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educaportugal



Sexta-feira, 20.07.12

A Avaliação V

No quinto texto dedicado à avaliação mantive o método do anterior: refletir a partir dos comentários efetuados, para que se tornasse, na medida do possível, numa reflexão conjunta. E tendo em conta a qualidade dos comentários, não se limitando a comentar mas a ir além dos mesmos, colocado novas interrogações, não teria capacidade para corresponder. Mas tentei...

 

A avaliação V (18/04/2004)

Tendo em conta as muito pertinentes reações que a minha reflexão tem tido, continuo a refletir tendo como pano de fundo as mesmas.

Miguel Sousa afirma «Infelizmente há quem continue avaliando em função do ano, quando a "coisa" está organizada em ciclos...». Concordo com o teor da afirmação, não na amplitude da mesma. Quantas escolas podem afirmar que trabalham em função de ciclo? Infelizmente, praticamente nenhuma. E porque é que tal acontece? Por diversas razões. Primeiro, por pura e simples ignorância, consentida ou não. Se na minha formação inicial tudo o que se prendia com a organização do nosso sistema de ensino foi pura e simplesmente esquecida, o que me pode levar a pensar que na formação inicial da maior parte dos professores assim não aconteceu? Tendo em conta algumas conversas que tenho com colegas de profissão, só posso concluir que a maior parte deles tiveram uma formação inicial similar à minha, nesse campo. Para além disso, vejo professores com quatro vezes a minha experiência (em termos quantitativos), a ficarem espantados com algumas evidências corriqueiras (em termos normativos) do nosso sistema de ensino, que lhes mostro, como se tivesse dito algo simplesmente extraordinário e novo. Para além desta ignorância involuntária, existe depois a ignorância consentida, por vezes, alvo de orgulho do ignorante. É a ignorância do “sei que se pode fazer mais e melhor, que devia fazer por isso, mas tal implica trabalho e mudança, portanto… deixa-me estar, pois não me pagam mais por isso”. E a grande questão é que esta mudança está intimamente ligada à avaliação que se faz, porque um trabalho efetuado em função de ciclo não permite uma avaliação feita nos moldes em que os professores a fazem. Pois que uma simples classificação de um teste não informa sobre os objetivos alcançados, ou não, pelo aluno, informação vital para um trabalho efetuado em função de ciclo. Quando a avaliação cognitiva de um aluno se reduz a meia dúzia de números (classificações dos testes), em que é que essa informação será útil para o professor do ano letivo seguinte, ainda dentro do mesmo ciclo? Se esses testes forem utilizados no sentido de permitirem determinar, com alguma precisão, quais os objetivos atingidos pelo aluno, e tal informação for registada, valerá mais do que um qualquer número, pois permitirá ao professor e aluno ficar a conhecer aquilo que o último já sabe, e o que ainda tem de trabalhar (inclusivamente os professores seguintes dentro desse ciclo). No entanto, nem todos os objetivos podem ser avaliados num teste, e a realidade é que a maior parte destes estão mal feitos, sendo o seu único fim a obtenção de uma classificação, que transmite alguma “segurança” ao professor, para mais tarde atribuir um nível. Demonstrativo deste facto é uma afirmação proferida por um professor com 18 anos de serviço, num fórum sobre exames: «Quanto ao professor ter a perfeita noção do que o aluno sabe, porque blá blá blá... é uma teoria muito gira, mas que não tem qualquer tipo de comprovação experimental. Para alguns professores, isso, obviamente, pode ser verdade, para outros, nem pouco mais ou menos...». Ou seja, os próprios professores admitem que não sabem o que os alunos sabem, e consideram-no normal. Em relação ao resto da afirmação, deixo à reflexão de cada um.

Não acredito numa rutura total com a avaliação atual, pois não vejo os professores acordarem uma certa manhã com uma predisposição para rever a avaliação que fazem, e a tentar melhorá-la. No entanto, seria importante que a formação inicial começasse a dar mais ênfase a este determinante aspeto da educação, ao mesmo tempo que os professores já formados começassem a refletir sobre a avaliação que fazem e de que forma a podem melhorar. É óbvio que o esquema de dois testes por período, cujas classificações determinam o nível obtido pelo aluno, não vai terminar de um momento para o outro. Mas, se os professores começassem por utilizar esses mesmos testes para determinar quais os objetivos atingidos pelo aluno, e não para obter uma simples classificação, que nenhuma informação dá acerca de quais os objetivos obtidos, e quais aqueles que carecem de mais trabalho e de uma nova avaliação, talvez este “pequeno” passo permitisse um enorme melhoramento nas aprendizagens dos alunos, bem como uma modificação na forma como estes veem a avaliação. Por outro lado, é importante mostrar que o “rei vai nu”, que a maior parte das avaliações que são efetuadas de rigor nada tem (sei de uma professora que disse que a sua avaliação era rigorosa, pois ela dava, exatamente, como nota final, a média dos testes efetuados).

Em relação ao comentário do José Pedro Pais, escreverei mais tarde, pois este texto já vai longo.

 

André Pacheco

 

Este texto deu origem a vários comentários e novas questões.

Em 21/04/2004, Inês: 100% de acordo! Há muito que a confusão se instalou no sistema de avaliação. Os muitos professores que regressaram ao velho modo de avaliar (somar e achar a média) pensam que assim - com dados objectivos - se defendem melhor de reclamações. Na prática é a subversão do ensino/aprendizagem. Os programas escolares incluem os processos de avaliação. Mas não há a noção de que esses processos devem ser aplicados.

José Pais, a 22/04/2004: Mas,no meio disto tudo,onde etá a AVALIAÇÃO FORMATIVA???

Miguel Sousa, a 22/04/2004: Primeiro do que tudo quero agradecer a sua atenção fazendo um texto com a profundidade deste relativamente ao meu comentário, contudo tenho outros para fazer (acho que felizmente):

1.º) acredito no que disse e acho que a avaliação não tem sido feita de forma adequada, até na altura do próprio professor elaborar o mesmo, muitos dos colegas ou não fazem contas ou não têm a mínima noção da "grandeza" do teste face às reais capacidades dos alunos - resultado quando um teste fica a meio a culpa é da falta de estudo... esquecendo o professor de olhar "para o seu umbigo" e analisar se fez um teste ou um "testamento";

2.º) obviamente que concordo que a rutura total com este método (que já tem barbas brancas) não deve ser completa, acredito que muitos professores já utilizam muita outra informação complementar (da avaliação formativa e contínua)... o caminho é longo mas espero sinceramente que um dia cheguemos a um modelo mais justo de avaliação;

3.º) no caso da minha disciplina (Ed. Física) e provavelmente (também) por causa disso é que a média de níveis negativos é fraca o planeamento tem em conta um conjunto de conhecimentos práticos e teóricos a atingir durante o ciclo. Agora, isto é uma "faca de dois gumes"... porque pode-se chegar ao último ano do ciclo com o aluno com a sensação que "puxamos" pouco por ele uma vez que o passamos através do que chamamos objectivos mínimos com a esperança que ele adquira o essencial da competência até o findar do referido ciclo... e aí tb é chato... ficando a sensação de que podiamos ter feito melhor... um abraço e deculpa o tamanho da reacção.

Em 23/04/2004, Miguel Pinto: Aparentemente o meu comentário parecerá desconexo com o texto que o suscitou. Mas, há uma questão que me anda a martelar os neurónios mais preguiçosos. Quantas vezes, nas sagradas reuniões de departamento curricular ou de grupo disciplinar, olhamos para o nosso desempenho, competência, profissionalismo e, sem preconceitos, abrimos o espaço da nossa seara e deixamos entrar a foice alheia? Como é que convivemos com o mito da autoavaliação?

E, por fim, José Pais, a 24/04/2004 (com mais um dedo na ferida): Se bem percebi até que ponto actuamos reflexivamente sobre as nossas práticas e as questionamos com verdadeiro sentido crítico? Ou melhor até que ponto encetámos (ou não) a caminhada para um profissionalismo a sério, lutando contra a mera "funcionarização" em que nos querem manter...

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por ap7 às 13:45

Quinta-feira, 19.07.12

A Avaliação IV

O quarto texto dedicado à avaliação foi construído a partir dos comentários efetuados ao anterior. No entanto, o que o fez especial, foi o brutal comentário efetuado por José Pais.

 

A avaliação IV (08/04/2004)

Aproveito os comentários ao último texto de forma a continuar esta reflexão sobre a avaliação efetuada na escola. Primeiro, Miguel Pinto alertou para o facto de que, se a avaliação do domínio cognitivo é pobre, o que dizer da avaliação da dimensão sócio-afetiva. Na realidade, esta dimensão é confundida pela maioria dos professores como a avaliação do comportamento do aluno. Quantas vezes ouvimos os alunos justificarem a sua autoavaliação com um “eu porto-me bem”? Nestes casos, respondo sempre que esse não é um facto relevante, pois é suposto os alunos portarem-se bem, é a sua obrigação (sejam alunos ou professores), o contrário é que é anormal, e que, nesse caso, eu agiria disciplinarmente. Na realidade, muitos destes alunos que “se portam bem”, muitas vezes não sabem ser cooperativos, sociáveis, responsáveis, autónomos, reflexivos, etc.. Já muitas vezes ouvi colegas meus a referenciar um aluno positivamente porque “não dão por ele”, logo “avaliando-o” positivamente em termos de “comportamento”. Mas, por vezes, o não “dar pelos alunos” pode ser um sinal de alarme, e não uma coisa boa. E, “não dar por um aluno”, mesmo que não haja razões para alarme, não diz nada no que respeita à avaliação dos vários parâmetros possíveis da dimensão sócio-afetiva. Poderíamos condenar os professores por tais factos, e podemos, em parte. Mas a grande responsável continua a ser a pobre formação inicial e a formação contínua.

Segundo, no comentário de whiteball, retiro uma frase muito importante (não menosprezando o restante comentário): “em 19 anos de aulas, já experimentei muita coisa”. Infelizmente, muitos professores não poderão proferir tal afirmação (independentemente do número de anos), pois todos os anos repetem exatamente o que fizeram nos anos anteriores, independentemente dos resultados obtidos (há casos impressionantes: numa das escola por onde passei, uma jovem professora contou-me a sua experiência de ser professora na escola onde foi aluna, experiência que também tive o prazer de ter. Ao falar dos seus ex-professores, agora colegas, falou de uma em especial, contando-me, divertidamente, que a professora passava as aulas a falar das viagens que usualmente fazia a diversos países, o que, para os alunos, era uma grande seca. No entanto, os alunos não se importavam muito com isso, pois como os testes eram os mesmos todos os anos, facilmente tiravam positiva nos mesmos, uma vez que os obtiveram através dos colegas dos anos anteriores. Já agora, tal aconteceu no seu 12º ano).

