cadeira. Muito haveria a dizer sobre o rigor e a exigência associados à avaliação da cadeira, ou sobre a eficiência das atividades letivas da mesma, mas tal mereceria um texto dedicado exclusivamente a esta história real.

Uma última palavra relativamente ao regozijo generalizado por parte dos professores quando receberam a notícia de que, com este despacho normativo, era revogado o despacho normativo n.º 50/2005, o qual havia instituído os planos de recuperação, planos de acompanhamento e planos de desenvolvimento. «Desburocratização!» - exclamavam. Sol de pouca dura… após uma leitura mais atenta encontraram num dos números de um “artigozinho” mais para o fim do novo despacho, que «aos alunos que revelem em qualquer momento do seu percurso dificuldades de aprendizagem em qualquer disciplina ou área disciplinar é aplicado um plano de acompanhamento pedagógico, elaborado pelo professor titular de turma, no 1.º ciclo, ou pelo conselho de turma, nos 2.º e 3.º ciclos, contendo estratégias de recuperação que contribuam para colmatar as insuficiências detetadas». Com “desburocratas” destes quem precisa de burocratas?

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por ap7 às 20:03


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