Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

educaportugal



Sexta-feira, 03.08.12

A avaliação VIII

O oitavo texto dedicado à avaliação (que, por alguma razão, foi o último até então), surgiu na segunda metade do mês de maio de 2004. Verifiquei neste texto que, de algum modo, adivinhei o surgimento da avaliação diagnóstica como uma das modalidades de avaliação legalmente estabelecidas, algo que se concretizou em janeiro do ano seguinte, com a publicação do Despacho Normativo n.º 1/2005, de 5 de janeiro, diploma legal que ainda regulamenta a avaliação no ensino básico.

Mais de oito anos volvidos sinto que muito ainda haveria para dizer, sobretudo no momento atual. Estando de férias, espero voltar a este tema brevemente.

 

A avaliação VIII (21/05/2004)

Os comentários ao meu último texto refletivo foram muito mais longe do que aquilo que o mesmo pudesse suscitar. De facto, os três primeiros comentários fazem parte de uma discussão que, tendo em conta o nosso desenvolvimento social, já não deveria existir, mas que, infelizmente, ainda é muito atual. Apesar de, na teoria, a nossa sociedade olhar para a escola como um meio de formação do indivíduo como um todo, nos seus diferentes domínios, e com as suas especificidades, a prática e a opinião de muitos professores diverge deste paradigma. Mais uma vez, a instituição de exames é um reflexo disso mesmo, sendo os mesmos olhados como uma forma de seleção de acordo com as obtenções cognitivas das crianças. Atualmente, se assistirmos a uma discussão sobre os exames em qualquer escola, acabaremos por ouvir o célebre “eles agora não sabem nada” e, vai daí, os exames são importantes de modo a que estes (os que não sabem nada), fiquem pelo caminho. Ao mesmo tempo, confundem a existência de exames com o rigor da avaliação. Reflitamos um pouco sobre este discurso. Primeiro, o ponto de partida deste discurso, o célebre “eles agora não sabem nada”. Observando os meus alunos, e o meu trabalho com eles, se eu proferisse uma afirmação deste tipo sobre os mesmos, estaria a negar-me como professor e mais valia “arrumar as botas”. Não que não tenha alunos que, sobretudo devido ao seu pobre empenhamento, não atinjam grande parte dos objetivos da minha disciplina. No entanto, as suas avaliações refletem isso mesmo, e eles compreendem-no. Por outro lado, muitos deles atingem a maior parte dos objetivos já referidos e são alunos com quem dá grande gozo trabalhar, sobretudo devido à sua atitude de trabalho e de empenho, sejam ou não providos de grande capacidade cognitiva. Muitos professores, porém, apontam a falta de bases dos alunos como algo que faz com que os mesmos não consigam obter os objetivos do atual ano de escolaridade. Na minha área (Matemática do secundário), este é um argumento usado até à exaustão, e costuma ser utilizado sob dois prismas. O primeiro como razão do insucesso dos seus alunos e, por outro, como critica aos professores seus antecessores. Em relação ao primeiro, é uma realidade que numa disciplina como a minha, de carácter cumulativo (tais como as línguas estrangeiras e outras disciplinas), a falta de bases é um grande obstáculo para os alunos atingirem objetivos relacionados com os de ciclos escolares anteriores (praticamente todos). Porém pergunto: quantas escolas organizam formas de colmatar estas mesmas faltas de bases? As aulas de apoio são, salvo algumas exceções, mais uma aula onde se trabalham objetivos do presente ano escolar. A realidade é que é mais fácil colocar as culpas no ensino básico, seja o 1º, 2º ou 3º ciclo, do que arranjar formas dentro do secundário para corrigir insuficiências nos alunos deste nível de ensino. Em vez de haver uma estratégia de escola ou de grupo disciplinar, no sentido de colmatar estas insuficiências, veem-se professores, individualmente, a desdobrar-se em meia dúzia, de forma a conseguir “recuperar” alguns alunos, realizando um tremendo esforço que, em grande parte dos casos, se mostra insuficiente, pois a tarefa é hercúlea. Se houvesse um trabalho coletivo de escola ou de grupo para o fim já referido, cada professor faria um esforço mais razoável, e os resultados seriam francamente melhores. No entanto, até aqui só falei em professores, não nos dadores de aulas. É evidente que a estes não convém um processo deste tipo pois exige esforço e trabalho, para além do papaguear as aulas. Para a minha disciplina, deixo uma simples sugestão: porque não fazer uma verdadeira avaliação diagnóstica no início de cada ciclo, com o fim de realizar um levantamento das lacunas de cada aluno (sim, de CADA aluno) ao nível de pré-requisitos, e criar um espaço próprio para a resolução desse problema, onde cada um trabalharia o que necessitava, ao mesmo que tempo que esses alunos e respetivos encarregados de educação seriam sensibilizados para a importância deste processo? Quantos alunos poderiam ser recuperados nas diversas disciplinas com este relativamente simples processo?