Por fim, retiro do comentário de Miguel Sousa uma afirmação extremamente importante: “chumba-se um aluno que é um crânio na matemática ou na física só porque não tirou positiva a português, como que o problema da língua materna só tenha solução dentro da disciplina de português”. Apesar da lógica da frase estar ligada às disciplinas envolvidas, prefiro retirar as mesmas, de forma a realizar um comentário mais abrangente, relacionado com a dialética: trabalho em função de ciclo / trabalho em função de ano letivo. Quando se trabalha em função de ano letivo, como se faz na quase totalidade das escolas portuguesas, é perfeitamente lógico que um aluno, excelente em metade das disciplinas, tenha que as repetir no seguinte ano letivo, porque nas outras disciplinas teve as “negativas” necessárias para ficar retido. Imaginemo-nos na pele de um aluno, “crânio” a matemática, a repetir a frequência do ano letivo anterior nessa disciplina. Deve ser extremamente motivador e enriquecedor... Quem diz matemática, diz uma data de outras disciplinas, onde alunos “perdem” tempo a “aprender” o que já sabem, em vez de dedicar esse mesmo tempo às disciplinas onde apresentam dificuldades de aprendizagem. Incoerente (para não empregar uma palavra mais forte), mas é o que fazemos e continuamos a fazer.

Por ora, a reflexão escrita fica por aqui.

 

André Pacheco

 

Este texto teve a excelente contribuição de Miguel Sousa e José Pais.

Em 09/04/2004, Miguel Sousa comentou: Infelizmente há quem continue avaliando em função do ano, quando a "coisa" está organizada em ciclos.... confesso que este assunto incomoda bastante pelo facto de ter poucas certezas, aliás a única que tenho é que é urgente uma solução mais consensual, por forma que (boa ou má) se possa agir com alguma coerência sem baralhar os estudantes que no mesmo Conselho de Turma têm professores com filosofias de avaliação diferentes.

No mesmo dia, José Pais acrescentou: Congratulo-me, pela 1.ª vez vejo alguém a pôr o dedo na ferida,isto é, nas incongruências do sistema, que aliás são muitas e resultam de toda a estrutura organizacional do sistema se basear em princípios que visam meramente satisfazer necessidades administrativas, subjugando a estas as de natureza pedagógica. Isto era "aguentável" quando à escola só chegavam alguns. A democratização do acesso ao ensino, ganha com o 25 de Abril, exigia uma mudança radical neste paradigma, para poder tornar extensível essa democratização ao sucesso escolar! Só que não houve vontade política, até hoje, para tomar as medidas necessárias a essa mudança. E, quando alguma escola cria no seu seio essas condições e avança no sentido correto, o Ministério ao sabê-lo tenta "cortar-lhe as pernas" para que não avancem mais (vide caso da Escola da Ponte)!!! Assim não vamos lá! Por um lado os (des)governos que travam, por outro muitos professores que, por esta ou aquela razão temem a mudança e fazem "resistência passiva", como se não bastasse há pais que apelam ao "tempo volta para trás" - uns conscientes do que querem atingir,outros nem tanto... A governança para se limpar vai fingindo que está muito preocupada com os números do insucesso e abandono escolar, atirando, sem o dizer, o ónus da culpa para cima dos professores, falando de vez em quando da sua má formação (como se nada tivesse a ver com isso), do absentismo, da necessidade da avaliação de desempenho evidentemente para "separar o trigo do joio", que é como quem diz, os "bons" dos "maus" profissionais... Claro que os nossos (des)governantes fazem isto tudo inocentemente, porque eles estão "profundamente preocupados com o melhor para o Povo", eu é que sou um dos tais maus profissionais a levantar aleivosias contra os desinteressados servidores da pátria, um "esquerdalho", como um colega já me chamou.

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por ap7 às 16:48

Quarta-feira, 18.07.12

A Avaliação III

Pouco tempo depois do segundo, o terceiro... prova de um tempo onde ainda tinha tempo. Foi então que surgiram os contributos dos migueis e da witheball.

 

Ainda a avaliação III (31/03/2004)

Tendo em conta as reações aos textos sobre o tema atualmente em debate neste local, poder-se-ão proferir mais alguns comentários: é uma realidade que muita da avaliação efetuada nas nossas escolas é pouco eficaz e que a formação inicial de professores, bem como a contínua, são pobres neste ponto.

Gostaria de acreditar que só na minha faculdade e que só a minha orientadora de estágio descuraram aquele que será provavelmente o fator mais importante do processo de aprendizagem de um aluno. A minha faculdade é muito bem vista pelo seu exterior, e na preparação científica dos seus alunos poucas críticas lhe poderão ser feitas. No entanto, senti que me formou como matemático e não como professor, e um bom matemático não é obrigatoriamente um bom professor. Quando em contacto com a minha profissão, senti que pouco ou nada sabia sobre educação. Para além disso, no ano de estágio aprendi mais o que não fazer do que o oposto. A orientação científica ligada à faculdade estava completamente desligada da realidade da escola, tendo o orientador de estágio da faculdade visitado a escola uma única vez, no final do ano, quando apresentámos o nosso trabalho científico na mesma. Este trabalho nem se dirigia a alunos, pois tratava-se de matemática tão recente e complexa, que grande parte dos professores que assistiram à conferência teve dificuldade em compreendê-la. Em relação à orientação pedagógica, prefiro não alargar muito os meus comentários.

Sei que há orientadores excelentes e que há faculdades com bons currículos no que concerne à formação de professores. Sei que são uma minoria. Para além disso, também nas faculdades se assiste, por parte dos alunos, a muitos preconceitos em relação às cadeiras ditas pedagógicas, preferindo o orgulho na ignorância do que a abertura de novos horizontes. Mas, tendo em conta que estas mesmas cadeiras são normalmente avaliadas por exame, favorecendo o “cola e esquece”, é compreensível que muitos futuros professores menosprezem estas mesmas, olhando-as como algo que têm de fazer, não com o qual podem aprender.

No entanto, quando um professor entra na sua função, por sua conta e risco, tem espaço de manobra para o seu aperfeiçoamento. Receio que esta tentativa de aperfeiçoamento não seja a regra. Para tal acontecer, é necessário reflexão sobre as suas práticas e estudo sobre questões educativas. Mas, quantos professores leem, por ano, um simples livro sobre um qualquer tema educativo. Habituei-me, nas escolas por onde passo, a requisitar livros sobre estes temas, nas suas bibliotecas, sem qualquer preocupação relativamente ao prazo de entrega dos mesmos, pois, de acordo com as funcionárias, a sua requisição é rara. Mas, mesmo sem esta leitura, os professores podem evoluir muito através de uma reflexão contínua sobre as suas práticas. Pelo que observo, a quantidade destes está ainda longe da aceitável. As discussões que se observam nas escolas entre professores vão mais no sentido da crítica em relação ao que está mal, do que no procurar soluções com vista a melhorar a escola, um pouco que seja. Deste modo, muitos dos que procuram melhorar fazem-no individualmente, o que não tem tanta força como o trabalho de uma equipa. Vê-se, em muitas escolas, muitos bons professores a trabalharem como se fossem ilhas (expressão que um excelente professor que conheci utilizou numa situação particular, deste tipo). Nestes casos, os alunos destes professores ganham muito em tê-los, mas a escola, em si, pouco evolui. Tendo em conta a dificuldade em definir um bom professor, creio que esta capacidade de reflexão fará parte dessa mesma definição.

Havendo já uma enorme base de discussão, continuarei a refletir sobre este tema tão premente, em futuros textos. Espero que estes mesmos textos ajudem outros a refletir sobre tudo isto, tal como eu tenho tentado fazer.

 

André Pacheco

 

Após a publicação este texto foi brindado com três excelentes contribuições.

Miguel Pinto, em 31/03/2004: A dimensão sócio-afectiva tem sido relegada nos processos avaliativos? Um dos argumentos utilizados para legitimar a focalização da avaliação para o domínio cognitivo prende-se com a dificuldade em discernir e adoptar os instrumentos adequados. Será um reconhecimento da falta de preparação dos professores nesta matéria?

Whiteball, em 05/04/2004: Eu já hoje disse isto: o ensino é algo de muito complicado... Há imensas variáveis a ter em linha de conta e eu, em 19 anos de aulas, já experimentei muita coisa: ensinar é para mim tão mais importante que se tornou, para além de uma profissão, uma forma de vida; eu sinto falta da escola, tenho saudades dos meus alunos... Mas de facto muitas vezes agimos por iniciativa própria; temos tendência a resistir à mudança!Vou reflectir, porque tudo isto é muito complicado...

Miguel Sousa, em 07/04/2004: Sou orientador de estágio pela primeira vez... e se fosse hoje, optava por uma pós-graduação em supervisão pedagógica antes de me ter voluntariado para tal empreitada... a avaliação, tal como outras questões dentro da escola não são suficientemente debatidas e mais... debates tendo como ponto de partida pressupostos ultrapassados, como é o caso da reforma do 3.º ciclo do ensino básico, onde se continua a reter os alunos com o mesmo número de níveis negativos do que antes da reforma... só que desta vez a alteração trouxe mais um sem número de disciplinas... por outro lado chumba-se um aluno que é um crânio na matemática ou na física só porque não tirou positiva a português, como que o problema da língua materna só tenha solução dentro da disciplina de português,... um abraço e parabéns pelo excelente espaço de reflexão.

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por ap7 às 14:58

Terça-feira, 17.07.12

A Avaliação II

Pouco tempo depois do primeiro texto dedicado à avaliação, publiquei o segundo onde em comentário surgiu a excelente contribuição de José Pais.

 

A avaliação II (26/03/2004)

Tendo em conta os pressupostos do texto anterior, penso ser importante refletir sobre os entraves às mudanças. Não é que estas não estejam a acontecer. É verificável que hoje em dia existe um maior número de professores cientes da importância da avaliação, e do seu papel de motor do processo de aprendizagem do aluno. De acordo com este facto, cada vez são mais os professores que procuram melhorar a forma como a avaliação dos seus alunos é efetuada. Sabendo da fragilidade da avaliação mais usual (os célebres dois testes por período e respetiva média aritmética), e dos vícios horríveis que esta mesma forma de avaliar incute nos alunos, muitos professores procuram gradualmente melhorar a sua performance no que diz respeito à sua capacidade de efetuar uma avaliação rigorosa (expressão tão em voga).

A pseudo-segurança que uma classificação numérica atribuída a um teste transmite a um professor, tem vindo a fazer com que a forma mais usual de avaliação continue a ser a mais realizada. Tendo em conta que a avaliação sumativa consiste, usualmente, num valor numérico, o facto da avaliação formativa consistir em provas cuja informação se resume a um simples número, dá ao professor uma ideia errada de segurança e de rigor na avaliação. Isto porque um 50% tanto poderá dizer respeito à avaliação de um aluno que demonstrou ter atingido todos os objetivos de aprendizagem, mas não de uma forma sólida, como poderá dizer respeito a um aluno que não atingiu nenhum objetivo, mas que ganhou uns pontinhos aqui e ali até perfazer os 50%. Já para não referir os casos de fraude (que, inexplicavelmente, nem sempre são objeto de uma reprovação moral nas escolas – ouvi, uma vez, numa reunião de avaliação, tal facto ser considerado positivo), e os casos dos alunos que simplesmente memorizam para esquecer. Em relação aos alunos, a avaliação feita única e exclusivamente nestes moldes ainda é mais gravosa. Para o aluno o objetivo não é aprender, mas sim obter os pontinhos necessários para conseguir a “positiva”, seja por que meio for. Ou seja, o importante não é o dia-a-dia das aulas, onde os alunos estão para apreender novos conhecimentos, mas sim aquelas 6 aulas do ano letivo onde a sua nota é decidida.

