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educaportugal



Quarta-feira, 18.07.12

A Avaliação III

Pouco tempo depois do segundo, o terceiro... prova de um tempo onde ainda tinha tempo. Foi então que surgiram os contributos dos migueis e da witheball.

 

Ainda a avaliação III (31/03/2004)

Tendo em conta as reações aos textos sobre o tema atualmente em debate neste local, poder-se-ão proferir mais alguns comentários: é uma realidade que muita da avaliação efetuada nas nossas escolas é pouco eficaz e que a formação inicial de professores, bem como a contínua, são pobres neste ponto.

Gostaria de acreditar que só na minha faculdade e que só a minha orientadora de estágio descuraram aquele que será provavelmente o fator mais importante do processo de aprendizagem de um aluno. A minha faculdade é muito bem vista pelo seu exterior, e na preparação científica dos seus alunos poucas críticas lhe poderão ser feitas. No entanto, senti que me formou como matemático e não como professor, e um bom matemático não é obrigatoriamente um bom professor. Quando em contacto com a minha profissão, senti que pouco ou nada sabia sobre educação. Para além disso, no ano de estágio aprendi mais o que não fazer do que o oposto. A orientação científica ligada à faculdade estava completamente desligada da realidade da escola, tendo o orientador de estágio da faculdade visitado a escola uma única vez, no final do ano, quando apresentámos o nosso trabalho científico na mesma. Este trabalho nem se dirigia a alunos, pois tratava-se de matemática tão recente e complexa, que grande parte dos professores que assistiram à conferência teve dificuldade em compreendê-la. Em relação à orientação pedagógica, prefiro não alargar muito os meus comentários.

Sei que há orientadores excelentes e que há faculdades com bons currículos no que concerne à formação de professores. Sei que são uma minoria. Para além disso, também nas faculdades se assiste, por parte dos alunos, a muitos preconceitos em relação às cadeiras ditas pedagógicas, preferindo o orgulho na ignorância do que a abertura de novos horizontes. Mas, tendo em conta que estas mesmas cadeiras são normalmente avaliadas por exame, favorecendo o “cola e esquece”, é compreensível que muitos futuros professores menosprezem estas mesmas, olhando-as como algo que têm de fazer, não com o qual podem aprender.

No entanto, quando um professor entra na sua função, por sua conta e risco, tem espaço de manobra para o seu aperfeiçoamento. Receio que esta tentativa de aperfeiçoamento não seja a regra. Para tal acontecer, é necessário reflexão sobre as suas práticas e estudo sobre questões educativas. Mas, quantos professores leem, por ano, um simples livro sobre um qualquer tema educativo. Habituei-me, nas escolas por onde passo, a requisitar livros sobre estes temas, nas suas bibliotecas, sem qualquer preocupação relativamente ao prazo de entrega dos mesmos, pois, de acordo com as funcionárias, a sua requisição é rara. Mas, mesmo sem esta leitura, os professores podem evoluir muito através de uma reflexão contínua sobre as suas práticas. Pelo que observo, a quantidade destes está ainda longe da aceitável. As discussões que se observam nas escolas entre professores vão mais no sentido da crítica em relação ao que está mal, do que no procurar soluções com vista a melhorar a escola, um pouco que seja. Deste modo, muitos dos que procuram melhorar fazem-no individualmente, o que não tem tanta força como o trabalho de uma equipa. Vê-se, em muitas escolas, muitos bons professores a trabalharem como se fossem ilhas (expressão que um excelente professor que conheci utilizou numa situação particular, deste tipo). Nestes casos, os alunos destes professores ganham muito em tê-los, mas a escola, em si, pouco evolui. Tendo em conta a dificuldade em definir um bom professor, creio que esta capacidade de reflexão fará parte dessa mesma definição.

Havendo já uma enorme base de discussão, continuarei a refletir sobre este tema tão premente, em futuros textos. Espero que estes mesmos textos ajudem outros a refletir sobre tudo isto, tal como eu tenho tentado fazer.

 

André Pacheco

 

Após a publicação este texto foi brindado com três excelentes contribuições.

Miguel Pinto, em 31/03/2004: A dimensão sócio-afectiva tem sido relegada nos processos avaliativos? Um dos argumentos utilizados para legitimar a focalização da avaliação para o domínio cognitivo prende-se com a dificuldade em discernir e adoptar os instrumentos adequados. Será um reconhecimento da falta de preparação dos professores nesta matéria?

Whiteball, em 05/04/2004: Eu já hoje disse isto: o ensino é algo de muito complicado... Há imensas variáveis a ter em linha de conta e eu, em 19 anos de aulas, já experimentei muita coisa: ensinar é para mim tão mais importante que se tornou, para além de uma profissão, uma forma de vida; eu sinto falta da escola, tenho saudades dos meus alunos... Mas de facto muitas vezes agimos por iniciativa própria; temos tendência a resistir à mudança!Vou reflectir, porque tudo isto é muito complicado...

Miguel Sousa, em 07/04/2004: Sou orientador de estágio pela primeira vez... e se fosse hoje, optava por uma pós-graduação em supervisão pedagógica antes de me ter voluntariado para tal empreitada... a avaliação, tal como outras questões dentro da escola não são suficientemente debatidas e mais... debates tendo como ponto de partida pressupostos ultrapassados, como é o caso da reforma do 3.º ciclo do ensino básico, onde se continua a reter os alunos com o mesmo número de níveis negativos do que antes da reforma... só que desta vez a alteração trouxe mais um sem número de disciplinas... por outro lado chumba-se um aluno que é um crânio na matemática ou na física só porque não tirou positiva a português, como que o problema da língua materna só tenha solução dentro da disciplina de português,... um abraço e parabéns pelo excelente espaço de reflexão.

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por ap7 às 14:58



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