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educaportugal



Sábado, 09.02.13

“Inventem-se novos pais” I (06/07/2004)

Depois de uma semana de loucos na escola, com vários episódios complicados proporcionados por alunos cuja educação deixa muito a desejar, ficou-me na retina uma frase de uma das mães envolvidas: "Não se pode culpar os pais."

Esta frase fez-me lembrar uma série de textos por mim escritos entre 2004 e 2006, dedicados à educação em meio familiar, que, devido ao desaparecimento da weblog, desapareceram da Internet.

Deste modo, os acontecimentos desta semana serviram-me de pretexto para recuperar esses mesmos textos, sempre (e cada vez mais) atuais. Só tenho pena de não conseguir recuperar os comentários que os mesmos tiveram, que levaram a uma discussão extremamente interessante (por vezes um pouco agressiva), enriquecendo a mesma e dando-me outras perspetivas sobre o tema.

Por outro lado, é também de lamentar que a falta desses comentários tenha feito com que só tenha sobrado a minha opinião sobre o tema, perdendo-se outros modos de pensar igualmente importantes.

Por fim, devo apenas dizer que, relendo o por mim escrito há quase oito anos, somente diminuiu a dureza do meu discurso, provavelmente devido aos anos que tenho passado a tentar ajudar alguns pais a lidar com os seus filhos, sentindo e partilhando as suas frustrações, e tentando compreendê-los.

A escrita deste texto foi despoletado por um artigo do jornal "O Público", o qual já não se encontra online e que, sinceramente, não me lembro do conteúdo.

 

“Inventem-se novos pais” I

Estava eu a preparar um texto de continuação da reflexão sobre avaliação quando, na leitura de O Público, me surgiu isto. Não me espanta tal notícia, nem me irá espantar quando esta forma de caça às bruxas chegar a Portugal. Socialmente já chegou, bastará para tal verificar as diferentes reações que poderão acontecer em duas situações distintas. Perante um comportamento errado e ignóbil de uma criança num local público, cria mais olhares reprovadores uma palmada de forma a corrigir o dito comportamento, que o comportamento de “bananas”, por parte dos pais, cedendo à chantagem que tal comportamento por norma significa. Não importará que a médio/longo prazo, a criança cujo comportamento foi corrigido seja um jovem/adulto equilibrado, consciente do “eu” e do “não eu”, com um apurado sentido de justiça; e que o segundo seja um imbecil com o único conhecimento da existência de ele próprio, frustrado, infeliz, para quem a justiça consiste na sua vontade (uma curta viagem numa qualquer escola dará para verificar todos estes factos).

Não defendo que se bata nas crianças, desde que tal signifique espancar, de uma forma selvagem, resultado de uma explosão pessoal (muito comum naqueles pais que evitaram castigar as crianças porque eram “pequeninas”, transformando-as em pequenos “monstros”, sendo verdadeiramente insuportáveis numa idade em que os seus comportamentos se revelam totalmente desajustados). Caso fosse possível, seria excelente nunca bater/castigar os filhos, pois não acredito que alguém minimamente equilibrado tenha prazer em tal facto. Verifico que a totalidade dos casais com quem privo, que defendem nunca bater nos filhos, sentem-se algo frustrados e sentem estar a falhar, pois o que não foi feito já não o poderá ser agora. A maioria deles via nos “castigos” a melhor forma de corrigir um comportamento errado. No entanto, fizeram a triste descoberta que tal estratégia não funciona em todas as situações.

É natural que todas as crianças errem. Estão em crescimento e numa aprendizagem constante de como viver em sociedade. Não haverá uma que tenha um comportamento exemplar de raiz. O mais saudável é que façam asneiras (algumas conscientes, outras não), mas o que mais me choca não é que o façam (tenho dois filhos, e não são nenhuns totós, quando podem fazem as suas travessuras). O que mais me choca é ver um pai ou uma mãe dizer para o filho(a) fazer, ou não fazer, algo, e o garoto(a) realizar exatamente o contrário, com um sorriso nos lábios, misto de conquista e afronta, e a reação dos pais ser um: “Ai! Este miúdo(a) é impossível, não sei o que hei de fazer. Estou mortinho(a) que ele(a) vá para o infantário para aprender a obedecer”. Nestes momentos, a minha vontade não é dar um açoite na criança, mas sim espancar os pais. Não por serem uns “bananas”, mas sim por estarem a criar um futuro adulto desequilibrado emocionalmente, incapaz de lidar com qualquer frustração, irresponsável... numa só palavra: infeliz.