O mais grave é que, supostamente, a avaliação é formativa. No entanto, se a avaliação se resume aos dois testes por período, de que forma se pode falar em avaliação formativa. De facto, esta pressupõe que a avaliação seja um orientador da aprendizagem, de modo a que o aluno possa verificar o que sabe e o que não sabe, com o intuito de assimilar aquilo que não sabe. Mas se o aluno não volta a avaliar aquilo que não sabia, ele não tem qualquer interesse em voltar a rever o que não sabia. Este último facto provoca, em algumas disciplinas (de que é exemplo a Matemática e as línguas estrangeiras, disciplinas de carácter cumulativo), um resultado desastroso. Aqueles conhecimentos que não são apreendidos irão fazer mossa nos seguintes anos letivos, sendo o resultado habitual a negativa nesses mesmos anos letivos. E caso o professor avalie nos testes as matérias já avaliadas por outros anteriores, estará a dar um maior peso às primeiras matérias na avaliação, visto terem sido mais avaliadas e consequentemente, mais pontuadas.

No entanto, muitos professores tentam, e bem, conciliar a avaliação tradicional com a avaliação formativa. De que forma? Construindo testes realmente capazes de determinar o que o aluno sabe e não sabe, registando tal facto (de facto, muitos dos testes que se veem nas escolas pouco ou nada têm a ver com os objetivos da disciplina, estando mais de acordo com os manuais do que com os programas, para além de terem questões que são péssimas para uma ficha de avaliação. Destas são exemplo, na Matemática, as perguntas de respostas encadeadas, em que, caso o aluno não consiga fazer uma questão, já não poderá fazer as seguintes pois dependem da que não realizaram. Deste modo, quando as questões avaliam objetivos diferentes, o aluno não poderá mostrar que atingiu alguns destes, pois fica sem dados para o fazer. Por muito interessantes que estes tipos de questões sejam, devendo ser usadas em aula, em fichas de avaliação tornam-se desastrosas. Mas, sendo interessantes, são, infelizmente, muito usadas em avaliação). Deste modo, o professor poderá informar o aluno dos objetivos já obtidos, e ajudá-lo a adquirir os ainda não obtidos, podendo até voltar a avaliá-lo nestes. Assim, o aluno efetua melhores aprendizagens, e o professor tem ao seu dispor mais do que simples números; tem também o conhecimento sobre as aprendizagens efetuadas pelo aluno, podendo avaliá-lo de forma mais rigorosa.

Desta forma, o professor não corta completamente com o tradicional, e efetua uma melhor avaliação. O ideal seria cortar completamente com o tradicional, mas tal mostra-se extremamente complicado. De um lado estão os vícios dos alunos ligados aos testes, estranhando quando os tais não são efetuados; e, por outro, está a desconfiança de muitos colegas em relação a tudo o que sai da “normalidade”. Mas a reflexão sobre este facto ficará para um texto posterior.

 

André Pacheco

 

Este texto deu origem a um comentário efetuado pelo José Pais a 29/03/2012, fazendo alusão ao meu texto anterior e pondo o dedo na ferida no que concerne à formação inicial de professores:

Acho inconcebível o que o colega diz relativamente à forma como (não) foi feita a abordagem da avaliação na sua faculdade e no estágio,porque sendo a avaliação componente integrante da gestão e desenvolvimento curricular e uma das suas mais importantes componentes, não compreendo como se pode fazer a dita gestão sem dominar um dos seus instrumentos mais importantes.

Mais, este dado junto a outros que ao longo dos anos venho recolhendo,confirma-me que o descalabro do ensino em Portugal só será estancado quando a formação inicial e contínua de professores levar uma "volta de 180º". O que me diz sobre parte da sua formação é escandaloso!!!Só pergunto como se atreve gente irresponsável a esse ponto,a criticar os professores do básico?!

Haja vergonha!!!

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por ap7 às 16:25

Terça-feira, 17.07.12

A Avaliação I

Sendo a avaliação um dos meus temas preferidos no mundo da Educação, em 2004 dediquei diversos textos a esta temática. Esses textos foram enriquecidos por comentários de professores reflexivos, que não se limitam a imitar as práticas avaliativas que observaram enquanto estudantes. Não sei se será possível recuperar todos os comentários efetuados. No entanto, irei adicionar no final de cada texto aqueles que conseguir recuperar. Indo criar um post para cada um dos textos, nos mesmos serão assinaladas as datas em que foram divulgados, assim como nos comentários.

 

A avaliação I (23/02/2004)

Dediquei-me a participar no fórum do Netprof subordinado ao tema “exames de 6.º ano”. Fi-lo por algumas razões. Primeiro, como professor, sou parte interessada no tema. Sendo a avaliação uma área tão importante da minha função, acredito ser importante participar em debates deste tipo. No entanto, esta minha viagem ofereceu-me algo mais rico: uma melhor compreensão sobre as diferentes posições relativamente aos exames. Deste modo, creio ter observado os seguintes perfis: a) aquele que vê os exames como uma forma de avaliação pouco eficaz, logo é contra a realização dos mesmos por uma questão de princípio; b) aquele que vê os exames como uma forma de avaliação pouco eficaz, mas defende a sua introdução como uma espécie de medida de controlo do trabalho de alguns docentes; c) aquele que vê os exames como uma forma de avaliação eficaz, mas que não acredita que os mesmos irão melhorar o que quer que seja, que só irão tornar a escola mais seletiva; d) aquele que vê os exames como uma forma de avaliação eficaz, vendo a sua introdução como algo muito importante. Obviamente que muitos professores não se encaixam de forma linear em qualquer um dos perfis, mas creio que estes são os mais significativos. Na minha leitura de opiniões e troca de argumentos com os outros participantes, pude compreender várias coisas. Primeiro, que praticamente todos os participantes nestes locais são pessoas bem-intencionadas, capazes de argumentar de forma cívica e tolerante e, mais importante, que se preocupam com os temas ligados à sua profissão. E este último facto é determinante, porque o que mais me preocupa em relação aos meus colegas de profissão não é terem pensamentos divergentes dos meus. É não terem qualquer tipo de pensamento e reflexão sobre os temas que dizem respeito à sua função. É a total indiferença, tendo quanto muito uma opinião fundamentada em meia dúzia de frases que ouviram algures.

Por outro lado, discerni um dos grandes males da nossa educação: o quase desconhecimento sobre como avaliar o rendimento dos alunos. Reparei que a maior parte dos professores vê os exames como uma forma eficaz de avaliação porque a sua avaliação é exclusivamente fundamentada em provas do mesmo tipo, vulgo teste. Poderia culpar estes professores de tal facto mas, lembrando a minha formação inicial, recuso-me a fazê-lo. Nos quatro anos em que estive na faculdade nunca se discutiu avaliação numa cadeira que fosse, e a avaliação de praticamente todas as cadeiras (excetuando duas) foi realizada através de exames. Mas não vejo este fator como o mais grave. Mais grave foi o ano de estágio. Aqui, nem a legislação sobre avaliação foi debatida com a orientadora de estágio (fui eu que a procurei de modo a conhecê-la). Na única troca de ideias sobre avaliação, a orientadora disse para realizarmos dois testes por período, testes esses que consistiam em alguns exercícios considerados importantes, aconselhando que procurássemos tais exercícios noutros manuais que não o adotado. Objetivos? Nunca tal palavra saiu da boca da orientadora. Avaliação formativa? Duvido que soubesse o que era. Mais grave ainda, escrevia ficha de avaliação sumativa nos ditos testes, coisa que deixei de fazer, após ler a legislação e me ter aconselhado com outro professor.

Não acredito que a minha história seja única. Acredito que o contrário seja a exceção. Tendo em conta este facto, é natural que os estagiários copiem aquilo que veem (e viram como alunos) fazer. Mais grave ainda, é o facto de qualquer professor que tente fazer algo diferente seja olhado com desconfiança por um grande número de colegas. Quer seja por considerarem a sua forma de avaliar a mais correta e as outras puro lirismo (não pensam que se alguém tenta fazer algo diferente é porque refletiu muito sobre o assunto e se informou, estudando o tema), quer seja por não o saberem fazer de outra forma, e a simples hipótese de haver algo mais lógico e correto do que aquilo que fazem os assustar, pois tal implica mudança e trabalho, e o facto de não mudarem põe a nu a sua mediocridade.

Tendo em conta o papel central da avaliação, determinando praticamente os procedimentos do processo de aprendizagem, pode-se concluir que este facto, facilmente reconhecível, é um enorme entrave à qualidade do nosso sistema educativo.

Sendo este um tema passível de ser assunto para uma obra com dezenas de volumes, por agora nada mais escrevo.

 

André Pacheco

 

Este texto teve um comentário efetuado a 26/03/2012 pela Cristina Duarte, que veio ilustrar a fragilidade e a falta de rigor de grande parte da avaliação efetuda:

Gostaria de poder fazer um comentário relacionado com o tema da avaliação. O dito rigor dos dois testes por período e respectiva média revela-se, realmente, desastroso! Disto é prova o que eu ouvi de uma aluna, esta semana. A menina, aluna do 10.º ano, estava aflita, porque tinha tido 4 valores no primeiro teste de história e (Ai Jesus me acuda!!) não se sentia preparada para conseguir o tão necessário 16 no teste seguinte. Acontece que, neste hábito dos dois testes por período, todos os professores marcam os testes na mesma época e, logicamente, na mesma semana!! Aconteceu que,esta menina de olhos azuis, tão doce e inteligente, ficou com gripe no fim-de-semana passado. A muito custo, veio fazer os teste de história na terça-feira, cheia de febre e sem disposição nenhuma. Ela é uma rapariga inteligente e, na minha aula, «trabalha «que se farta!». Não entendo como é que uma pessoa como ela, que diz que não terá, sequer, um 10 neste teste, vai ter uma classificação tão baixa numa disciplina. Ela diz que sabia a matéria, mas que teve azar! Ora, eu perguntei-lhe, por minha vez, quando é que teria oportunidade de mostrar ao professor que até sabe tudo aquilo. Disseram-me, a rir que já não haveria mais nenhum teste neste período. Não perceberam, e com razão, o que eu lhes queria mostrar, logo, expliquei: com tantos testes seguidos, como é que têm tempo para estudar para um, de cada vez?; se agora a menina tiver 16 valores, porque sabe bem esta "matéria", o que é que acontece em relação à "matéria" que ela não sabia quando teve 4 valores?; O professor não sabia, do trabalho e discussão com os alunos, que ela sabia tudo aquilo?; a nota é, simplesmente, a média de dois testes, e o resto?; etc, etc, etc... Os garotos ficaram com uma sorriso tipo: «Olha, esta está nisto há pouco tempo e não sabe como se dá notas... é natural, foi isto que eles viram fazer a vida toda! Infelizmente, uma pessoa que até sabe muito daquilo que lhe foi «ensinado», não terá boa nota, que é aquilo que os alunos buscam a todo o custo. Pela simples razão que o professor faz dois testes por período e, de certeza, não sabe sequer o que é que os seus alunos sabem. Mas a «freak» sou eu, que mantenho os meus registos em dia e pareço uma doida nas minhas aulas, de mesa em mesa, a trabalhar COM os míudos. Obviamente que a avaliação que eu faço do trabalho e aprendizagens dos meus alunos está longe de ser perfeita ou completa, mas eu, pelo menos, tento perceber o que eles não sabem e tento incutir-lhes a ideia de que estão ali para aprender e não só para conseguir a nota mais alta com o menor esforço possível. Peço desculpa pela extensão do meu comentário, mas tinha que dizer isto, e já está!

