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educaportugal



Terça-feira, 17.07.12

A Avaliação I

Sendo a avaliação um dos meus temas preferidos no mundo da Educação, em 2004 dediquei diversos textos a esta temática. Esses textos foram enriquecidos por comentários de professores reflexivos, que não se limitam a imitar as práticas avaliativas que observaram enquanto estudantes. Não sei se será possível recuperar todos os comentários efetuados. No entanto, irei adicionar no final de cada texto aqueles que conseguir recuperar. Indo criar um post para cada um dos textos, nos mesmos serão assinaladas as datas em que foram divulgados, assim como nos comentários.

 

A avaliação I (23/02/2004)

Dediquei-me a participar no fórum do Netprof subordinado ao tema “exames de 6.º ano”. Fi-lo por algumas razões. Primeiro, como professor, sou parte interessada no tema. Sendo a avaliação uma área tão importante da minha função, acredito ser importante participar em debates deste tipo. No entanto, esta minha viagem ofereceu-me algo mais rico: uma melhor compreensão sobre as diferentes posições relativamente aos exames. Deste modo, creio ter observado os seguintes perfis: a) aquele que vê os exames como uma forma de avaliação pouco eficaz, logo é contra a realização dos mesmos por uma questão de princípio; b) aquele que vê os exames como uma forma de avaliação pouco eficaz, mas defende a sua introdução como uma espécie de medida de controlo do trabalho de alguns docentes; c) aquele que vê os exames como uma forma de avaliação eficaz, mas que não acredita que os mesmos irão melhorar o que quer que seja, que só irão tornar a escola mais seletiva; d) aquele que vê os exames como uma forma de avaliação eficaz, vendo a sua introdução como algo muito importante. Obviamente que muitos professores não se encaixam de forma linear em qualquer um dos perfis, mas creio que estes são os mais significativos. Na minha leitura de opiniões e troca de argumentos com os outros participantes, pude compreender várias coisas. Primeiro, que praticamente todos os participantes nestes locais são pessoas bem-intencionadas, capazes de argumentar de forma cívica e tolerante e, mais importante, que se preocupam com os temas ligados à sua profissão. E este último facto é determinante, porque o que mais me preocupa em relação aos meus colegas de profissão não é terem pensamentos divergentes dos meus. É não terem qualquer tipo de pensamento e reflexão sobre os temas que dizem respeito à sua função. É a total indiferença, tendo quanto muito uma opinião fundamentada em meia dúzia de frases que ouviram algures.

Por outro lado, discerni um dos grandes males da nossa educação: o quase desconhecimento sobre como avaliar o rendimento dos alunos. Reparei que a maior parte dos professores vê os exames como uma forma eficaz de avaliação porque a sua avaliação é exclusivamente fundamentada em provas do mesmo tipo, vulgo teste. Poderia culpar estes professores de tal facto mas, lembrando a minha formação inicial, recuso-me a fazê-lo. Nos quatro anos em que estive na faculdade nunca se discutiu avaliação numa cadeira que fosse, e a avaliação de praticamente todas as cadeiras (excetuando duas) foi realizada através de exames. Mas não vejo este fator como o mais grave. Mais grave foi o ano de estágio. Aqui, nem a legislação sobre avaliação foi debatida com a orientadora de estágio (fui eu que a procurei de modo a conhecê-la). Na única troca de ideias sobre avaliação, a orientadora disse para realizarmos dois testes por período, testes esses que consistiam em alguns exercícios considerados importantes, aconselhando que procurássemos tais exercícios noutros manuais que não o adotado. Objetivos? Nunca tal palavra saiu da boca da orientadora. Avaliação formativa? Duvido que soubesse o que era. Mais grave ainda, escrevia ficha de avaliação sumativa nos ditos testes, coisa que deixei de fazer, após ler a legislação e me ter aconselhado com outro professor.

