Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

educaportugal



Sexta-feira, 27.09.13

“Inventem-se novos pais” VII - As refeições (14/09/2004)

O sétimo texto de 2004 dedicado à educação em meio familiar, teve como tema as refeições. Ler algo com nove anos trouxe-me imensas memórias agradáveis, apesar do tema ser complicado e para muitos eu ter uma posição polémica. Porém, tendo em conta o que observo na cantina da minha escola, sobretudo no que toca a "esquisitices" e à naturalidade com que se estraga tanta comida num mundo cheio de fome, seria bom que todos refletíssemos sobre esta questão e que muitos pais adotassem uma nova atitude no que concerne à educação dos seus filhos neste ponto.

 

“Inventem-se novos pais” VII – As refeições (14/09/2004)

Enquanto se educam as crianças nas dormidas, eis que surge outra questão um pouco mais complicada: as refeições.

De início, salvo certas características físicas das crianças, as refeições não são complicadas. Comem de três em três horas (uns com uns intervalos entre as refeições um pouco maiores, outros um pouco menores), logo não haverá grandes complicações (norma geral). No entanto, a alimentação das crianças sofre evoluções com o seu crescimento. Salvas algumas exceções, o leite materno é substituído pelo biberão, depois surgem as papas, mais tarde as sopas até ao aparecimento gradual dos sólidos. No início de cada uma destas etapas podem, ou não, surgir crises. Por exemplo, no nosso caso, a introdução do biberão na vida do Marcos foi um enorme problema para todos. Perante a escassez do leite materno, vimo-nos na contingência de alimentá-lo com um biberão. O rapaz, habituado que estava a mamar na mãe, não aceitou a ideia de mamar em algo sintético e com um sabor diferente. Fomos sempre, com muita paciência, tentando habituá-lo à nova forma de alimentação. No entanto, ele mostrava-se irredutível. Vendo que “a bem” a coisa não ia, e que ele começava a sofrer com fome, foi tomada a decisão mais difícil, mas necessária: ou “ia ou rachava”. Rachou. Depois de muito se debater contra o biberão, o cansaço venceu-o e ele desistiu, tomando a sua primeira refeição completa de biberão. Depois desta refeição complicada, a sua luta com o biberão diminuiu, até cessar no dia seguinte, passando a encarar com naturalidade a nova forma de se alimentar. Poderá parecer violenta esta forma de agir. No entanto, não se pode esperar que um bebé tenha a maturidade para compreender o que é melhor para si. Se agimos da forma como fizemos, foi só para o seu bem. Tal como relatei este episódio, poderia também fazê-lo relativamente à introdução da sopa na alimentação dos nossos dois pequenos. No entanto, nestes casos não foi tão difícil e sofrível (foi possível habituá-los ao novo sabor e textura de uma forma gradual; no entanto, não esqueçamos que no caso da passagem do leite materno para o biberão foi um corte total com a forma de alimentação anterior, ao mesmo tempo que era a única forma de alimentação, logo, imprescindível).

Todo este relato teve uma única intenção. Costumam dizer-nos que temos sorte com os nossos filhos, pois comem bem, sem necessidade de técnicas de diversão (não tornando as refeições penosamente longas), e a mais velha, vejam lá, come sozinha à mesa desde pouco mais do ano e meio de idade e pede para sair da mesa nos fins das refeições, após todos terem acabado de comer.

Mas vamos por partes. Primeiro, nunca nos permitimos arranjar esquemas para que os nossos filhos comessem. Sendo o Marcos novo de mais para exemplo, a mais velha será melhor para ilustrar o que afirmo. A Alice foi habituada a que, quando era para comer, era para comer. Não havia brinquedos na área, não havia televisão para que estivesse distraída, e quando nos começou a compreender, “sabia” que tinha de estar virada para nós para que pudéssemos dar-lhe as “colheradas” (não andávamos à procura da sua boca, numa ginástica por vezes impressionante, e à custa de uma grande firmeza da nossa parte, o que significou, por vezes, a aplicação da “palmadinha pedagógica”). Assim, quando passou a fazer as quatro refeições normais, facilmente passou a comer connosco. Aqui, enquanto comíamos, dávamos-lhe de comer, de forma que ela desde cedo compreendeu que a refeição é um momento familiar coletivo. Quando ganhou mais destreza com as mãos, enquanto lhe dávamos de comer, deixávamos que ela tivesse uma colher, para que tentasse comer sozinha. Deste modo, rapidamente aprendeu a comer sozinha (apesar de muita comida cair no chão e afins, pois a sua destreza com a colher não surgiu de um momento para o outro). Após ter aprendido a comer sozinha, em seguida aprendeu outra coisa: que só podia sair da mesa com os restantes membros da mesma, salvo raras exceções. Comendo rapidamente, era sempre das primeiras a terminar a refeição. É óbvio que no fim de comer queria ir brincar. No entanto, habituamo-la a sair da mesa depois de todos terem comido. Para isto, o mais importante foi o exemplo. Nunca tentem educar uma criança com o princípio “não faças o que eu faço, faz o que eu digo”. O resultado será catastrófico. Todo este trabalho diário, gradualmente apreendido pela Alice, fez com que ela seja uma criança de três anos (recém feitos) que come com os adultos, e que no fim da refeição pede para ir para o chão, depois de todos terem terminado (não sendo, porém, nenhum fenómeno!). Enquanto se alimenta, está com os restantes adultos ou crianças de igual para igual, com as suas limitações, obviamente, partilhando um momento deveras importante e significativo para a vida familiar.

Por tudo isto e mais algumas coisas, começo a perder a paciência quando dizem termos sorte. O mais grave é que são capazes de nos criticar quando não permitimos que a Alice vá para o chão antes de todos os outros terminarem a refeição, ou de não a permitirmos ser “lambona”, comendo só o que mais lhe agrada, etc.. Ao mesmo tempo criticam os seus filhos por fazerem das refeições um inferno, de saírem da mesa sem acabar de comer e sem pedir, de serem esquisitos só comendo o que querem, etc.. Nem vêm que a culpa não é exclusiva das crianças, e ao estar a criticá-los continuamente, só estão a fazer com que eles interiorizem que são tal como os pais os descrevem, nunca mudando essa sua faceta e criando uma baixa autoestima.

Correndo o risco de ser chato, volto a bater na tecla da primeira infância. Não esperem pelos 5, 6, 7 anos, ou mais, para os habituar a este tipo de coisas. Aí já pouco haverá a fazer. Não é por acaso que há adultos tão “maus de boca”, com montes de manias no que concerne à sua alimentação, algumas que nem mesmo eles conseguem explicar.

Com tudo isto pretendo somente que cheguem a uma conclusão: tudo se educa; seja a boca a diferentes sabores, seja o comportamento à mesa. Todo este esforço da parte dos pais será recompensado. Depois de momentos iniciais de muita tensão e choro à mistura, nunca agradável aos pais (e que alguns consideram cruel, pois nem sequer admitem a possibilidade de deixar os seus filhos chorar), o resultado são crianças equilibradas e felizes, com um comportamento correto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por ap7 às 22:02



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Setembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930

Desde 26/06/2003

Desde então que este espaço tenta ser um local onde a Educação possa ser discutida de um modo livre, com argumentação que ultrapasse o mero senso comum e com respeito pela diferença de opiniões.

Com o fim da weblog os textos antigos serão transportados para este novo espaço, com as repetivas referências temporais. Muita pena tenho por alguns comentários que enriqueciam os textos não poderem ser recuperados.