 

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por ap7 às 00:07

Domingo, 15.07.12

História macabra

Em Novembro de 2013 comecei a publicação de uma história sobre as aventuras de um diretor de turma da qual uma aluna recorreu da sua avaliação final para a direção regional de educação. O final da história (totalmente real) levou que a mesma fosse batizada de macabra. A história foi publicada em 16 episódios, os quais colocarei neste post, devidamente datados, e reescritos segundo o novo acordo ortográfico.

 

História macabra - Episódio 1 (19/11/2003)

Esta história é sobre as aventuras, e desventuras, de um diretor de turma, uma sua aluna e respetiva encarregada de educação, de um Conselho Executivo, e da Direção Regional de Educação correspondente.

O diretor de turma foi colocado pela primeira vez nessa escola, conhecendo mal a terra onde a mesma fica. Com a direção de uma turma de cerca de trinta alunos, a aluna em causa era uma dos dois alunos que no ano transato não tinham obtido aprovação (encontrava-se num ano escolar de fim de ciclo). A diferença entre os dois alunos é que, enquanto o outro tinha sido não aprovado por excesso de avaliações sumativas inferiores a três, a nossa aluna tinha faltado a mais de metade das aulas do ano letivo, não tendo, de facto, uma efetiva frequência da escola nesse ano. Deste modo, era uma aluna que requeria mais cuidados e uma especial atenção por parte do diretor de turma, tal como lhe foi pedido pela encarregada de educação na primeira reunião efetuada com os encarregados de educação (1.º período). Não era de facto necessário tal pedido, pois obviamente o diretor de turma estava completamente ciente do problema (tendo vivido alguns em anteriores anos letivos), ficando à total disposição da encarregada de educação, dando-lhe, inclusivamente, o número de telefone.

 

História macabra - Episódio 2 (23/11/2003)

Nos primeiros dias do ano letivo, o Conselho de Turma registou que a aluna estava mudada relativamente ao ano anterior. Apresentava uma excelente assiduidade, descansando, de alguma forma, o diretor de turma em relação às suas preocupações nesse campo. Apesar de a aluna continuar a demonstrar um feitio um pouco "torcido", este era, por ela, controlado, levando a que os professores registassem o facto com alegria. Na realidade, nos dois primeiros períodos só se registaram dois problemas com a aluna, sendo unicamente um deles de índole disciplinar. O primeiro foi um simples equívoco: certo dia, sensivelmente a meio do primeiro período, alguns alunos informaram a aluna em causa, em frente ao diretor de turma, que ela tinha tido falta a uma das disciplinas, aula a que ela tinha assistido. Perante a estupefação da aluna, o diretor de turma perguntou-lhe se havia algum problema. A aluna respondeu que, havia algumas aulas, a professora da dita disciplina tinha verificado que alguns alunos tinham pastilha elástica (algo proibido na escola em questão - Regulamento Interno), e que os tinha mandado deitar fora. No entanto, poucas aulas depois, o mesmo sucedeu, e perante tal facto a professora marcou falta a esses alunos. O problema é que ela nem sequer tinha pastilha elástica, limitou-se a tomar um comprimido para as dores de garganta, visto estar adoentada. Perante tal facto, o diretor de turma, primeiro explicou à aluna que, antes de tomar o dito comprimido, deveria tê-lo pedido à professora, pois esta não é polícia, nem omnipresente, portanto, pode cometer um juízo errado na observação de uma situação; e, em seguida, disse-lhe que iria falar com a professora sobre o sucedido.

Antes ainda de encontrar a dita professora, surge a mãe da aluna na escola, muito perturbada, pois a aluna tinha-lhe contado o sucedido. Estava muito revoltada, e trazia um atestado médico a demonstrar a necessidade da aluna tomar os referidos comprimidos. Perante a situação, o diretor de turma disse à encarregada de educação que ainda não tinha falado com a professora, logo não poderia fazer mais nada que ficar com o atestado, e que depois a informaria sobre o caso.

Quando o diretor de turma encontrou a professora soube, visto que ela tinha os registos diários das aulas, que a aluna tinha falta numa aula a que realmente tinha faltado, e que ninguém tinha tido falta por, alegadamente, estar a mascar pastilha elástica. Perante tal facto, o diretor de turma pediu que a mãe da aluna fosse à escola, onde tudo ficou esclarecido.

O segundo acontecimento foi de alguma gravidade, e está de alguma forma ligado à têmpera da aluna. Numa das aulas de uma das disciplinas, a aluna foi insolente, levando uma situação insignificante ao extremo, transformando-a numa afronta à autoridade do professor. Perante tal facto o professor optou por levar a aluna para a biblioteca, visto que ele ficou de tal forma perturbado com a situação, que chegou a ser desagradável com a aluna.

Perante a participação disciplinar, entregue pelo professor em causa, o diretor de turma convocou a encarregada de educação da aluna, a quem iria informar do caso, mas não o valorizando muito, visto que o próprio professor da disciplina tinha afirmado que, como era a primeira vez que tal situação sucedia, a conversa com a mãe da aluna bastaria para que fosse a última.

Quando a mãe chegou à escola já ia extremamente perturbada. A aluna tinha-lhe contado o sucedido (a sua versão), e a mãe tomou o partido da sua filha não ouvindo mais nada. Apesar de o diretor de turma lhe ter explicado que a reação exagerada do professor foi resultado do que a aluna tinha feito (concordando a mãe, que a sua filha tinha um feitio complicado), a mãe simplesmente não quis perceber, pois provavelmente nunca teria perdido a cabeça numa situação de extremo emocional! (facto que a aluna compreendeu perfeitamente em conversa com o diretor de turma, mais tarde). Por outro lado, o diretor de turma explicou à encarregada de educação que, em termos educacionais, era muito importante a aluna compreender a sua falha; por um lado para evitar que tal pudesse voltar a acontecer e, mais importante, em termos de formação pessoal da aluna, no que concerne à responsabilização pelos seus atos. Tudo foi infrutífero, e a conversa por aí ficou.

 

História macabra - episódio 3 (26/11/2003)

Tirando aqueles dois pequenos acontecimentos, tudo correu bem com a aluna nos dois primeiros períodos, à exceção das suas avaliações sumativas no final de cada período. De facto, excetuando Educação Moral e Religião Católica, a aluna, no primeiro período, teve nível dois a mais de metade das disciplinas. Melhorou no segundo período, ficando só com três, mas com Língua Portuguesa e Matemática incluídas, o que bastava para não obter aprovação no fim de ciclo. O seu relacionamento com o diretor de turma era ótimo, e era um facto que, se a aluna tinha os três níveis dois no final do segundo período, era devido ao seu parco empenho.

No início do terceiro período foi efetuada uma reunião com os encarregados de educação, organizada pelo diretor de turma, para debater as avaliações dos seus educandos. Nessa mesma realçou-se a melhoria dos mesmos no período anterior, apesar das avaliações ainda não serem totalmente satisfatórias. De facto, cerca de metade dos alunos ainda não ficariam aprovados, apesar de, com as avaliações sumativas do final do primeiro período, o número de não aprovados seria de cerca de ¾ dos alunos da turma (caso único na escola).

Nessa reunião, uma encarregada de educação colocou em causa a avaliação sumativa da sua educanda a uma das disciplinas, não referindo porém o porquê. Em seguida, a encarregada de educação da nossa aluna fez o mesmo, à mesma disciplina, dizendo que estranhou o nível dois, visto que a sua educanda tinha tido uma positiva num teste do segundo período. Perante tal facto, o diretor de turma explicou que a avaliação não se resume a testes mas, visto que não se podia pronunciar sobre as notas de uma sua colega, por desconhecimento (e não só), disse que iria falar com ela, e que depois as informaria sobre os casos.

Após ter exposto a situação à professora em questão, esta demonstrou total disponibilidade para conversar com as encarregadas sobre o assunto. Convocadas para o efeito, as encarregadas de educação não compareceram na escola, a primeira sem explicitar qual a razão, a nossa encarregada de educação, porque a filha assim lhe pediu. O diretor de turma ficou com a ideia de que a aluna gostaria de resolver os seus assuntos pessoalmente, sem intervenção da mãe, conclusão resultante de conversa com a aluna sobre o assunto.

E assim o assunto morreu, caindo no esquecimento.

 

História macabra - Episódio 4 (02/12/2003)

No último período aconteceu única e exclusivamente uma situação problemática com a nossa aluna, sendo, porém, a mais grave de todo o ano letivo. Quando faltava cerca de um mês para o fim do ano letivo, outra aluna da turma foi ter com o diretor de turma com ar grave, dizendo-lhe que precisava muito de falar com ele. De facto, uma das suas colegas da turma andava ultimamente muito triste, tendo já chorado mais do que uma vez na escola, não demonstrando vontade de ir para a mesma todos os dias. O que se passava é que depois de um pequeno mal-entendido numa visita de estudo recente, alguns elementos da turma, e outros da escola, chamavam-lhe algo que ela não gostava, bastante ofensivo, criticando-a constantemente; uma verdadeira tortura psicológica. O ponto mais alto desta tortura foi a afixação de um papel na escola, com a sua fotografia cortada em pedaços, com ameaças físicas, para além de vários insultos. Quando a aluna visada encontrou o papel, retirou-o da parede e desapareceu para chorar (a amiga da vítima entregou este mesmo papel ao diretor de turma neste encontro). Ao questionar a aluna sobre os acontecimentos, o diretor de turma identificou os alunos envolvidos, convocando-os para esclarecer a história. Para além disso, falou com os professores intervenientes na tal visita de estudo, para compreender melhor o sucedido.

A nossa aluna era a principal responsável por todos estes acontecimentos, pois o mal-entendido tinha acontecido com ela, para além de nunca ter apreciado a aluna visada a tortura (admitindo-o publicamente).

Nesse encontro com as alunas envolvidas em todo este conflito, vítima incluída, o diretor de turma compreendeu que tudo não passou de uma futilidade. Apesar de a nossa aluna considerar os acontecimentos dessa visita de estudo graves, enquanto para as outras não tinham tanta importância, o diretor de turma, com muito esforço, tentou demonstrar-lhe que tudo não passava de um mal-entendido, como muitos que acontecem todos os dias por este mundo fora, e que, independentemente da gravidade do sucedido, o que estavam a fazer à colega era extremamente mais grave e, se tal não terminasse naquele momento, iria agir disciplinarmente sobre os alunos em questão (havendo já material para o fazer). Dessa forma, esclarecido o assunto, e com a promessa que, fosse quem fosse, o próximo a insultar a aluna seria alvo de um processo disciplinar, o assunto ficou encerrado.

De facto, com esta intervenção e outra de um outro professor da turma (interveniente na visita de estudo em causa), o assunto morreu.