Quando me apercebo destes movimentos de caça às bruxas, que comparam a violência atroz a um simples açoite no momento certo, revolto-me, não pelos responsáveis de tais movimentos, mas pelo efeito nefasto que tem sobre as crianças, pais e respetivos ambientes familiares. Quando ouço estas teorias, peço simplesmente para conhecer os filhos dos seus representantes. É o suficiente para terminar a discussão.

Quem conhece um pouco sobre as teorias libertárias da educação, sabe que as únicas que tiveram sucesso foram aquelas em que a liberdade da criança era por esta conquistada diariamente, e não era um dado adquirido. Neste último caso, as experiências resultaram em relativo fracasso. Não esperem que uma criança nasça educada, ou que se autoeduque. Tal como a firmeza não é suficiente para educar uma criança, o amor, por si só, igualmente se mostra insuficiente. E nos casos de manifesta má educação, por muito que o amor lá esteja, os atos não o demonstram (dado que a criança não conhece limites, os pais acabam por considerá-la insuportável, criticando-a constantemente), e isso para uma criança deixa marcas profundas e dolorosas. A própria falta da firmeza tem o mesmo resultado: um sentimento de desamor.

Sendo este um tema extremamente controverso, por ventura o mais dos aqui já tratados, e não havendo “receitas” de uma boa educação, há, pelos menos, traves mestras para uma educação equilibrada. E uma delas é exatamente isso: o equilíbrio, o caminho do meio. Nem o radicalismo dos anti-açoite, nem o radicalismo dos pró-“porrada pr’á frente”.

 

P.S.: o título deste texto não é da minha autoria mas, face à genialidade do mesmo, resolvi utilizá-lo como homenagem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por ap7 às 20:25


2 comentários

De Joana Rabumba a 09.02.2013 às 22:22

Em consequência de uma formação em crianças com necessidades educativas especiais e formas de intervenção, este tema tem sido tangencialmente abordado. Muitas vezes acabamos por discutir as tenues diferenças entre estas crianças e as sem necessidades. Concluimos o seguinte:
- a intervenção precoce é fundamental: que seja o mais cedo possível e que aconteça, de facto. Relativamente à tolerância - é zero. As competências socias são, para estas crianças, os únicos (na maioria dos casos) objectivos de aprendizagem e os terapeutas envolvidos não baixam os níveis de exigência. (terás que ficar na mesa mesmo que tenhas acabado primeiro que os outros e terás um comportamento adequando). Para ensinar tais competências e capacidades, os terapeutas e educadores têm ferramentas, como qualquer educador tem. E os objectivos são atingidos. Mais depressa e eficazmente seriam atingidos se todos os elementos presentes na vida da criança, estivessem a remar na mesma corrente. Portanto se é possivel ensinar regras sociais a uma criança com sindrome autistico, também será possivel faze-lo a uma criança cognitivamente dentro da média.
- da mesma forma que procuramos um profissional quando temos um problema, deviamos fazer o mesmo em relação e esta problemática. Pais que precisam de ajuda com a educação dos seus filhos, procurem a ajuda de um profissional da educação ou psicólogo. Profissionais, sejam orgulhosos das vossas capacidades e acertivamente, eduquem os pais.
Em qualquer dos casos, pais, a culpa é vossa (nossa), mas a solução também o é. O poder de decisão, de reverter a situação, é vosso (nosso). Não sabem como? Isso é que é normal! Procurem ajuda profissional! Não vão ao vizinho arranjar o carro, ou ao dentista cortar o cabelo. Não sabem como acabar com as birras? Como fazê-los comer? Procurem um psicólogo, que saberá identificar, orientar e ajudar-vos a serem pais acertivos.

De Joana Rabumba a 09.02.2013 às 22:29

Continuando o post anterior:
Os pais que acertivamente dão palmada, também são acertivos na educação dos filhos em geral.
São os outros que fazem porcaria. Bater mal, faz tanto estrago quando não bater.

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Com o fim da weblog os textos antigos serão transportados para este novo espaço, com as repetivas referências temporais. Muita pena tenho por alguns comentários que enriqueciam os textos não poderem ser recuperados.