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educaportugal



Domingo, 14.06.15

A Grande Tasca

Num Portugal “globalizado”, onde os centros comerciais proliferam em qualquer pequena cidade, as tascas têm vindo, naturalmente, a desaparecer de forma gradual. Resultado duma evolução nas mentalidades, hoje em dia famílias seguem para esses grandes centros, numa peregrinação passível de ser criticada, tendo em conta o desprezo por outros locais onde as vivências e aprendizagens seriam muito mais significativas. Porém, na era das tascas, mulheres ficavam em casa tratando dos afazeres domésticos e dos filhos, estes “viviam” na rua, enquanto os homens se encontravam nas referidas tascas. Perdeu-se, infelizmente, a vida das crianças nas ruas, tão importante no seu desenvolvimento, mas ganhou-se a convivência do casal com, e sem, os filhos, mesmo sendo num centro comercial, em substituição do machismo anacrónico. Penso que, apesar de tudo, ficamos a ganhar. Claro que esta visão é generalista e simplista, ignorando todas as exceções de agora e de outrora.

Na minha infância e na minha juventude ainda tive a possibilidade de conviver nessas tascas, ou cafés ou os chamados “snack-bares” que, pelo seu ambiente, eram verdadeiras tascas. Nesses ambientes maioritariamente masculinos, o que mais me fascinava, aumentando esse fascínio com a idade, eram as discussões a que assistia nesses meios. Foi aí que pude observar os “melhores” treinadores de bancada da história do desporto mundial, que nunca deram nada no desporto. Foi aí que pude observar os políticos, que nunca tiveram qualquer participação política, com os discursos mais incoerentes que alguma vez poderia ter ouvido. E nessas discussões, quão mais inflamados fossem os discursos, mais respeitados eram. E a razão ficava, por norma, naqueles que demonstravam a sua indignação da forma mais violenta, violência essa presente no tom de voz e nas palavras utilizadas. Se tivesse uns palavrões misturado com umas ofensas, então a razão ficava logo entregue… tal nível de indignação só poderia ser de alguém cheio de razão. Felizmente, essa violência ficava, por norma, pelas palavras, apesar de muitas das vezes as ameaças de violência física surgirem. Mas tal era tão comum e a violência efetiva tão rara, que nunca ninguém demonstrava muita preocupação face às ameaças proferidas. Infelizmente, muitas das vezes a violência acabava por surgir no regresso a casa, sendo a vítima alguém muito mais frágil e que não ousava afrontar o agressor. Apesar de, na realidade, serem iguais, agressor e vítima viviam num relacionamento desigual.

O fascínio que sentia fazia-me procurar uma simples resposta: porquê? Depois de muito observar e de muito refletir, uma resposta surgiu: a ignorância. Consegui perceber que, quanto mais ignorantes, mais certezas tinham. Quanto mais ignorantes, mais tinham dificuldade em aceitar que as suas frágeis opiniões fossem questionadas. Quanto mais ignorantes, mais exagerados e ofensivos eram os seus discursos. Quanto mais ignorantes, mais facilmente opinavam sobre tudo e sobre todos, com uma autoridade e assertividade impressionantes. Quanto mais ignorantes, mais irresponsáveis eram os discursos e as atitudes, sem o mínimo pesar das consequências. Mas não estou a falar de uma ignorância académica. Estou a falar de uma ignorância ética e cultural que despreza o conhecimento e a vontade de aprender e progredir.

A memória desta postura de tasca muitas vezes me surge, sobretudo quando observo algumas atitudes similares, num contexto diferente do das tascas e, por norma, inofensivo. Recentemente voltou a acontecer. No entanto, de inofensivo nada teve a situação que vivi faz pouco tempo. Para além deste facto, a dimensão e as repercussões são muito mais graves daquelas que se viviam nas tascas. Isto porque vivemos na era da Internet, onde a informação circula a uma velocidade descontrolada, o que faz com que a irresponsabilidade de um indivíduo possa ter consequências extremamente graves.

Apesar dos seus defeitos, felizmente vivemos numa democracia que é um estado de direito, onde todos temos o direito à indignação e ao protesto, mas onde a responsabilidade advinda da liberdade nos obriga a ter respeito por todos e pelas instituições. Num contexto destes, onde o autoritarismo não tem lugar, a discórdia e a diferença de opiniões é algo que surge com naturalidade, o que faz com que tenhamos de ser maduros de modo a que possamos, respeitosamente, discordar e aceitar opiniões e opções diferentes das nossas, desde que fundamentadas, mesmo que não concordemos com essa mesma fundamentação. No meu trabalho, uma das funções que levo com mais seriedade é ajudar a que as crianças e jovens com que lido diariamente compreendam este facto, para que saibam lidar com as suas frustrações, resultado de não obterem aquilo que pretendem, e não se transformem em adultos inaptos para viver numa democracia.

