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educaportugal



Sexta-feira, 20.07.12

A Avaliação V

No quinto texto dedicado à avaliação mantive o método do anterior: refletir a partir dos comentários efetuados, para que se tornasse, na medida do possível, numa reflexão conjunta. E tendo em conta a qualidade dos comentários, não se limitando a comentar mas a ir além dos mesmos, colocado novas interrogações, não teria capacidade para corresponder. Mas tentei...

 

A avaliação V (18/04/2004)

Tendo em conta as muito pertinentes reações que a minha reflexão tem tido, continuo a refletir tendo como pano de fundo as mesmas.

Miguel Sousa afirma «Infelizmente há quem continue avaliando em função do ano, quando a "coisa" está organizada em ciclos...». Concordo com o teor da afirmação, não na amplitude da mesma. Quantas escolas podem afirmar que trabalham em função de ciclo? Infelizmente, praticamente nenhuma. E porque é que tal acontece? Por diversas razões. Primeiro, por pura e simples ignorância, consentida ou não. Se na minha formação inicial tudo o que se prendia com a organização do nosso sistema de ensino foi pura e simplesmente esquecida, o que me pode levar a pensar que na formação inicial da maior parte dos professores assim não aconteceu? Tendo em conta algumas conversas que tenho com colegas de profissão, só posso concluir que a maior parte deles tiveram uma formação inicial similar à minha, nesse campo. Para além disso, vejo professores com quatro vezes a minha experiência (em termos quantitativos), a ficarem espantados com algumas evidências corriqueiras (em termos normativos) do nosso sistema de ensino, que lhes mostro, como se tivesse dito algo simplesmente extraordinário e novo. Para além desta ignorância involuntária, existe depois a ignorância consentida, por vezes, alvo de orgulho do ignorante. É a ignorância do “sei que se pode fazer mais e melhor, que devia fazer por isso, mas tal implica trabalho e mudança, portanto… deixa-me estar, pois não me pagam mais por isso”. E a grande questão é que esta mudança está intimamente ligada à avaliação que se faz, porque um trabalho efetuado em função de ciclo não permite uma avaliação feita nos moldes em que os professores a fazem. Pois que uma simples classificação de um teste não informa sobre os objetivos alcançados, ou não, pelo aluno, informação vital para um trabalho efetuado em função de ciclo. Quando a avaliação cognitiva de um aluno se reduz a meia dúzia de números (classificações dos testes), em que é que essa informação será útil para o professor do ano letivo seguinte, ainda dentro do mesmo ciclo? Se esses testes forem utilizados no sentido de permitirem determinar, com alguma precisão, quais os objetivos atingidos pelo aluno, e tal informação for registada, valerá mais do que um qualquer número, pois permitirá ao professor e aluno ficar a conhecer aquilo que o último já sabe, e o que ainda tem de trabalhar (inclusivamente os professores seguintes dentro desse ciclo). No entanto, nem todos os objetivos podem ser avaliados num teste, e a realidade é que a maior parte destes estão mal feitos, sendo o seu único fim a obtenção de uma classificação, que transmite alguma “segurança” ao professor, para mais tarde atribuir um nível. Demonstrativo deste facto é uma afirmação proferida por um professor com 18 anos de serviço, num fórum sobre exames: «Quanto ao professor ter a perfeita noção do que o aluno sabe, porque blá blá blá... é uma teoria muito gira, mas que não tem qualquer tipo de comprovação experimental. Para alguns professores, isso, obviamente, pode ser verdade, para outros, nem pouco mais ou menos...». Ou seja, os próprios professores admitem que não sabem o que os alunos sabem, e consideram-no normal. Em relação ao resto da afirmação, deixo à reflexão de cada um.

