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educaportugal



Quarta-feira, 01.08.12

A Avaliação VI

Estou a sentir grande prazer em ler algo escrito por mim há mais de oito anos. Dá-me uma imagem mais realista do profissional que era então e da evolução que registo. Prova disto é o facto de atualmente discordar ligeiramente com pequenos trechos do sexto texto dedicado à avaliação. Aqui fica o mesmo (na versão original, obviamente), bem como os comentários de que foi alvo.

 

A avaliação VI (28/04/2004)

Confesso-me extasiado com a quantidade e a qualidade dos comentários que o meu último texto suscitou. Mostra-me claramente que neste país há muita gente ligada à educação com muita qualidade, que reflete sobre o que faz, tenta ser cada vez melhor no que faz, empenha-se no que faz, tenta aprender mais sobre o que faz, não sendo meros funcionários, vulgos “dadores de aulas”. Não que o não soubesse antes, pois que pelas escolas por onde passei conheci muitos professores com estas qualidades. A questão é que, por vezes, redescubro que estes são mais dos que os que eu pensava haver; e esta foi uma dessas situações.

O primeiro comentário, o da Inês, chama atenção para uma realidade que eu estava a omitir. O facto de, perante o aumento de situações em que encarregados de educação, ou não, colocam em causa as avaliações dos alunos, os professores se refugiarem na precisão dos números como justificação da avaliação. Esta movimentação encontra-se intimamente ligada à defesa dos exames e dos rankings nacionais. Por tudo isto não é inocente a permanente pressão efetuada sobre a escola pelos mais diversos sectores da nossa sociedade, sobretudo os fazedores de opinião completamente ignorantes no que se refere a praticamente tudo relacionado com Educação.

O segundo comentário, do José Pais, é o mais curto e mais forte. Em relação ao seu comentário proporia o seguinte: realizar um inquérito aos professores, onde seriam questionados sobre quais as principais modalidades de avaliação presentes no nosso sistema educativo, e em que consistem. Nem quero imaginar quais seriam os resultados de tal inquérito. Provavelmente, resultaria no total descrédito do nosso sistema educativo e, como é costume do nosso povo, todos os professores seriam “colocados no mesmo saco”. Mas a questão é muito simplesmente esta: quantos professores sabem em que consiste a avaliação formativa (ou mesmo a sumativa, basta lembrar os famosos “testes sumativos”)? Portanto, como pode haver avaliação formativa nestes moldes? E, tendo em conta que o extinto 98-A/92 (pedra central na reforma educativa então encetada) introduz a avaliação formativa como principal modalidade de avaliação do ensino básico (bem como o 383/93 para o Secundário), e poucos professores conhecem o conteúdo dos mesmos, choca observar que tantos professores veem esta reforma como a mãe de todos os males do nosso sistema educativo. Para terminar, em relação ao comentário do José Pais, é impossível haver avaliação formativa sem que os professores saibam o que isso é. E, mais uma vez, à formação inicial está reservada a maior fatia de culpa desta chocante realidade.

Relativamente ao comentário do Miguel Sousa pouco há a dizer, pois o mesmo é muito completo. No entanto, não consigo evitar de fazer três pequenos comentários. Em relação ao aluno não conseguir fazer o teste todo, há algo extremamente perturbador. Mesmo que o teste não seja grande, pode acontecer, pelas mais diversas razões, que um aluno não o consiga fazer todo. O mais chocante nestes casos é o carácter definitivo que os testes apresentam (para esmagadora parte dos professores), do género “se agora não mostraste saber algo, nunca o poderás fazer”. Mais uma vez o José Pais perguntaria, e com razão, “onde está a avaliação formativa?” O segundo comentário é mais um elogio. Tendo em conta as seis escolas onde já lecionei, se realizasse uma estatística relativamente à qualidade da avaliação por disciplina, a Educação Física ficaria facilmente no topo. O último comentário tem a ver com o “puxar” pelos alunos. Acredito que a escola, na medida do possível deverá incutir prazer nas aprendizagens dos seus alunos. No entanto, TUDO na vida, independentemente de dar ou não prazer, implica empenho e esforço. Portanto, deverão todos os professores, para bem dos alunos, “puxar” por eles o máximo possível dentro dos limites das possibilidades de cada um (trabalhe-se, ou não, em função de ciclo).