 

História macabra - Episódio 5 (06/12/2003)

Aproximando-se a reunião de avaliação do final do ano letivo, o diretor de turma, ciente que grande parte dos alunos da turma iria ficar não aprovada, ia recolhendo algumas informações em relação a alguns deles, sobretudo aqueles que se encontravam em dúvida no que concerne à aprovação, ou não aprovação. Um dos alunos nesta situação era a nossa aluna. De facto, após ter tido três níveis inferiores a três no segundo período, a mesma necessitava de subir um desses níveis. Tendo em conta que iria ter, com grande grau de certeza, nível dois a duas disciplinas, uma delas Matemática (visto que tinha, de alguma forma, desistido nestas duas disciplinas), restava-lhe a outra disciplina, no caso Língua Portuguesa, disciplina cuja avaliação a sua encarregada de educação tinha posto em causa no fim do segundo período.

O diretor de turma, perante os factos ocorridos, acreditava que a aluna com um pouco mais de esforço conseguiria nível três a essa disciplina, e assim obter a aprovação de final de ciclo. No entanto, o diretor de turma não tinha conhecimento da avaliação da aluna da disciplina, daí que a sua suposição carecia de fundamentação e de certeza.

Deste modo, num jantar realizado poucos dias antes da reunião de avaliação, com os professores e alunos da turma, jantar organizado pelos últimos, e tendo ficado o diretor de turma ao pé da nossa aluna, no meio da conversa que decorreu durante o jantar, o diretor de turma questionou a aluna sobre as suas perspetivas para a sua aprovação no final do ano. A aluna, para espanto e desalento do diretor de turma, disse ter más perspetivas, pois, para além de não ter conseguido melhorar a avaliação de Língua Portuguesa, tinha piorado numa outra disciplina, podendo assim ter quatro níveis inferiores a três no final do ano. Era uma péssima notícia para o diretor de turma, pois mesmo que na disciplina em que tinha piorado conseguisse nível três, continuaria com três níveis inferiores a três, tendo cumulativamente Língua Portuguesa e Matemática, o que no fim de ciclo resultaria em não aprovação.

Era com estas preocupações que o diretor de turma iria receber no dia seguinte a mãe da aluna, para que esta desse o parecer sobre uma possível não aprovação da sua educanda, parecer este necessário visto que a aluna iria ser submetida a avaliação especializada, pois corria risco de retenção repetida em fim de ciclo (caso único na turma).

Quando o diretor de turma recebeu a encarregada de educação e lhe explicou a razão da sua convocatória, a mãe ficou um pouco surpresa com a hipótese da sua educanda ficar não aprovada (apesar da aluna ter tido cinco níveis inferiores a três no primeiro período, e três no segundo, sempre acumulando Língua Portuguesa e Matemática). Perante a estupefação da mãe da aluna, o diretor de turma perguntou-lhe se a última não tinha falado com ela sobre o assunto, ao que a mãe respondeu negativamente. Nesta situação o diretor de turma ficou perante um dilema complicado: por um lado a aluna tinha-lhe dito que iria ficar não aprovada, e a mãe deveria ser informada da forte hipótese de tal acontecer; por outro lado, sentia que iria trair a confiança da aluna, ao dizer à mãe aquilo que a sua filha lhe tinha dito. Perante tal dilema, o diretor de turma, sem nunca dizer o que a aluna lhe tinha dito, apresentou-lhe o cenário. Que a sua educanda tinha dois níveis inferiores a três confirmados (a Matemática e outra disciplina), e que estava dependente das avaliações sumativas da disciplina de Língua Portuguesa e outra, não sendo a última determinante, pois mesmo que nesta tivesse nível três, uma avaliação sumativa de nível dois a Língua Portuguesa seria suficiente para a sua não aprovação. O mais preocupante é que havia mais possibilidades de obter nível três à outra disciplina que à de Língua Portuguesa (pois nesta tinha tido nível dois nos dois primeiros períodos, e na outra tinha tido nível três no segundo período, apesar do nível dois no primeiro).
A encarregada de educação não aceitou bem a possibilidade da sua educanda não obter aprovação, dando um parecer pouco favorável a essa hipótese, embora fracamente fundamentada (qualquer coisa como que havia alunos piores que ela na turma... não era por acaso que se temia uma taxa de não aprovações na ordem dos 50%).

Na parte final da reunião com o diretor de turma, reunião que, apesar de tratar de um assunto melindroso, correu de uma forma muito cordial, a mãe da nossa aluna questionou o diretor de turma sobre as hipóteses de aprovação da aluna que tinha estado envolvida no conflito acontecido com a sua filha (episódio 4), não fazendo porém alusão ao incidente, referindo a aluna pelo seu nome próprio. Espantado e intrigado com a questão, o diretor de turma, no entanto, respondeu que estava numa situação similar ao da sua filha, não se sabendo ainda se iria obter aprovação, ou não.

 

História macabra - Episódio 6 (16/12/2003)

Na reunião de avaliação observou-se aquilo que era já esperado: cerca de metade dos alunos ficaram não aprovados (caso único na escola). De todos os casos de não aprovação, somente quatro deram lugar a uma maior discussão, pois eram casos de alunos que, caso tivessem menos um nível inferior a três, conseguiriam aprovação de final de ciclo. A nossa aluna era um desses casos, tal como previra o diretor de turma. Quando chegou a vez de atribuir as avaliações sumativas às várias disciplinas pelo conselho de turma, verificou-se que, segundo as propostas apresentadas, a aluna ficaria com três níveis inferiores a três, acumulando Língua Portuguesa e Matemática, o que resultava em não aprovação. Tendo em conta o sucedido na reunião com os encarregados de educação ocorrida no final do segundo período (e não só), a professora de Língua Portuguesa apresentou todos os dados referentes à avaliação da aluna na sua disciplina. O diretor de turma descobriu então que, no que se refere a avaliações escritas (vulgos testes), a aluna não tinha tido nenhuma positiva no segundo período, ao contrário do que tinha referido a sua mãe. Na realidade, nesse tipo de avaliação, tinha tido unicamente uma positiva no primeiro teste do ano letivo, e todos os restantes tinham sido negativos, e na maior parte deles, inequivocamente negativos. Para além disso, em todos os outros parâmetros da avaliação da aluna, a mesma era insuficiente; e na prova global obteve nível dois. Por outro lado, havia a questão do empenho. Neste aspeto, era opinião geral do conselho de turma que a aluna tinha capacidade para não ter qualquer nível inferior a três, e se o tinha era manifestamente devido à sua gritante falta de empenho. Aprová-la nestes moldes seria premiar a preguiça.

Confiante que tinha sido feita justiça no que concerne à avaliação da aluna, o diretor de turma ficou completamente confuso no que diz respeito a todos os acontecimentos ocorridos no final do segundo período, princípio do terceiro, com a aluna e a sua encarregada de educação.

Para terminar, a aluna que tinha estado envolvida na quezília ocorrida no terceiro período com a nossa aluna, e sobre quem a mãe da última pediu informações sobre as hipóteses de aprovação, foi aprovada.

 

História macabra - Episódio 7 (17/12/2003)

Após a afixação das avaliações finais do ano letivo, o diretor de turma convocou todos os encarregados de educação para uma reunião a realizar na escola. Na reunião, onde participaram grande parte dos encarregados de educação dos alunos, foram dadas as informações necessárias quer em relação às matrículas, que se avizinhavam, quer, mais importante, às informações relativamente à avaliação dos seus educandos. Em relação a esta, apenas uma encarregada de educação a colocou em causa, explicando ao diretor de turma o seu ponto de vista, e afirmando que iria pedir reapreciação da avaliação do aluno. Perante tal facto, o diretor de turma conduziu a encarregada de educação à secretaria da escola, dando-lhe informações sobre os procedimentos a efetuar, e colocando-se à disposição para ajudá-la no que considerasse necessário.

Durante o dia em que se efetuou a reunião, a mãe da nossa aluna telefonou para o telemóvel do diretor de turma, pedindo-lhe para falar com ele sobre a avaliação da aluna. Como era comum no diretor de turma, colocou-se à disposição da encarregada de educação, recebendo-a na escola pouco tempo após o contacto telefónico.

Nesse encontro, o diretor de turma explicou à encarregada de educação que o caso da sua filha foi um dos mais discutidos na reunião, mas que, perante o facto de apresentar três níveis inferiores a três, acumulando Língua Portuguesa e Matemática, níveis estes inequívocos (incluindo o de Língua Portuguesa onde, ao contrário do que a mãe da aluna pensava, a aluna não tinha tido qualquer avaliação positiva no segundo período; aliás, teve nível dois como avaliação sumativa em todos os períodos), aliado a um parco empenho, o conselho de turma decidiu pela não aprovação da aluna.

Aceitando bem o facto e as explicações do diretor de turma, a mãe da aluna perguntou-lhe se haveria alguma coisa mais a fazer, ao que o diretor de turma indicou os exames de equivalência à frequência como derradeira hipótese de obter aprovação. Informada sobre estes, e mostrando-se interessada, o diretor de turma conduziu a encarregada de educação à secretaria, onde a ajudou a preencher os impressos referentes aos exames. Em seguida, não havendo mais nada a tratar, a encarregada de educação ausentou-se da escola, agradecendo ao diretor de turma por tudo o que tinha feito pela sua educanda.

O diretor de turma, entristecido com a não aprovação da aluna e consequente desalento da sua mãe, pensou que provavelmente esta seria a última vez que iria conversar com a última. Nada mais errado pois, logo no dia seguinte, quando chegou à escola foi chamado ao Conselho Executivo, onde deparou com um pedido de reapreciação da avaliação da aluna.

Visivelmente consternado, não com o pedido efetuado, mas como foi feito, sem qualquer frontalidade ou honorabilidade, sabendo como que uma facada nas costas, o diretor de turma leu o mesmo documento, o que o revoltou ainda mais. De facto, nesse documento, para além de colocar em causa o profissionalismo da professora da disciplina de Língua Portuguesa, apresentava argumentos contrários à avaliação sumativa da aluna nesta disciplina do género: “a aluna teve testes mais ou menos” e “a aluna esforçou-se no terceiro período”; argumentos estes considerados pelo diretor de turma, no mínimo, disparatados e falsos, e que demonstravam que da conversa ocorrida com a mãe da aluna o dia anterior, a mesma não tinha ouvido rigorosamente nada do que o diretor de turma lhe tinha dito.

 

História macabra - Episódio 8 (20/12/2003)

Na reunião de reapreciação da avaliação de final de ano da nossa aluna, a revolta e espanto do diretor de turma estendeu-se ao conselho de turma. Não pelo pedido em si, mas pelos moldes em que foi feito, e pela falta de qualidade do mesmo, miseravelmente argumentado, calunioso, e até disparatado (ao ponto da turma da aluna estar errada). Apesar deste último erro, de carácter formal, ser suficiente para a não realização da dita reunião, o conselho de turma optou por um caminho mais sensato, apreciando, refletindo e comentando os argumentos apresentados pela encarregada de educação. Tendo em conta a fragilidade da argumentação, bem como algumas falsidades aí incluídas, o conselho de turma optou pela manutenção da avaliação da aluna decidida na reunião de final de ano, contrariando todos os argumentos apresentados pela mãe da aluna.

O Conselho Pedagógico, após apreciar o processo de reapreciação, concordou com o conselho de turma e, consequentemente, a aluna manteve a não aprovação, decisão que foi transmitida à encarregada de educação, incluindo os documentos referentes ao processo de reapreciação.