Em relação ao facto de os professores colocarem sistematicamente as responsabilidades nos seus antecessores, por vezes o uso deste facto chega a um ridículo insustentável. O caso específico do terceiro ciclo do ensino básico e do ensino secundário é o mais chocante. Sendo a formação dos professores destes dois níveis de ensino, salvo poucas exceções, a mesma, logo podendo-se afirmar que são os mesmos professores responsáveis por estes dois ciclos de ensino (na verdade, muitos professores pulam anualmente de um nível para o outro, sendo eu um desses casos), como é que os professores que se encontram no secundário podem dizer que os antecessores é que são, de alguma forma, maus professores, daí os seus alunos terem falta de bases? Ouço dizer que há “facilitismo” no ciclo de ensino anterior mas, o que quer que isso seja, tendo eu passado metade da minha carreira em cada um desses ciclos de ensino, posso afirmar que havendo essa “coisa”, a mesma se encontra repartida pelos dois níveis de ensino. Com isto não quero dizer que não há maus professores, que colocam em causa o futuro dos seus alunos nas suas disciplinas. No entanto, estes não são exclusivo de um ou outro nível de ensino, e não podem ser justificação para que nada se faça para ajudar esses alunos a suprir as suas necessidades. Por outro lado, todo este fenómeno não é exclusivo do secundário em relação ao ciclo anterior, o mesmo sucede com cada um dos ciclos do ensino básico, sendo o primeiro ciclo do ensino básico a maior vítima, pois só poderão culpar os educadores de infância, argumento que teria pouca adesão.

Sendo este um tema extremamente controverso, continuá-lo-ei em textos posteriores, devido à extensão deste.

 

André Pacheco

 

Este texto teve direito a três comentários, onde dois novos intervenientes se juntaram à reflexão conjunta. Aqui ficam.

Susana Pacheco em 21/05/2004: Nestes tempos incertos de reflexão sobre a avaliação, arrisco, entre tantos conhecedores de pedagogos e pedagogias, a dar a minha humilde opinião sobre este assunto. Como partilho com o «administrador» do blog (para além do sobrenome e vida) das mesmas ideias sobre educação, à qual dedicamos de corpo e alma a nossa vida profissional (e, consequentemente, muita da nossa vida pessoal) e, tendo tido, durante esta semana, uma deliciosa reunião sobre avaliação na minha "escolinha", tenho «notícias frescas» sobre os estado de algumas mentes pouco habituadas a refletir sobre este assunto. Entre muitas barbaridades, a que mais me chocou foi a frase «AQUI, ESQUECE A INCLUSÃO». Isto, a propósito dos critérios de selecção dos alunos para formar as turmas do 10.º ano. Ou seja, bons com bons, fracos com fracos... É esta a escola que temos, ou melhor, os professores que temos. Quando estava quase à beira de um enfarte, surgiu a novidade de quais seriam as condições de retenção dos alunos, e foi quando descobri que, naquela mesa, só eu conhecia o DN 30/2001 e o 338/93. De tal modo que vi verdadeiras caras de espanto quando falei em trabalhar em função de ciclo. Infelizmente, senti-me uma verdadeira sábia, mas desesperadamente isolada no meio de tanta gente. Continuai com este bom trabalho de «bater» nos cegos, surdos e mudos. A esperança é que um dia, pelo menos, ouçam. Cumprimentos.

Miguel Sousa em 23/05/2004: Este magnífico artigo sugeriu-me algumas reflexões que julgo poderem enriquecer (mesmo que modestamente) a discussão:

  • A primeira questão é a dos apoios estarem a ser efectuados nos mesmos moldes que as aulas. Com a minha entrada para o executivo da escola onde trabalho sugeri logo o debate acerca dos apoios e lancei esse facto, sugerindo a transformação dessas “aulas” em oficinas a trabalhar todos os dias nas horas do almoço (sem prejuízo da paparoca). O assunto está sendo mastigado, provavelmente ficará tudo na mesma, contudo continuo a acreditar que é possível, face à escassez de recursos, dar mais e melhor apoio e que o molde oficina pode ser a solução (se funcionam no privado, porque raio não podem funcionar no publico…). Espero que me de autorização de enriquecer a minha ideia com a avaliação das competências básicas no início de cada ciclo para cada aluno.
  • A questão do facilitismo é de facto algo que me deixa com sintomas de pré-colapso essencialmente porque são geradoras das maiores injustiças, por um lado puxa-se a nota de um marmanjo mal comportado e que está em risco de entrar na droga, para depois chumbar um puto que é génio na matemática e na física, mas que não “pesca uma” na língua materna. Sou efectivamente contra o facilitismo.
  • Finalmente no que diz respeito ao “sacudir a culpa do capote” acredito que isso só acontece porque as pessoas não falam, ou seja, não existe o bom hábito do trabalho interciclo que facilite a integração do aluno no novo ciclo, nem antes nem depois, é como se eu fosse ao médico por causa de uma dor de cabeça e se este começasse a receitar sem que antes fosse ver o meu processo clínico (algo que deveria ser parecido com os nossos cadastros escolares…) para saber se tenho alguma contra-indicação ao medicamento….

Desculpe lá o tamanho do comentário… mas a culpa é da qualidade dos seus artigos… um abraço.

jp em 21/01/2005: Quando não se tem respostas verdadeiramente eficazes para ajudar a ultrapassar as dificuldades de aprendizagem vem-nos logo a verbalização fácil, onde os outros serão sempre os culpados. Nós sabemos tudo, mesmo tudo, como se faz e bem, os outros esses é que ainda não entenderam bem o que se pretende. Foi planta daninha que invadiu nossas planícies mentais. E agora ao que chegamos! O que fazemos?

Autoria e outros dados (tags, etc)

por ap7 às 23:03



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Agosto 2012

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031

Desde 26/06/2003

Desde então que este espaço tenta ser um local onde a Educação possa ser discutida de um modo livre, com argumentação que ultrapasse o mero senso comum e com respeito pela diferença de opiniões.

Com o fim da weblog os textos antigos serão transportados para este novo espaço, com as repetivas referências temporais. Muita pena tenho por alguns comentários que enriqueciam os textos não poderem ser recuperados.