Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

educaportugal

Deixo agora o segundo texto dedicado à (suposta) perda de autoridade do professor.

 

A perda de autoridade II

De acordo com o texto anterior, irei refletir sobre cada uma das razões apontadas no mesmo para ser, hoje em dia, mais difícil exercer a autoridade do professor. Neste texto irei refletir sobre a dificuldade, e por vezes renúncia, de muitos professores desempenharem o seu papel como educadores.

Muitos poderão acusar-me de, ao apontar esta razão, estar a desresponsabilizar outros responsáveis, porventura maiores. No entanto, independentemente de existirem outros responsáveis, os professores não se poderão desresponsabilizar da parte que lhes compete. Porém, terei que sair em defesa da maior parte dos professores, pois não é difícil verificar que eles não são, individualmente, um dos fatores cruciais nesta problemática, bastando para isso observar que os mesmos professores têm dificuldade em exercer a sua autoridade numa escola e noutra não e, mesmo na mesma escola, poderá ocorrer a mesma situação em turmas diferentes (sem negar que também há aqueles que têm sempre problemas disciplinares graves, independentemente da escola ou turmas, mas tais professores sempre existiram). Para além disso, muitas das deficiências dos professores, no que à capacidade para exercer autoridade diz respeito, é resultado de uma formação inicial muito pobre. Ou seja, neste ponto, os professores surgem mais como vítimas, considerados individualmente, mas o mesmo não se poderá dizer quando considerados como uma equipa a trabalhar na mesma escola. Por outro lado, há um conjunto de professores que consideram que o seu papel nada tem a ver com educação, mas simplesmente com instrução. Recusando-se a reconhecer uma necessidade óbvia, complicam a vida de todos os profissionais que tentam corrigir algumas das atitudes erradas dos seus alunos. Mas vamos lá tentar colocar alguma ordem em todas estas ideias, dando-lhes alguma consistência.

Comecemos pelo início. Este é, sem dúvida, a formação inicial, aquele momento em que se prepara um profissional da educação, onde um indivíduo é, teoricamente, preparado para ser professor. Na formação de um professor há duas áreas principais a ter em conta: a científica, obviamente, e a pedagógica. Esta frase está construída, propositadamente, para ser uma pequena provocação... para mim, a frase terminaria, simplesmente, com a expressão “científica e pedagógica”. No entanto, enquanto a vertente científica não é colocada em causa (exceptuando porventura alguns fundamentalistas da pedagogia que, apesar de não terem a mesma visibilidade dos detratores da pedagogia, também existem), a vertente pedagógica é muitas vezes colocada em causa, tanto por aqueles que, pura e simplesmente, acham tal vertente de formação desnecessária, até aos que, admitindo como necessária, depois colocam-na totalmente em causa com discursos onde tudo é “eduquês” ou as célebres “novas pedagogias”, e afins. Mas, assumindo que a importância da vertente científica é aceite por praticamente todos, vamos reflectir um pouco sobre a necessidade da vertente pedagógica, com o objectivo final de relacionar a preparação pedagógica com a questão disciplinar.

No entanto, sendo a questão disciplinar das pedagogicamente mais complexas, devo começar por outras questões pedagógicas que mais facilmente permitem demonstrar a importância desta vertente na formação de um docente. E nem irei prender-me com a questão da organização do trabalho com alunos, pois sou defensor da liberdade neste ponto, acreditando que os professores devem utilizar os métodos de ensino que consideram mais adequados, desde que não sejam fundamentalistas, e desde que conheçam e experienciem outras formas diferentes daquelas que aplicam para que, legitimamente, possam optar por uma delas, ou por uma amálgama das mesmas. Isto para que não caiam no ridículo, idêntico ao da criança que diz que a fruta mais saborosa que há é a banana, ao mesmo tempo que se recusa provar qualquer outro tipo de fruta…