Em relação aos dois últimos comentários, primeiro devo dizer que não são desconexos de toda esta reflexão (apesar de o poderem parecer). Pessoalmente devo dizer que todos os dias procuro ler os resultados do meu trabalho sobre os alunos, e de que forma o posso modificar para o potenciar. Não sou melhor nem pior que os meus colegas. No entanto, procuro melhorar a forma como trabalho através da reflexão sobre o trabalho por mim efetuado, da mesma forma que gosto e acredito na minha função na sociedade. Infelizmente, não vejo esta atitude em muitos dos meus colegas. Vejo enfartamento e conformismo. Não lhes peçam para realizar uma reflexão de autoavaliação com espírito crítico. Este, sobretudo na forma destrutiva, é já deveras utilizado, mas com outros alvos.

 

André Pacheco

 

Comentário de whiteball em 06/05/2004: Nem sei bem o que dizer pois acho que disseste tudo! A única coisa que eu posso acrescentar é que, após 19 anos de serviço, dou comigo francamente desmotivada; um dos motivos da minha desmotivação tem a ver com o papel punitivo da IGE! Uma gaja mata-se a trabalhar; quase faz da escola uma segunda casa; encara o ensino como uma missão, uma devoção; e depois um dia... vem a IGE e "pega" por "bacorices" sem importância nenhuma! Não vem para dizer: "isto estaria melhor se fosse feito desta maneira..." - simplesmente limita-se a fiscalizar e a recomendar penas! Dizia-me alguém há dias: "Eles (os inspetores) estão a fazer o seu trabalho, tal como tu fazes o teu!" BOLAS! Eu tenho depressões na altura das avaliações, eu tenho de tomar um calmante se porventura preciso de "chamar um colega à atenção"... e tenho insónias, e tenho uma úlcera duodenal crónica... Não ando por aí a fazer "uma caça às bruxas" como às vezes parece que a IGE faz! Se algum inspector ler este comentário que me perdoe: não é nada pessoal, é apenas um desabafo fruto de muita desilusão! Abraço, WB

 

Miguel Sousa em 06/05/2004: O comentário da ilustre colega é paradigmático do como se pode transformar uma boa medida num pesadelo. De facto quando era de supor que a inspecção funcionasse no sentido a ajudar os professores a melhorarem o seu desempenho, ela torna-se numa caçadora de bruxas, e uma medida política e intelectualmente correta torna-se num desdém para qualquer professor com juízo... Quanto ao texto, é minha opinião que o tema deve continuar a ser debatido, não há nem haverá consensos a esse nível pelo simples facto de haver "escolas" diferentes. Sinto-me do lado dos que avaliam competências tendo em conta um planeamento macro e a longo prazo. Acredito que as competências específicas e os conteúdos serão mais facilmente apreendidos, agora, também confesso sem problemas, que as certezas neste campo escasseiam na minha cabeça "quadrada". Um abraço e mais uma vez muitos parabéns pelo blog.

 

Miguel Pinto em 09/05/2004: O tema da avaliação é inesgotável enquanto categoria didática. Um dos aspetos que tem contribuído para a agitação em torno deste tema é a utilização indiscriminada dos conceitos avaliação e classificação. Um abraço.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por ap7 às 18:18


2 comentários

De Miguel Pinto a 01.08.2012 às 20:42

Gostei de revisitar o texto, André. Mantenho o meu comentário ;)

De ap7 a 01.08.2012 às 23:18

Olá Miguel! É bom "rever-te" :) De resto vou estando atento ao "teu olhar", onde ainda se observa a qualidade bloguística docente de outros tempos... sem saudosismos bacocos, claro! :)

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