Poucos dias após estes acontecimentos efetuaram-se as matrículas. Para efetuar as matrículas da turma da nossa aluna foram indigitados o diretor de turma e um outro professor da turma. Sendo a turma muito grande, e comparecendo muitos alunos e encarregados de educação na abertura das ditas matrículas, os dois professores não tinham mãos a medir... Para além disso, outras questões extremamente importantes tinham que ser resolvidas pelo diretor de turma, o que fazia com que este por vezes tivesse que se ausentar da sala onde decorria o processo de matrículas, andando a correr pela escola fora como um misto de uma barata tonta e do coelho da Alice no País das Maravilhas... No meio deste corre-corre, o diretor de turma foi à sala das matrículas, na procura de uma pessoa. Chegou à porta da sala e observou a mãe da nossa aluna a falar com o outro professor com um modos extremamente mal-educados, ao ponto do outro professor quase não responder, tal era o seu choque. Quando a mãe da nossa aluna viu o diretor de turma, automaticamente calou-se. Como a pessoa que o diretor de turma procurava não estava na sala, este deu meia volta e continuou a sua procura. Poucos minutos depois, quando o diretor de turma tinha já terminado de tratar a quase totalidade dos outros assuntos, podendo dedicar-se inteiramente ao processo de matrículas, no caminho para a sala onde estas se realizavam, apareceu a mãe da nossa aluna, novamente com maus modos, a dizer que tinha de ir trabalhar, logo, estava com pressa. O diretor de turma terminou rapidamente a conversa respondendo-lhe que estava ali desde as 8:30 da manhã e ainda não tinha parado. Já na sala, e tendo em conta que a senhora não era a primeira dos que estavam à espera, o diretor de turma perguntou aos que estavam à frente da mãe da nossa aluna se não se importavam de que ela fosse atendida primeiro, visto estar com pressa, demonstrando à mãe da nossa aluna que há formas de vivência em sociedade que devem ser respeitadas. Deve-se acrescentar ainda que a nossa aluna, também presente na sala, não conseguiu olhar nos olhos do diretor de turma, só lhe dirigindo a palavra quando este a cumprimentou.

Mais tarde, quando já ninguém estava na sala, o diretor de turma e o outro professor comentaram o incidente, ficando o diretor de turma a saber que, quando a mãe da nossa aluna chegou à sala, se pôs a perguntar onde estava o diretor de turma, pois queria falar com ele sobre a avaliação da aluna, etc., coisa que, de facto, não fez.

Neste dia houve unicamente mais um acontecimento a registar, mas sem importância para a nossa história. A outra encarregada de educação que ponderou pedir reapreciação da avaliação do seu educando, não o fazendo entretanto, teceu comentários sobre a injustiça dessa avaliação, colocando em causa um professor do conselho de turma, extremamente empenhado e profissional, o que, tendo em conta os acontecimentos anteriores, enfureceu o diretor de turma que, sabendo que o dito professor estava na escola, perguntou à encarregada de educação se não preferiria falar diretamente com o mesmo, ao que esta se negou e a conversa ficou por aí.

 

História macabra - Episódio 9 (04/01/2004)

No final do mês de Julho, o diretor de turma dirigiu-se ao Conselho Executivo, onde ficou a saber, através do presidente do mesmo, que a direção regional de educação tinha contactado a escola, informando que a mãe da nossa aluna tinha recorrido da decisão para aquele órgão. Tendo em conta que, em termos legais, só se poderá recorrer da decisão do conselho de turma caso tenha havido vício no processo, o diretor de turma e o presidente do conselho executivo estavam descansados, pois todo o processo tinha decorrido de forma meticulosa e rigorosa.

Mais tarde, o diretor de turma veio a saber que, após conhecer o resultado da reapreciação da avaliação da sua educanda, a encarregada de educação se dirigiu à escola, exigindo visualizar atas e afins. Até aqui tudo perfeitamente normal, no entanto, quando se retirava da escola, e verificando que a professora de Língua Portuguesa tinha saído da mesma poucos metros atrás de si, começou a falar muito alto, dizendo que alguém ia pagar por tudo o que se estava a passar, criando um espetáculo deprimente, altamente reprovável, que só terminou quando entrou no seu automóvel, sensivelmente ao mesmo tempo que a professora entrou no seu.

 

História macabra - Episódio 10 (07/01/2004)

Muito tempo depois, estava já o diretor de turma colocado numa outra escola, sensivelmente a vinte e cinco quilómetros da anterior, o conselho executivo da escola contactou-o, com o propósito de marcar uma nova reunião do conselho de turma, de acordo com ordens da Direção Regional de Educação. Visivelmente revoltado, o presidente do conselho executivo da escola explicou todo o processo que decorrera desde os últimos dias do mês de Julho até aos primeiros do mês de Agosto, cerca de seis semanas, entregando-lhe, igualmente, o ofício enviado para a escola pela D.R.E..

O diretor de turma ficou a saber que durante todo aquele período de tempo a direção regional pediu diversas atas de conselho de turma, atas do conselho pedagógico, documentos da aluna referentes à sua avaliação especializada e avaliações sumativas ao longo do seu percurso escolar, tendo sido, inclusivamente, enviado para a direção regional um relatório da professora da disciplina visada, com todas as informações, até ao mais ínfimo pormenor, sobre as avaliações sumativas da aluna nos três períodos, relatório que demonstrava inequivocamente a justeza da avaliação efetuada.

O mais estranho em todo este processo era o ofício enviado para a escola pela direção regional. De facto, impunha a realização de uma nova reunião para reapreciação da avaliação da aluna, na disciplina de Língua Portuguesa, apresentando argumentos para esse facto. Um dos argumentos era a falta de alguns documentos, documentos esses que estavam todos na sua posse, daí o diretor de turma não entender tal alegação. No entanto, o presidente do conselho executivo, que tinha discutido o caso na direção regional de educação, disse que tal afirmação talvez se devesse ao facto de, segundo eles, na ata da reunião de conselho pedagógico onde tinha sido analisado o processo de avaliação especializada da aluna e onde estava escrito que o mesmo havia sido analisado, deveriam estar discriminados todos os documentos que faziam parte desse processo. O diretor de turma considerou tal alegação completamente ridícula, pois esses documentos estão definidos por lei, logo quando se fala de tal processo, qualquer professor minimamente informado conhece os documentos a ele pertencentes. Para além deste argumento, apresentavam falhas ao nível pedagógico, não referindo quais. Este facto deixou o diretor de turma completamente consternado e revoltado, pois não reconhecia à direção regional, ou aos seus elementos, autoridade nesse campo, pois ele tinha a perfeita noção de que quem está nesses cargos, não está, manifestamente, por mérito profissional ou académico (não generalizando, obviamente)... pois são cargos de escolha política ou pessoal, não havendo, atualmente, concursos para tais lugares.

Todo este processo levou a que o diretor de turma, de acordo com todos os outros conhecedores dos factos, acreditasse que houvesse aqui qualquer tipo de influência com o objetivo da aluna terminar aprovada, facto que não passava de mera suspeita, só fundamentada no facto de o processo ser tão pouco límpido e tão tendencioso.

Em tudo isto, o que mais revoltou o diretor de turma foi a direção regional ter tomado, inequivocamente, um partido neste processo, funcionando como uma espécie de juiz com poder de decisão e advogado de uma das partes, simultaneamente, o que contrariava, violentamente, os princípios democráticos de um estado de direito.

 

História macabra - Episódio 11 (09/01/2004)

Na primeira semana de Setembro, já colocado noutra escola, o diretor de turma dirigiu-se à sua anterior escola para presidir a nova reunião de reapreciação da avaliação da aluna. Felizmente, a maior parte do conselho de turma mantinha-se na escola, o que fez com que só dois membros desse conselho não participassem na reunião (de acordo com ordens da direção regional).

Quando o diretor de turma e presidente do conselho executivo apresentaram os factos aos restantes professores, uma onda de indignação varreu aquele espaço. Não em relação à aluna, pois esta era uma espécie de vítima em todo este processo (independentemente de ter agido bem ou mal no mesmo); nem em relação à encarregada de educação, pois pessoas como ela, que agem de forma pouco ética, estão espalhadas pelo mundo (felizmente a maior parte dos encarregados de educação não têm comportamentos semelhantes, muito pelo contrário, os que têm algo a dizer ou agir, fazem-no de forma frontal e honrosa); mas sim em relação à direção regional de educação, que agira de uma forma tão parcial, pouco profissional e desastrosa.

Após o primeiro impacto, a ideia que surgiu em todas aquelas cabeças, e de forma independente, foi a mesma que o diretor de turma e o presidente do conselho executivo já partilhavam: algo pouco límpido se passava aqui, parecia haver qualquer influência de forma a obter determinado resultado.

Com esta ideia em mente, alguns professores começaram por afirmar nada haver a fazer, que a aluna iria obter aprovação independentemente do que se passasse nesta reunião, logo, mais valia decidir pela aprovação da mesma. No entanto, à maior parte dos professores esta ideia repugnou-os, acreditando que, se tal fosse mesmo verdade, não ficariam bem consigo mesmo, preferindo desiludir-se com o país e a direção regional, do que com eles próprios.

Para o diretor de turma esta história representava aquelas de que ouvia falar, de cunhas e afins, em que dificilmente acreditava, mas agora vivia-a pessoalmente, com um grau de participação elevadíssimo.

Depois de várias horas a discutir o processo, bem como a mostrar a sua indignação (como se tudo fosse uma daquelas histórias que se ouvem, em que não conseguimos calar a nossa indignação e repulsa, indignação esta que volta de tempo a tempo sempre que a história nos surge no pensamento), o conselho de turma optou por manter a avaliação da aluna, pois não havia argumentos para não o fazer, construindo um documento onde toda a argumentação da direção regional era facilmente rebatida, visto essa mesma argumentação ser muito mal fundamentada, muito fraca mesmo. Os professores, depois de realizarem o documento, ficaram insatisfeitos. Isto porque consideravam o documento pouco poderoso em relação à forte indignação que sentiam. No entanto, dificilmente poderia ser mais forte, tendo em conta a inconsistência e a fragilidade da argumentação da direção regional. De facto, a vontade do conselho de turma era, de algum modo, criticar a postura da direção regional e não se limitar a contestar a argumentação apresentada. Na realidade, tendo em conta a indignação sentida, de quem durante um ano letivo inteiro dá o seu melhor, avalia da forma que considera mais correta e mais rigorosa, que tudo faz para ser o mais profissional possível, e vê agora uma qualquer instituição procurar uma forma de contrariar o seu trabalho, não detetando falhas óbvias e visíveis, mas sim procurando falhas no acessório, no pormenor mais insignificante; a vontade deste conselho de turma era “desancar” a direção regional, apontando-lhe as falhas no seu procedimento, algo que era extremamente simples face às evidências. Mas, pelo contrário, preferiram, não o confronto, mas sim a postura profissional, fazendo o que lhes competia, ficando de consciência tranquila.

No que se refere ao diretor de turma, o que mais o chocava era a possibilidade da aluna conseguir a aprovação, não porque assim o merecesse, pois nunca a direção regional colocou em causa a sua avaliação, em qualquer das disciplinas, mas sim por um qualquer erro formal que só eles detetavam e consideravam como tal. Pois se houvesse um erro grosseiro no processo de avaliação, o diretor de turma compreenderia se a aluna fosse aprovada, sobretudo se tal erro a tivesse prejudicado, mas neste caso fazê-lo era quase criminoso. Mesmo que em termos legais houvesse razões para a sua aprovação, no que se refere à moralidade e ética, tal ato era totalmente imoral. E tudo isto num tempo em que se fala da necessidade de rigor na avaliação, argumentando-se que os alunos chegam ao secundário mal preparados. Seria o cúmulo da falta de vergonha.

