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educaportugal



Sábado, 20.10.12

O horismo - 26/10/2010

Continuando a recuperação de textos que se perderam da "blogosfera", trago um que fará brevemente dois anos. Permanecendo atual, apesar de ter havido algumas mudanças em alguns aspetos referidos (umas para melhor e outras para pior, como em tudo na vida), volto a defender as ideias explanadas, por muito que sejam pouco aceites por um considerável número de docentes. Só gostaria de saber porquê...

O horismo

Numa época de grandes “lutas” reivindicativas, perpetradas por sindicatos que, perante uma nova conjuntura política, ganharam um novo ânimo e algum peso, resolvo escrever um texto que nada tem a ver com aquilo que atualmente preocupa aos professores. Vou contra a corrente de praticamente todos os espaços da "blogosfera" docente, mais ocupada com os ganhos e perdas das últimas negociações. Vou contra a corrente daquilo que são os interesses atuais dos docentes, tais como saber se mudam ou não de escalão brevemente, de quais serão as perspetivas futuras no que concerne ao número de anos nos escalões seguintes, de como irá ser o sistema de avaliação de desempenho que está a ser negociado… não é que estes temas não me afetem, sobretudo quando finalmente saí do primeiro escalão ao fim de onze anos de serviço… No entanto, penso que continuamos a discutir partindo de pressupostos idiotas, o que faz com que tudo o que a partir daí seja construído, seja igualmente idiota. Uma das idiotices de que falo é o horismo... e o que é isto do horismo?

O horismo é o esquema mental que reside no horário de trabalho docente. O horismo considera normal existir horários incompletos. O horismo considera normal que um docente tenha de acumular trabalho em duas ou três escolas diferentes. O horismo faz com que docentes percam tempo precioso a discutir a semântica da palavra ocasional por causa de uma ridícula hora de trabalho semanal. O horismo convive com a caricata burocratização dos horários semanais, com a sua componente letiva, trabalho de estabelecimento, componente de trabalho individual e tempos para atividades de apoio educativo e de enriquecimento e complemento curricular. O horismo considera normal que um docente sem conhecimento em determinada área seja coordenador de algo nessa mesma área, porque é o único “com horas” para o efeito, enquanto outros docentes fazem, efetivamente, esse trabalho de coordenação. O horismo é o responsável por, durante anos, uns passarem catorze horas na escola enquanto outros estavam quase o dobro do tempo recebendo metade do salário dos primeiros. O horismo leva a que projetos interessantes, pensados por docentes capazes, não tenham viabilidade por “falta de horas” nos seus horários. O horismo leva a que haja “melhores horários” e “piores horários”, apesar de terem a mesma duração e de, supostamente, haver igualdade entre os docentes. O horismo justifica que docentes “levem a mal” os horários semanais que lhes são consignados, numa atitude desprovida de todo e qualquer profissionalismo. O horismo é idiota, mas reina nas nossas escolas…

Obviamente que, para todos os problemas criados pelo horismo, problemas que são entraves significativos para a qualidade da escola, só existe uma solução, sem meio-termo: a aniquilação do horismo. E como aniquilar o horismo? Simples: 35 horas de trabalho na escola, 0 horas em casa.

No entanto, as 35 horas na escola não são algo simples. Mais por questões de índole pessoal e profissional, do que material ou humana no que às condições diz respeito. Tem vindo a aumentar, durante os últimos anos, o número de defensores das 35 horas na escola, uns por convicção, nos quais me incluo, e outros por pseudo-convicção. Nestes últimos a convicção parece hesitante, porque vem sempre acompanhado por “na escola é que não há condições para tal…” É compreensível que assim se pensasse há poucos anos. E a principal razão apontada, usualmente a única, era a questão de não haver computadores onde os professores pudessem trabalhar. Atualmente, com todos os programas de incentivo que houve, pode-se afirmar que, entre os professores, só não tem computador portátil quem não quer, portanto, este é um argumento que perdeu a validade. E nas escolas, com maior ou menor dificuldade, há impressoras onde se podem imprimir documentos necessários, e, regra geral, há Internet para as imprescindíveis pesquisas. Relativamente aos espaços para trabalhar, eu sempre trabalhei nas salas de professores sem grande dificuldade. E a escola da qual faço parte, mesmo sendo pobre no que toca a gabinetes, tem sempre um ou outro espaço onde se poderá trabalhar tranquilamente, desde que haja vontade para tal. Por outro lado, existe um espaço, a biblioteca, que merecia um pouco mais de atenção por parte dos docentes (incluindo eu), sendo um espaço, normalmente, pouco procurado pelos mesmos. O facto de se passar a trabalhar na escola poderia trazer uma nova vitalidade e um maior peso a este espaço tão nobre. Noutra perspetiva, as direções das escolas teriam uma pressão adicional no sentido de providenciar boas condições de trabalho na escola, o que seria, forçosamente, positivo.

Com esta modificação estrutural profunda, surgiriam um número considerável de novas possibilidades: passaria a ser possível a criação de espaços de trabalho em equipa na organização do trabalho disciplinar e interdisciplinar, poderia haver um trabalho mais sistemático ao nível dos conselhos de turma, entre outras.

Por fim, duas notas: as 35 horas na escola terminariam com a injustiça de haver professores que, efetivamente, trabalham bem mais que outros sem obter o devido reconhecimento de tal facto, passando todos a trabalhar realmente o mesmo número de horas; por outro lado, e mais importante, todos os professores passariam a ter o justo direito de ter mais tempo de qualidade com a sua família, sem o peso do trabalho escolar por fazer, no seu domicílio.

 

André Pacheco

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por ap7 às 09:32



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Com o fim da weblog os textos antigos serão transportados para este novo espaço, com as repetivas referências temporais. Muita pena tenho por alguns comentários que enriqueciam os textos não poderem ser recuperados.