Posto isto, acho que é tempo de, sem especificar, explanar o que aconteceu de tão grave. Um encarregado de educação, não obtendo aquilo que pretendia da parte da escola, eis que decide usar a maior tasca mundial, o Facebook, para dizer aquilo que lhe ia na alma. Até aqui nada de grave, não fosse o teor ofensivo e desrespeitador da mensagem. Tal como o antigo frequentador de tasca, usou o discurso indignado com o recurso ao insulto gratuito com direito a linguagem imprópria. Moldou os factos de modo a só ser transmitido o que lhe convinha. Usou um alvo do seu discurso sem nome, de modo a poderem ser todos e nenhum, num misto de cobardia e “chico-espertismo”. Usou o discurso do desespero de modo a ser visto como um mártir. Não está aqui em causa se a pessoa tem razão ou não. Não vivemos num mundo a preto e branco onde um lado tem toda a razão e o outro razão nenhuma. O que está em causa é a forma. É o ignorar princípios éticos essenciais.

Porém, o que mais me dececionou não foi esta atitude. Não sou ingénuo e sei que há muitos seres humanos cuja (de)formação ética considera aceitável uma atitude deste tipo. Como antes afirmei, assisti a muitas atitudes similares no passado em tascas e cafés. O único problema no caso da grande tasca é a visibilidade e as consequências destas atitudes, o que faz com que, na grande tasca, o grau de irresponsabilidade demonstrado seja muito superior. O que mais me dececionou foi a leviandade e a imoralidade com que outros frequentadores da grande tasca reagiram a tal texto. Confirmar factos? Permitir o contraditório? Refletir sobre o assunto de um modo ponderado? Para quê? É tão fácil colocar um “gosto” entre o visionamento de um vídeo com gatinhos e a leitura de umas bocas com piada sobre a ida do Jesus para o Sporting… E com tanta informação que recebemos no Facebook nem vale a pena ler o texto com atenção. Lê-se na diagonal… com tanta indignação só pode ser tudo verdade, por isso merece um “gosto”, sem dúvida! Mas ainda há aqueles que têm uns minutos para efetuar uns comentários… seja a dar força, seja a concordar e a juntar mais uns degradantes insultos, seja a incitar à violência… e não, infelizmente não estou a brincar nem a exagerar. E tudo isto público. Como reagirão crianças e jovens que facilmente têm acesso a esta podridão. Que exemplos lhes estão a dar? Que mensagens lhes estão a transmitir? Que o insulto fácil é aceitável? Que a violência numa discórdia se justifica? Que o desrespeito pelo outro e pelas instituições é algo tolerável numa democracia?

Já não é de agora que observo, no Facebook, a facilidade com que algumas pessoas ofendem outras, desrespeitam a opinião das outras, opinam após uma leitura na diagonal, comentam sem verificar a veracidade dos factos, tomam partido a partir de uma meia-verdade, etc.. Provavelmente, por um lado, a falta de um rosto na sua frente funciona como um facilitador para se dizer aquilo que muitos não terão coragem de dizer na presença do outro. Por outro lado, no meio de tanta trivialidade que se vai escrevendo (e que é perfeitamente aceitável), muitos tratarão a escrita sobre assuntos sérios com a mesma leviandade (o que já não poderá ser aceitável, obviamente). Devo acrescentar que nem nas tascas as pessoas passavam tão rapidamente para a ofensa como observo no Facebook, e aí ainda havia a desculpa do catalisador que era o álcool. No entanto, tudo indica que a participação cívica cada vez mais será efetuada através do uso da Internet, visto esta ser um facilitador extraordinário para tal fim. Deste modo, urge que a sociedade tome consciência de tal facto e da importância de todos sabermos respeitar os limites éticos da intervenção nestes meios. Nunca nos esqueçamos que uma discussão em que a ofensa substituí a argumentação nunca poderá ser frutífera.

Por fim, devo acrescentar que nada tenho contra o Facebook. Como tudo, não é bom nem é mau, depende do uso que se dá. No entanto, tendo em conta o alcance do Facebook e o alarme que estes exemplos começam a fazer soar, algo me diz que, para além de todas as outras funções que a Escola já tem, brevemente teremos mais uma: a educação no uso das redes sociais...

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por ap7 às 12:56



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