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educaportugal



Quinta-feira, 19.07.12

A Avaliação IV

O quarto texto dedicado à avaliação foi construído a partir dos comentários efetuados ao anterior. No entanto, o que o fez especial, foi o brutal comentário efetuado por José Pais.

 

A avaliação IV (08/04/2004)

Aproveito os comentários ao último texto de forma a continuar esta reflexão sobre a avaliação efetuada na escola. Primeiro, Miguel Pinto alertou para o facto de que, se a avaliação do domínio cognitivo é pobre, o que dizer da avaliação da dimensão sócio-afetiva. Na realidade, esta dimensão é confundida pela maioria dos professores como a avaliação do comportamento do aluno. Quantas vezes ouvimos os alunos justificarem a sua autoavaliação com um “eu porto-me bem”? Nestes casos, respondo sempre que esse não é um facto relevante, pois é suposto os alunos portarem-se bem, é a sua obrigação (sejam alunos ou professores), o contrário é que é anormal, e que, nesse caso, eu agiria disciplinarmente. Na realidade, muitos destes alunos que “se portam bem”, muitas vezes não sabem ser cooperativos, sociáveis, responsáveis, autónomos, reflexivos, etc.. Já muitas vezes ouvi colegas meus a referenciar um aluno positivamente porque “não dão por ele”, logo “avaliando-o” positivamente em termos de “comportamento”. Mas, por vezes, o não “dar pelos alunos” pode ser um sinal de alarme, e não uma coisa boa. E, “não dar por um aluno”, mesmo que não haja razões para alarme, não diz nada no que respeita à avaliação dos vários parâmetros possíveis da dimensão sócio-afetiva. Poderíamos condenar os professores por tais factos, e podemos, em parte. Mas a grande responsável continua a ser a pobre formação inicial e a formação contínua.

Segundo, no comentário de whiteball, retiro uma frase muito importante (não menosprezando o restante comentário): “em 19 anos de aulas, já experimentei muita coisa”. Infelizmente, muitos professores não poderão proferir tal afirmação (independentemente do número de anos), pois todos os anos repetem exatamente o que fizeram nos anos anteriores, independentemente dos resultados obtidos (há casos impressionantes: numa das escola por onde passei, uma jovem professora contou-me a sua experiência de ser professora na escola onde foi aluna, experiência que também tive o prazer de ter. Ao falar dos seus ex-professores, agora colegas, falou de uma em especial, contando-me, divertidamente, que a professora passava as aulas a falar das viagens que usualmente fazia a diversos países, o que, para os alunos, era uma grande seca. No entanto, os alunos não se importavam muito com isso, pois como os testes eram os mesmos todos os anos, facilmente tiravam positiva nos mesmos, uma vez que os obtiveram através dos colegas dos anos anteriores. Já agora, tal aconteceu no seu 12º ano).

Por fim, retiro do comentário de Miguel Sousa uma afirmação extremamente importante: “chumba-se um aluno que é um crânio na matemática ou na física só porque não tirou positiva a português, como que o problema da língua materna só tenha solução dentro da disciplina de português”. Apesar da lógica da frase estar ligada às disciplinas envolvidas, prefiro retirar as mesmas, de forma a realizar um comentário mais abrangente, relacionado com a dialética: trabalho em função de ciclo / trabalho em função de ano letivo. Quando se trabalha em função de ano letivo, como se faz na quase totalidade das escolas portuguesas, é perfeitamente lógico que um aluno, excelente em metade das disciplinas, tenha que as repetir no seguinte ano letivo, porque nas outras disciplinas teve as “negativas” necessárias para ficar retido. Imaginemo-nos na pele de um aluno, “crânio” a matemática, a repetir a frequência do ano letivo anterior nessa disciplina. Deve ser extremamente motivador e enriquecedor... Quem diz matemática, diz uma data de outras disciplinas, onde alunos “perdem” tempo a “aprender” o que já sabem, em vez de dedicar esse mesmo tempo às disciplinas onde apresentam dificuldades de aprendizagem. Incoerente (para não empregar uma palavra mais forte), mas é o que fazemos e continuamos a fazer.

Por ora, a reflexão escrita fica por aqui.

 

André Pacheco

 

Este texto teve a excelente contribuição de Miguel Sousa e José Pais.

Em 09/04/2004, Miguel Sousa comentou: Infelizmente há quem continue avaliando em função do ano, quando a "coisa" está organizada em ciclos.... confesso que este assunto incomoda bastante pelo facto de ter poucas certezas, aliás a única que tenho é que é urgente uma solução mais consensual, por forma que (boa ou má) se possa agir com alguma coerência sem baralhar os estudantes que no mesmo Conselho de Turma têm professores com filosofias de avaliação diferentes.

No mesmo dia, José Pais acrescentou: Congratulo-me, pela 1.ª vez vejo alguém a pôr o dedo na ferida,isto é, nas incongruências do sistema, que aliás são muitas e resultam de toda a estrutura organizacional do sistema se basear em princípios que visam meramente satisfazer necessidades administrativas, subjugando a estas as de natureza pedagógica. Isto era "aguentável" quando à escola só chegavam alguns. A democratização do acesso ao ensino, ganha com o 25 de Abril, exigia uma mudança radical neste paradigma, para poder tornar extensível essa democratização ao sucesso escolar! Só que não houve vontade política, até hoje, para tomar as medidas necessárias a essa mudança. E, quando alguma escola cria no seu seio essas condições e avança no sentido correto, o Ministério ao sabê-lo tenta "cortar-lhe as pernas" para que não avancem mais (vide caso da Escola da Ponte)!!! Assim não vamos lá! Por um lado os (des)governos que travam, por outro muitos professores que, por esta ou aquela razão temem a mudança e fazem "resistência passiva", como se não bastasse há pais que apelam ao "tempo volta para trás" - uns conscientes do que querem atingir,outros nem tanto... A governança para se limpar vai fingindo que está muito preocupada com os números do insucesso e abandono escolar, atirando, sem o dizer, o ónus da culpa para cima dos professores, falando de vez em quando da sua má formação (como se nada tivesse a ver com isso), do absentismo, da necessidade da avaliação de desempenho evidentemente para "separar o trigo do joio", que é como quem diz, os "bons" dos "maus" profissionais... Claro que os nossos (des)governantes fazem isto tudo inocentemente, porque eles estão "profundamente preocupados com o melhor para o Povo", eu é que sou um dos tais maus profissionais a levantar aleivosias contra os desinteressados servidores da pátria, um "esquerdalho", como um colega já me chamou.

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por ap7 às 16:48



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