Deste modo, para defender a importância da preparação pedagógica de um docente, focarei um dos meus temas preferidos: a avaliação. E poderei cruzar este tema com a minha experiência pessoal na formação inicial. Até ao meu ano de estágio nunca na minha formação obtive qualquer ensinamento sobre como avaliar alunos. Já no estágio, passados uns meses em que a avaliação nunca foi tema, eis que tive de fazer o primeiro “teste”. Sem qualquer experiência, conhecimento ou discussão sobre avaliação, eu e os meus colegas de estágio questionámos a nossa orientadora sobre como se fazia o vulgo “teste”. Eis que fomos informados que deveríamos escolher um conjunto de exercícios que considerássemos interessantes no conjunto dos manuais escolares não adoptados, e que essa compilação de exercícios seria o teste (informação que só por si já daria origem a uma enorme reflexão). Já em casa, quando o meu pai sentiu a minha insegurança relativamente ao que estava a fazer, esqueceu por um momento a promessa que tinha feito a si próprio de não interferir com a minha formação durante o ano de estágio e, olhando de relance o que fazia, somente pediu, carinhosamente, que retirasse a expressão “ficha de avaliação sumativa”, expressão com que convivi grande parte da minha vida escolar. Perguntei porquê e ele perguntou-me se já tinha lido a legislação referente à avaliação das aprendizagens dos alunos (nem sabia eu que existia tal coisa). Disse-me que facilmente a poderia consultar na escola onde estagiava. Quando cheguei à escola perguntei à minha orientadora onde poderia consultar a referida legislação. Algo surpreendida, respondeu-me que deveria estar no dossier de departamento, que perguntasse à coordenadora. Esta última, com grande disponibilidade, deu-me a conhecer o Despacho Normativo n.º 98-A/92, onde percebi o porquê do erro colossal da expressão “ficha de avaliação sumativa”. Soube também que havia uma coisa chamada “avaliação formativa” que, incrivelmente, era, desde o Despacho Normativo n.º 162/ME/91, a «principal modalidade na estrutura curricular do ensino básico e secundário». Como jovem professor, ainda não sabia em que consistia a principal modalidade de avaliação que teria de colocar em prática, mas pelo menos já sabia qual era, contrariamente a muitos colegas meus com muitos anos de serviço… Incrivelmente, ainda em 2004, salvo erro, uma colega minha me disse, como quem me dava uma novidade bastante recente, que agora não deveríamos colocar nos “testes” a expressão “ficha de avaliação sumativa”. Mal a pobre sabia que tinha chegado com um atraso superior a 10 anos. Mas, para defesa da mesma, ainda hoje, 20 anos volvidos, vemos muitos professores a usar a mesma expressão nas suas fichas de avaliação, sem terem a mínima ideia do erro que estão a cometer. Ainda há quem pense que a formação pedagógica de um professor não é importante? E limitei-me a focar um aspecto pedagógico.

Acreditando que não será necessário acrescentar mais nada para justificar a necessidade da vertente pedagógica na formação inicial, vamos então verificar a importância da mesma na questão disciplinar e relacioná-la com o papel que esta pobre formação tem tido na crescente dificuldade dos professores em exercer a sua autoridade.

Para tal devemos começar por observar que há professores com graves dificuldades em manter um ambiente de sala de aula saudável, onde a aprendizagem seja possível. E isto independentemente do grupo de alunos. Há inúmeras situações onde alunos que, por norma, são irrepreensíveis do ponto de vista disciplinar com praticamente todos os professores, se transformam em autênticos selvagens com outros professores. E esta mudança de comportamento, por vezes, acontece num simples intervalo de 10 minutos. Que diferenças substanciais há entre os professores para que tal suceda? Será simplesmente uma questão de diferenças de personalidade, ou haverá aprendizagens que uns efetuaram e outros não? Se for uma simples questão de personalidade e não haja qualquer tipo de aprendizagens que possam ser efetuadas para modificar a situação, então temos um grave problema entre mãos: se nada podem aprender esses professores com problemas, então só poderá haver uma opção, que é a mudança de profissão por parte dos mesmos, pois estão a prejudicar os alunos, os seus colegas de trabalho e a ser infelizes. Como não sou adepto de teorias fatalistas e como acredito que, com empenho e persistência, tudo se pode aprender (ou não seria professor), tenho de partir da premissa que esses professores poderão aprender algo que lhes permita melhorar, com tempo, o seu desempenho no capítulo disciplinar. Mas, que poderão eles aprender? Esta é a questão principal? Em Educação, o uso da expressão “não há receitas para” é uma constante. No entanto, podemos observar algumas formas de agir similares, tanto no grupo daqueles professores que conseguem construir um ambiente disciplinarmente propicio à aprendizagem, bem como nos docentes em que tal não sucede. E com isto não estou a afirmar que têm comportamentos iguais perante os alunos, mas sim que seguem um conjunto de princípios, conscientemente ou não, que pautam a sua postura. Porque é que esses princípios não podem ser alvo de reflexão e estudo por um aspirante a professor, para que possa compreender e absorver os mesmos? Claro que, para que tal possa acontecer, o futuro professor, ou actual, com dificuldades de índole disciplinar, terá de acreditar que a atitude dos alunos depende em grande parte da sua postura, e não ter a atitude daqueles pais que, tendo um filho extremamente mal-educado, dizem “nada posso fazer, ele nasceu assim”.