Não acredito numa rutura total com a avaliação atual, pois não vejo os professores acordarem uma certa manhã com uma predisposição para rever a avaliação que fazem, e a tentar melhorá-la. No entanto, seria importante que a formação inicial começasse a dar mais ênfase a este determinante aspeto da educação, ao mesmo tempo que os professores já formados começassem a refletir sobre a avaliação que fazem e de que forma a podem melhorar. É óbvio que o esquema de dois testes por período, cujas classificações determinam o nível obtido pelo aluno, não vai terminar de um momento para o outro. Mas, se os professores começassem por utilizar esses mesmos testes para determinar quais os objetivos atingidos pelo aluno, e não para obter uma simples classificação, que nenhuma informação dá acerca de quais os objetivos obtidos, e quais aqueles que carecem de mais trabalho e de uma nova avaliação, talvez este “pequeno” passo permitisse um enorme melhoramento nas aprendizagens dos alunos, bem como uma modificação na forma como estes veem a avaliação. Por outro lado, é importante mostrar que o “rei vai nu”, que a maior parte das avaliações que são efetuadas de rigor nada tem (sei de uma professora que disse que a sua avaliação era rigorosa, pois ela dava, exatamente, como nota final, a média dos testes efetuados).

Em relação ao comentário do José Pedro Pais, escreverei mais tarde, pois este texto já vai longo.

 

André Pacheco

 

Este texto deu origem a vários comentários e novas questões.

Em 21/04/2004, Inês: 100% de acordo! Há muito que a confusão se instalou no sistema de avaliação. Os muitos professores que regressaram ao velho modo de avaliar (somar e achar a média) pensam que assim - com dados objectivos - se defendem melhor de reclamações. Na prática é a subversão do ensino/aprendizagem. Os programas escolares incluem os processos de avaliação. Mas não há a noção de que esses processos devem ser aplicados.

José Pais, a 22/04/2004: Mas,no meio disto tudo,onde etá a AVALIAÇÃO FORMATIVA???

Miguel Sousa, a 22/04/2004: Primeiro do que tudo quero agradecer a sua atenção fazendo um texto com a profundidade deste relativamente ao meu comentário, contudo tenho outros para fazer (acho que felizmente):

1.º) acredito no que disse e acho que a avaliação não tem sido feita de forma adequada, até na altura do próprio professor elaborar o mesmo, muitos dos colegas ou não fazem contas ou não têm a mínima noção da "grandeza" do teste face às reais capacidades dos alunos - resultado quando um teste fica a meio a culpa é da falta de estudo... esquecendo o professor de olhar "para o seu umbigo" e analisar se fez um teste ou um "testamento";

2.º) obviamente que concordo que a rutura total com este método (que já tem barbas brancas) não deve ser completa, acredito que muitos professores já utilizam muita outra informação complementar (da avaliação formativa e contínua)... o caminho é longo mas espero sinceramente que um dia cheguemos a um modelo mais justo de avaliação;

3.º) no caso da minha disciplina (Ed. Física) e provavelmente (também) por causa disso é que a média de níveis negativos é fraca o planeamento tem em conta um conjunto de conhecimentos práticos e teóricos a atingir durante o ciclo. Agora, isto é uma "faca de dois gumes"... porque pode-se chegar ao último ano do ciclo com o aluno com a sensação que "puxamos" pouco por ele uma vez que o passamos através do que chamamos objectivos mínimos com a esperança que ele adquira o essencial da competência até o findar do referido ciclo... e aí tb é chato... ficando a sensação de que podiamos ter feito melhor... um abraço e deculpa o tamanho da reacção.

Em 23/04/2004, Miguel Pinto: Aparentemente o meu comentário parecerá desconexo com o texto que o suscitou. Mas, há uma questão que me anda a martelar os neurónios mais preguiçosos. Quantas vezes, nas sagradas reuniões de departamento curricular ou de grupo disciplinar, olhamos para o nosso desempenho, competência, profissionalismo e, sem preconceitos, abrimos o espaço da nossa seara e deixamos entrar a foice alheia? Como é que convivemos com o mito da autoavaliação?

E, por fim, José Pais, a 24/04/2004 (com mais um dedo na ferida): Se bem percebi até que ponto actuamos reflexivamente sobre as nossas práticas e as questionamos com verdadeiro sentido crítico? Ou melhor até que ponto encetámos (ou não) a caminhada para um profissionalismo a sério, lutando contra a mera "funcionarização" em que nos querem manter...

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por ap7 às 13:45



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