Não acredito que a minha história seja única. Acredito que o contrário seja a exceção. Tendo em conta este facto, é natural que os estagiários copiem aquilo que veem (e viram como alunos) fazer. Mais grave ainda, é o facto de qualquer professor que tente fazer algo diferente seja olhado com desconfiança por um grande número de colegas. Quer seja por considerarem a sua forma de avaliar a mais correta e as outras puro lirismo (não pensam que se alguém tenta fazer algo diferente é porque refletiu muito sobre o assunto e se informou, estudando o tema), quer seja por não o saberem fazer de outra forma, e a simples hipótese de haver algo mais lógico e correto do que aquilo que fazem os assustar, pois tal implica mudança e trabalho, e o facto de não mudarem põe a nu a sua mediocridade.

Tendo em conta o papel central da avaliação, determinando praticamente os procedimentos do processo de aprendizagem, pode-se concluir que este facto, facilmente reconhecível, é um enorme entrave à qualidade do nosso sistema educativo.

Sendo este um tema passível de ser assunto para uma obra com dezenas de volumes, por agora nada mais escrevo.

 

André Pacheco

 

Este texto teve um comentário efetuado a 26/03/2012 pela Cristina Duarte, que veio ilustrar a fragilidade e a falta de rigor de grande parte da avaliação efetuda:

Gostaria de poder fazer um comentário relacionado com o tema da avaliação. O dito rigor dos dois testes por período e respectiva média revela-se, realmente, desastroso! Disto é prova o que eu ouvi de uma aluna, esta semana. A menina, aluna do 10.º ano, estava aflita, porque tinha tido 4 valores no primeiro teste de história e (Ai Jesus me acuda!!) não se sentia preparada para conseguir o tão necessário 16 no teste seguinte. Acontece que, neste hábito dos dois testes por período, todos os professores marcam os testes na mesma época e, logicamente, na mesma semana!! Aconteceu que,esta menina de olhos azuis, tão doce e inteligente, ficou com gripe no fim-de-semana passado. A muito custo, veio fazer os teste de história na terça-feira, cheia de febre e sem disposição nenhuma. Ela é uma rapariga inteligente e, na minha aula, «trabalha «que se farta!». Não entendo como é que uma pessoa como ela, que diz que não terá, sequer, um 10 neste teste, vai ter uma classificação tão baixa numa disciplina. Ela diz que sabia a matéria, mas que teve azar! Ora, eu perguntei-lhe, por minha vez, quando é que teria oportunidade de mostrar ao professor que até sabe tudo aquilo. Disseram-me, a rir que já não haveria mais nenhum teste neste período. Não perceberam, e com razão, o que eu lhes queria mostrar, logo, expliquei: com tantos testes seguidos, como é que têm tempo para estudar para um, de cada vez?; se agora a menina tiver 16 valores, porque sabe bem esta "matéria", o que é que acontece em relação à "matéria" que ela não sabia quando teve 4 valores?; O professor não sabia, do trabalho e discussão com os alunos, que ela sabia tudo aquilo?; a nota é, simplesmente, a média de dois testes, e o resto?; etc, etc, etc... Os garotos ficaram com uma sorriso tipo: «Olha, esta está nisto há pouco tempo e não sabe como se dá notas... é natural, foi isto que eles viram fazer a vida toda! Infelizmente, uma pessoa que até sabe muito daquilo que lhe foi «ensinado», não terá boa nota, que é aquilo que os alunos buscam a todo o custo. Pela simples razão que o professor faz dois testes por período e, de certeza, não sabe sequer o que é que os seus alunos sabem. Mas a «freak» sou eu, que mantenho os meus registos em dia e pareço uma doida nas minhas aulas, de mesa em mesa, a trabalhar COM os míudos. Obviamente que a avaliação que eu faço do trabalho e aprendizagens dos meus alunos está longe de ser perfeita ou completa, mas eu, pelo menos, tento perceber o que eles não sabem e tento incutir-lhes a ideia de que estão ali para aprender e não só para conseguir a nota mais alta com o menor esforço possível. Peço desculpa pela extensão do meu comentário, mas tinha que dizer isto, e já está!

 

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por ap7 às 00:07



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