Por outro lado, o não haver um conjunto de princípios que sejam defendidos e alvo de reflexão na formação inicial de um professor cria outro problema nas escolas do ponto de vista disciplinar: a não existência de regras comuns entre os diversos professores, faz com que os alunos vivam num mundo de incoerência disciplinar. Na maior parte das vezes, quando os professores tentam criar um conjunto de regras comuns, porque sabem que a existência das mesmas é essencial, limitam-se a banalidades como a proibição do uso de pastilhas elásticas ou bonés, não chegando a um consenso no que toca à forma de lidar com os atrasos dos alunos, às atitudes exigidas em sala de aula, ao tratamento das faltas de material, entre outras coisas. E mesmo que cheguem a consenso em alguns destes exemplos que dei, do estabelecido à prática acaba por existir um enorme fosso. E se alguém não compreende os resultados nefastos que a incoerência disciplinar cria, basta pensar em crianças em que os pais têm atitudes antagónicas na sua educação. E, por outro lado, o primeiro resultado desta incoerência disciplinar são mais problemas disciplinares iniciados no questionamento das regras fragilmente estabelecidas, o que torna mais difícil o exercício da autoridade. Exemplo deste facto foi o espanto e desagrado que muitos alunos demonstravam quando lhes ordenava que apanhassem o lixo que acabavam de lançar no chão e que o colocassem nos inúmeros caixotes para esse fim (hoje em dia basta olhar para os mesmos que eles já sabem o que têm de fazer). Isto porque muitos dos meus colegas de profissão optavam, e optam, por fazer de conta que não é nada com eles… muitos dos professores com quem trabalho já têm a mesma atitude ativa, no entanto, muitos não, fazendo com que este tipo de atitudes passem quase a ser aceites como normais, minando a autoridade dos professores que ainda a exercem. Outro exemplo pode ser facilmente observado no fim das aulas: enquanto umas aulas terminam com a sala limpa, outras terminam, invariavelmente, com um espectáculo de sujidade que envergonha qualquer professor, e deveria envergonhar qualquer aluno… e aqueles professores que sentem que tais factos não são da sua incumbência, ou simplesmente não estão preocupados em exercer a sua autoridade, mais uma vez tornam difícil o exercer da mesma por parte dos seus pares. Poderia apresentar muitos mais exemplos, mas penso que a simplicidade destes torna possível uma boa compreensão do modo como a pobre preparação pedagógica mina o exercer de autoridade de todos os docentes. Para além disso, a falta de conhecimentos nesta área têm outra repercussão, que é o crescer da própria ideia de que a autoridade do professor está a diminuir. Qualquer educador sabe que só com persistência e assertividade é que o ato educativo vai produzindo os resultados esperados. E estou a referir-me a seres de tenra idade, onde a influência do acto educativo tem maior impacto. No entanto, em idade escolar, alguns professores esperam que crianças com uma educação deficiente mudem a sua atitude de um momento para o outro, à primeira reprimenda de que são alvo. Só uma atitude contínua, concertada e coerente poderá levar a que algumas crianças passem a cessar alguns comportamentos, ou a demonstrar comportamentos desejáveis. O desconhecimento, a falta de diálogo e a falta de reflexão de muitos professores sobre estes factos leva a que este trabalho conjunto não seja efectuado, resultando daqui um maior número de comportamentos indevidos, tornando mais cansativo o exercer da autoridade dos professores e, consequentemente, dificultando-o. E sei que seria muito bom que não fosse necessário ter de exercer a autoridade. No entanto, não estamos num mundo perfeito, temos de viver com aquele que temos, e não é um qualquer enquadramento legal emanado de um qualquer governo que cessará a necessidade do papel da escola como entidade educativa do ponto de vista das atitudes das crianças, nem a exclusão das mesmas das escolas irá resolver o problema, simplesmente estaremos a transferir o mesmo para a sociedade civil, esta com um potencial de interferência educacional bem menor que o da escola.