Resumindo, o conselho de turma fez o que lhe competia, manteve a sua dignidade e profissionalismo, enviando a bola para o lado da direção regional, esperando novidades.

 

História macabra - Episódio 12 (13/01/2004)

Enquanto todos esperavam o desfecho de toda esta história, sucedeu somente uma situação de realce. Antes do início das aulas, a encarregada de educação da nossa aluna procedeu à transferência da mesma, para outra escola. Por coincidência, para a escola onde estava colocado o diretor de turma. Este, quando a viu, ficou surpreendido, pois não compreendeu o porquê da sua transferência para aquela escola. Isto porque havia três escolas com o nono ano, mais próximas da sua residência, sendo que a que mais longe ficava de sua casa dessas três, ficava a menos de metade da distância em relação à escola para a qual foi. Para além disso, duas dessas escolas ficavam no seu concelho, o que não acontecia com a escola onde estava o diretor de turma. E, por outro lado, uma dessas escolas era conhecida pelo seu bom ambiente, logo convidativa. A única diferença relativamente à escola onde estava colocado o diretor de turma, era que esta era a única que tinha ensino secundário, portanto, parecia ser a única razão da sua escolha, o que, no entanto, não passava de mera suposição.

A nossa aluna, quando viu o diretor de turma na sua nova escola, ficou visivelmente surpreendida, disfarçando, fazendo de conta que o não tinha visto. Na realidade, este comportamento foi sempre repetido, até ao desfecho de todo o processo.

O diretor de turma não criticava este comportamento da parte da aluna, pois a aluna devia pensar que ele não estaria ciente de todo o processo que decorria, visto estar noutra escola; e, havia a possibilidade, quase certeza, que, quando o diretor de turma a cumprimentasse, lhe perguntasse o porquê dali estar, e ela não estaria propriamente confortável ao falar sobre este assunto.

E assim passaram as primeiras duas/três semanas de aulas, altura em que se conheceu o desfecho deste processo.

 

História macabra - Episódio 13 (15/01/2004)

No dia dois de Outubro, uma quinta-feira, o diretor de turma entrou na escola, quando ouviu uma voz chamá-lo: era a nossa aluna. Num primeiro momento, o diretor de turma ficou surpreendido e satisfeito de, por fim, a aluna se ter dirigido a ele, visto eles sempre se terem dado muito bem, mas, num segundo momento, a razão pela qual a aluna o chamou já não foi tão agradável para si. A aluna, que se fazia acompanhar de duas colegas que continuaram a andar enquanto o diretor de turma e a sua antiga aluna conversavam, parando à espera da sua colega a cerca de vinte metros desta e do seu professor, aproximou-se do professor, visivelmente satisfeita, cumprimentando-o, e mostrando-lhe os livros do décimo ano. O choque tomou conta do diretor de turma. Respirando fundo, o diretor de turma perguntou à aluna o que se tinha passado. Esta respondeu-lhe que a direção regional lhe tinha dado razão, corrigindo a injustiça que a professora de Língua Portuguesa lhe tinha feito. Tendo a perfeita noção que tal injustiça era totalmente falsa, pois ele era conhecedor dos factos, ouvir tal disparate, de alguma forma, incomodou ainda mais o diretor de turma. No entanto, este manteve a calma, pois verificou que a aluna não sabia do seu envolvimento no caso, e que estava única e exclusivamente a dar uma boa nova a um professor com quem tinha um bom relacionamento. Sendo assim, o diretor de turma disse-lhe que estava dentro de todo o processo (o que a surpreendeu), que sabia que não havia qualquer injustiça na sua avaliação e, que por muito que gostasse dela, como de resto o faz com qualquer um dos seus alunos (ou antigos), lhe tinha de dizer que em todo este processo parecia haver qualquer irregularidade, mais precisamente alguma “cunha”; não o podia provar, obviamente, mas suspeitava fortemente de tal possibilidade. A aluna ficou um pouco magoada com estas palavras, dizendo que se o professor realmente gostasse dela nunca diria tal coisa. O diretor de turma contrapôs que ela sabia perfeitamente que tal carinho era verdadeiro, e que sendo ele sincero com as pessoas, ainda mais com as que tem algum relacionamento, teria de lhe dizer aquilo que realmente pensava.

Estando a aluna com pressa, ambos concordaram que ainda tinham muito a falar sobre o assunto, combinando conversar noutro dia. Convém ainda afirmar que, apesar do assunto ser extremamente delicado, a conversa foi mantida num tom calmo e respeitador por ambos os intervenientes.

 

História macabra - Episódio 14 (20/01/2001)

Após o conhecimento da decisão da direção regional, a ideia do diretor de turma, revoltado com todo o processo, era delatar toda esta situação para os órgãos de comunicação, mais precisamente, os jornais. Felizmente resolveu primeiro contactar a escola anterior, para saber pormenores do desfecho do processo. Deste modo, permitiu-lhe acalmar a sua revolta, e não partir contra os moinhos, correndo o risco de ser o único prejudicado de toda esta história, sofrendo possíveis retaliações, devido a tal feito. A verdade é que o nosso diretor de turma já tinha observado inúmeras situações em que um grupo de pessoas se insurge contra algo, um deles fá-lo abertamente e, depois, sofre sozinho as consequências de tal feito, visto os outros se demarcarem da sua posição. Tendo em conta esta experiência, resolveu inicialmente contactar o conselho executivo da sua escola anterior. No entanto, nos momentos em que o pôde fazer, nessa quinta à tarde, e na sexta seguinte, não conseguiu contactar ninguém. Este facto revelou-se positivo, pois permitiu ao diretor de turma ter um fim-de-semana para refletir sobre todos os acontecimentos de uma forma mais profunda.

Na segunda-feira, telefonando para a sua anterior escola, veio saber através de um dos vice-presidentes do conselho executivo, que estava, obviamente, ao corrente da situação, pormenores ainda mais chocantes sobre o desfecho do processo. Assim, descobriu que a escola soube da decisão da direção regional através da mãe da aluna e, inclusivamente, alunos desta escola e de outra da cidade, já sabiam da decisão, ainda antes da mesma ser comunicada à escola interessada. Além deste pormenor escabroso e extremamente significativo, ficou a conhecer também o conteúdo da decisão da direção regional. Nesta, a direção regional modificava a avaliação sumativa da aluna à disciplina de Língua Portuguesa, tendo por base o não cumprimento dos pressupostos do ponto 47 do Despacho Normativo n.º 30/2001 e do ponto 58 do Despacho Normativo n.º 98-A/92.

O primeiro diz: «47 - O professor titular, no 1.º ciclo, em articulação com o competente conselho de docentes, ou o conselho de turma, nos 2.º e 3.º ciclos, procede, no prazo de cinco dias úteis após a receção do pedido de reapreciação, à análise do mesmo, com base em todos os documentos relevantes para o efeito, e toma uma decisão que pode confirmar ou modificar a avaliação inicial.»; e o segundo: «58 - A proposta decorrente da avaliação referida no número anterior está sujeita a ratificação pelo conselho pedagógico, com base em relatório que inclua: a) O processo individual do aluno; b) Relatório contendo os pareceres decorrentes do disposto no n.° 3; c) A referência aos apoios e complementos educativos aplicados; d) Relatório dos contactos estabelecidos com os encarregados de educação que integre o parecer destes sobre a proposta de manutenção do aluno no mesmo ano; e) O parecer dos serviços de psicologia e orientação, quando existam na escola; f) O plano de apoio educativo específico, a ser executado no ano letivo seguinte.».

Em relação ao primeiro, nem o diretor de turma, nem ninguém, compreendeu o porquê de tal alegação, pois tudo foi feito consoante o que o artigo determina e, na realidade, a direção regional, nesse ofício, não especificava de que forma esse artigo foi desrespeitado.

Em relação ao segundo, que também carecia da razão pelo qual não foi cumprido, a única hipótese era aquela já anteriormente avançada, que dizia que na ata de Conselho Pedagógico onde a avaliação especializada da aluna tinha sido analisada, os documentos listados na lei deveriam estar discriminados, não bastando referir que o dito processo tinha sido analisado.

Resumindo, haveria, quanto muito, um erro processual duvidoso. O que mais chocava era que este era invocado para modificar uma avaliação de uma disciplina que nada tinha a ver com o mesmo. De facto, em todo o documento, nunca a avaliação desta disciplina foi posta em causa, mas, no entanto, a mesma foi modificada. O diretor de turma duvidava que tal fosse legal mas, esquecendo a questão legal, no que diz respeito à moralidade nem há palavras que descrevam tal ato. Mas no que concerne à legalidade, como é possível modificar uma avaliação com base em erros processuais que em nada diziam respeito a essa disciplina. Porque é que não foram modificadas as avaliações das outras duas disciplinas em que a aluna obteve níveis inferiores a três?

O diretor de turma sentia que algo deveria ser feito. Não em relação à aluna, pois esta era a maior vítima da história, quer devido aos ensinamentos imorais que a mãe lhe transmitiu, quer devido ao facto de ir para o ensino secundário sem estar devidamente preparada para tal, mas em relação à direção regional, que brincou com o profissionalismo e empenho de todos os professores envolvidos no processo, senão com o de todos os professores deste país.

No entanto, o diretor de turma só agiria de forma concertada com os restantes interessados no processo. Deste modo, partilhou algumas ideias do que se poderia fazer com o membro do executivo com quem falou, e ficou à espera de novidades, colocando-se à disposição para qualquer coisa que fosse necessária realizar.

 

História macabra - Episódio 15 (22/01/2004)

Em relação à encarregada de educação da nossa aluna só houve um ato final a registar. Na segunda-feira após o diretor de turma ter conversado com a nossa aluna, o diretor de turma foi convocado a comparecer no Conselho Executivo da sua escola. Suspeitando que o assunto estivesse relacionado com todo este processo, nunca o diretor de turma pensou que poderia ser aquilo que veio a ouvir. Assim, o diretor de turma soube, por parte do Conselho Executivo, que a mãe da nossa aluna tinha ido à escola, apresentando-se extremamente consternada, afirmando que o diretor de turma tinha molestado a sua filha, e que esta tinha medo de ir para a escola, pois receava encontrar o diretor de turma. Para além disso tinha testemunhas de tal facto. Quando ouviu tal monstruosidade, o diretor de turma dificilmente conseguiu disfarçar a sua revolta e o seu choque. Deste modo, contou ao Conselho Executivo o teor da sua conversa com a aluna, explicou minimamente os acontecimentos passados, e afirmou não estar tão chocado quanto isso com tal atitude da mãe da aluna, pois a mesma já lhe tinha “espetado” uma vez uma faca nas costas, e esta era só a segunda (mas mais grave!). Em relação às testemunhas só poderiam ser as miúdas que estavam ao longe à espera da nossa aluna enquanto esta conversava com o seu antigo professor, e elas não ouviram coisa alguma, somente observaram duas pessoas a conversar calmamente sobre um assunto melindroso.

O Conselho Executivo apenas afirmou que o que se tinha passado antes entre o diretor de turma e a nossa aluna não tinha nada a ver com eles, que todo o que se passou com a aluna antes não lhes dizia respeito, e que só queriam que este acontecimento ficasse sanado. Neste sentido, o diretor de turma disse que queria conversar com a encarregada de educação, pois esta não poderia ir ao seu local de trabalho lançar suspeitas gravíssimas sobre ele, e depois ir embora como se nada fosse. Se ela tivesse um mínimo de honorabilidade e frontalidade ter-se-ia dirigido primeiro a ele, e não teria ido fazer “queixinhas” ao órgão executivo da escola. O Conselho Executivo disse que o que tinha ficado combinado era que a mãe da aluna iria naquela semana contactar a escola com esse propósito.

Após ter saído do Conselho Executivo, o diretor de turma teve mais tempo para pensar todo este episódio. Primeiro lembrou-se que a mãe da aluna tinha o seu contacto telefónico, logo, se o quisesse contactar já o poderia ter feito. Com este pensamento em mente, o diretor de turma suspeitava que a mãe da aluna não mais iria à escola, não estando interessada em tal facto, pois um encontro com o diretor de turma iria ser demasiado desagradável para ela, pois ele teria muito a dizer-lhe e a questionar.

Tal como o esperado, as suspeitas do diretor de turma concretizaram-se. A mãe da aluna não mais deu sinal de vida, tudo não tinha passado de uma tentativa de assustar o diretor de turma, o que é triste.

Em relação à nossa aluna, esta nunca mais dirigiu a palavra ao seu antigo professor, disfarçando sempre que o vê. Tal facto, no entanto, não desagrada ao diretor de turma. Sabe-se lá de que é que a mãe da aluna o iria acusar de seguida...

 

História macabra - Último Episódio (27/01/2004)

Até aos dias de hoje pouco há a registar. Apesar do esforço por parte do Conselho Executivo e da professora no sentido de fazer algo, tal só agora irá acontecer. Na realidade, numa das vezes que o diretor de turma foi visitar a sua anterior escola encontrou a professora de Língua Portuguesa. Conversando com ela sobre o assunto, veio a saber que a ideia original era construir um documento para posteriormente enviar para alguns órgãos de comunicação social e para o Ministério da Educação. Para tal, foi sugerido pelo Conselho Executivo, à professora, colocar a situação perante o Departamento de Língua Portuguesa, para este formular um documento e enviá-lo para o Conselho Pedagógico. Todos os professores interessados poderiam, posteriormente, assinar o referido documento para, por fim, ser enviado para quem de direito. No entanto, quando a professora colocou a situação aos restantes professores do seu departamento, estes agiram como se nada tivessem a ver com o caso, dando-lhe pouca importância. Para além disso, sentiu também que, no geral, quando na escola referia o assunto, parecia que ela se estava pura e simplesmente a defender neste processo, o que não era verdade, o que lhe criou um certo mal-estar, preferindo não mais referir o caso. A realidade é que, uma significativa parte dos professores da escola não estavam interessados nas ocorrências insultuosas para a sua profissão, quer por medo de represálias, quer, mais grave, por simples indiferença. Perante tal situação, a professora ponderou escrever para a comunicação social mas, sentiu que, fazendo-o sozinha, iria parecer um simples ataque pessoal à mãe da aluna, o que não era verdade, pois o único problema aqui não era essa senhora, mas sim a Direção Regional de Educação.

Felizmente, o Conselho Executivo da escola não deixou cair o caso havendo já um documento a ser preparado para o efeito atrás referido. Neste constará, igualmente, a avaliação sumativa do primeiro período da aluna no décimo ano que, como seria de esperar, foi medíocre nas disciplinas relacionadas com a disciplina de Língua Português, à exceção de uma dessas disciplinas onde conseguiu um dez (Introdução à Filosofia). Para além desta positiva conseguiu somente mais duas, nada significativas: 10 a Educação Física e a Métodos Quantitativos.

 

História macabra - Comentário final (29/01/2004)

Terminado o relato de todo este processo, sinto que alguns comentários devem ser proferidos. Tentei que o relato fosse o mais realista possível, tal como me transmitiram, deixando os comentários para um texto posterior, da minha única e exclusiva responsabilidade. Infelizmente, nada deste texto é falso ou pura ficção. Tudo se passou tal como é relatado, tendo o diretor de turma e eu optado por colocar ao conhecimento público só os factos imprescindíveis para a total compreensão do processo.

Olhando o processo, considero importante realizar os seguintes reparos. Partindo do pressuposto, correto e óbvio, de que a avaliação da aluna foi justa e desprovida de qualquer tipo de irregularidade formal evidente que justificasse o desfecho do processo, restam-nos duas hipóteses: ou houve alguma influência pessoal com o propósito de aprovar a aluna, ou a direção regional de educação decidiu desta forma, considerando a mesma estar correta.

É difícil decidir qual dos casos é pior. Depois de muito refletir, estou a pender para o segundo. Isto porque, no caso do primeiro, estamos perante uma situação conjuntural, isto é, se alguém forçou a aprovação da aluna, esse alguém terá agido desse modo especificamente neste caso, podendo não haver futuros casos. A segunda hipótese está ligada ao funcionamento de uma instituição crucial à boa resolução destes casos, e se este processo for exemplo, estamos perante algo extremamente preocupante. Mas prefiro estender-me mais em cada um dos casos.

Quando toda esta história me foi contada, admito que, inicialmente, acreditava ter havido alguma “cunha” no sentido da aluna ser aprovada. Havia muitos indícios neste sentido. Por um lado, a mãe da aluna em questão demonstrava claramente não ter qualquer sentido ético e moral a este nível, não tendo qualquer problema em usar um esquema deste género para a sua filha ser aprovada. De facto, o diretor de turma sabe de pelo menos uma pessoa que foi contactada pela mãe da aluna no sentido de interferir a favor da última. Felizmente, essa pessoa tem uma boa ética profissional e pessoal, negando tal pretensão. É óbvio que quem demonstra um comportamento deste tipo, devê-lo-á ter reproduzido com outros intervenientes neste processo. Mas, na realidade, a mãe da nossa aluna não tem a obrigação de não agir deste modo (se esquecermos a questão moral), quem está numa posição de decisão, como é o caso dos elementos da direção regional, é que têm de negar este tipo de comportamento. Assim, se de facto houve qualquer tipo de influência num sentido, quem deveria pagar por tal facto não seria a mãe da aluna, nem a aluna.

Outras das razões que apontavam para a hipótese de uma “cunha”, era todo o obscurantismo presente no processo. Foi tudo menos límpido: documentos pedidos mais do que uma vez, e a sua falta a ser justificação para a realização de uma nova reunião, quando tinham os documentos na sua posse; a aluna mudou para uma escola longe da sua área de residência, mas que era a mais próxima com o nono ano e secundário; nunca a direção regional contactou ou interpelou os membros do conselho de turma; a mãe da aluna soube da decisão da direção regional antes do conselho executivo da escola; os longos períodos de tempo entre cada passo dado pela direção regional; e, por fim, o mais grave, a mudança da avaliação da aluna numa disciplina, sem qualquer justificação específica.

A verdade é que todas estas razões indicam, claramente, que a primeira hipótese é a mais forte, e não a descarto, mas acredito mais na segunda hipótese. Passo a explicar porquê. Discutindo com muitas pessoas este assunto, vim a saber uma “espantosa” particularidade sobre o funcionamento desta direção regional de educação: que quando encarregados de educação vão às escolas pedir algo para melhorar o ambiente de trabalho dos seus educandos, e tal depende da direção regional, os conselhos executivos optam por enviar os encarregados de educação diretamente à direção regional pois, se for a escola a pedir, tal pedido é indeferido mas, se forem os encarregados de educação a fazê-lo, o êxito é imediato. Partindo deste pressuposto, torna-se óbvio que o recurso hierárquico, sobre a avaliação da aluna, apresentado nesta direção regional, tinha grandes hipóteses de um desfecho favorável à aluna. E, realmente, o comportamento da direção regional foi digno deste pressuposto, senão vejamos: tomou claramente um partido nesta questão, procurando até à exaustão um qualquer erro formal, que pudesse servir de argumento para o desfecho observado (não havendo qualquer erro óbvio, tentou criar alguns extremamente duvidosos, quase ridículos); nunca houve qualquer diálogo com o conselho de turma; nunca pôs em causa a avaliação de Língua Portuguesa mas, no fim, modificou-a; o documento onde consta a sua decisão carece de argumentação, é uma espécie de mandamento divino; e, o facto que demonstra mais claramente a parcialidade da direção regional foi ter informado primeiramente a encarregada de educação e muito depois a escola, fazendo com que a última soubesse a decisão por intermédio da encarregada de educação e de alunos de outra escola do concelho!

Partindo do princípio que a segunda hipótese é a correta, estamos perante um precedente simplesmente horripilante. Teremos de nos preparar para centenas de recursos completamente descabidos, pois estes funcionam. E o mais grave é que estes irão desacreditar muitos possíveis recursos com razão de ser, através de generalização, a qual é comum da nossa sociedade.

Muito mais haveria a escrever sobre este caso, mas termino lançando um apelo. Divulguem este caso, diz respeito a todos os docentes, e a todos aqueles que acreditam no melhoramento da sociedade neste país. Pois pode ser que, deste modo, os responsáveis pelo desfecho deste processo sintam alguma vergonha, ponham a mão na consciência e decidam, ou mudar de conduta, ou deixar os cargos que ocupam. Sinceramente, não sei até que ponto os responsáveis não deveriam ser responsabilizados politicamente, profissionalmente e, quiçá, legalmente.

 

André Pacheco

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por ap7 às 14:54

Domingo, 15.07.12

A continuação de um projeto

Quando em 26/06/2003 criei o EducaPortugal, pretendia que o mesmo fosse um espaço onde fosse possível discutir Educação e Pedagoia de forma livre e séria (algo que nas escolas, estranhamente, era difícil). Na altura tive a oportunidade, graças a este espaço, de conhecer professores fabulosos, alguns que tinham criado, juntamente comigo, os primeiros blogues dedicados à Educação. Posso falar do Miguel, do Manuel, do João, entre outros... mais tarde surgiram, felizmente, outros, demonstrando haver muitos professores que sabem pensar e discutir Educação. Neste momento a oferta é muita, obrigando a uma pesquisa morosa para encontrar os melhores, aqueles onde ainda se escreve de um modo sério, fundamentado e elevado sem as alarvidades presentes em espaços mais mediáticos que envergonham a classe docente.

Depois da viagem deste espaço da blogger para a weblog (ainda em 2003), o fim desta obrigou-me a mudar de casa novamente, para o sapo. Deste modo, começarei a mudança com posts antigos, devidamente datados, ao mesmo tempo que tentarei enquadrá-los devidamente.

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por ap7 às 14:11


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Desde 26/06/2003

Desde então que este espaço tenta ser um local onde a Educação possa ser discutida de um modo livre, com argumentação que ultrapasse o mero senso comum e com respeito pela diferença de opiniões.

Com o fim da weblog os textos antigos serão transportados para este novo espaço, com as repetivas referências temporais. Muita pena tenho por alguns comentários que enriqueciam os textos não poderem ser recuperados.