Mais haveria a reflectir sobre a responsabilidade colectiva dos professores na sua “perda” de autoridade, no entanto, estando este texto longo e acreditando que os factos relatados e alvos de reflexão já substanciam a minha afirmação, termino por aqui, prometendo que, com a brevidade que me for possível, apresentarei um terceiro texto sobre o tema, apontando aquele que vejo como principal responsável pela “perda” referida: a mudança de atitude dos pais e encarregados de educação relativamente à relação entre os professores e os seus educandos.

 

André Pacheco

Com a promulgação do novo Estatuto do Aluno, aproveito para recuperar os textos de 2011 dedicados à (suposta) perda de autoridade do professor.

A perda de autoridade I

Uma das afirmações que mais se ouve na escola hoje em dia é que se tem assistido a uma perda da autoridade do professor. Infelizmente nunca vejo uma grande profundidade ou fundamentação quando tal frase é proferida. Normalmente é a simples repetição de um lugar-comum, ouvido durante o desabafo de alguém num momento complicado. Não digo isto como crítica, mas como simples constatação de um facto. Todos nós temos as nossas opiniões fundadas no senso comum antes de realmente refletirmos sobre um assunto. No entanto, sendo a questão da autoridade do professor algo tão importante, resolvi refletir seriamente sobre o assunto, partilhando essa mesma reflexão neste espaço. Claro que não pretendo criar um ensaio académico sobre o tema, mas algo suficientemente profundo, digno de partilha, que leve outros profissionais da educação a refletir, ultrapassando a perspetiva superficial.

A reflexão sobre este tema é de uma grande importância, quanto mais não seja por ser um dos argumentos utilizados pelos conservadores da educação para justificar o facto de hoje em dia a escola estar em crise, segundo eles, resultado das “novas pedagogias” que, afirmam eles, emergiram de várias equipas ministeriais da educação nos últimos 20/30 anos. Tendo em conta este facto irei tentar construir uma explicação fundamentada que possa justificar o que hoje se vive nas escolas, no que à autoridade do professor diz respeito.

A minha renitência relativamente à categórica afirmação atrás referida reside no facto de eu, nos meus anos de serviço (desde 1998), não sentir estar a perder autoridade. Sinto que é mais difícil exercê-la (sinto, mas é difícil comprová-lo visto não ter um ponto de comparação credível, pois é complicado comparar o que sinto atualmente com aquilo que penso que sentia há uns anos), mas não acho que a tenha perdido ou que a mesma tenha sido beliscada por uma política ministerial, tal como insinuam. Tendo em conta que a única forma de interferência na vida das escolas, por parte do Ministério da Educação, só pode acontecer por força de lei, o único modo de o fazer, no que à autoridade do professor diz respeito, é através do Estatuto do Aluno. Quem realmente o conhece, nas suas várias versões, sabe que aí não existe nada que coloque em causa a autoridade do professor, muito pelo contrário. Podemos discutir que o mesmo pode complicar mais ou menos a aplicação de medidas disciplinares, graças a ter mais ou menos procedimentos ou trâmites, ou a ser mais ou menos duro. No entanto, é triste ver um docente escudar-se na existência de tais trâmites para justificar não efetuar um procedimento disciplinar. Pessoalmente já fui relator de vários processos disciplinares e tais trâmites nunca foram um entrave. Por outro lado, fico feliz que num estado de direito a escola tenha procedimentos similares aos preconizados nesse estado de direito (com as devidas adaptações), salvaguardando os direitos fundamentais do indivíduo numa democracia. Deste modo, com alguns erros pelo meio, o Estatuto do Aluno tem vindo a ser modificado de modo a ser, no que toca à autoridade do professor, o mais adequado à vida da escola, ao mesmo tempo que tenta ser digno de uma democracia. E mesmo os erros que foram praticados, alguns extremamente graves (a forma como as faltas injustificadas têm vindo a ser tratadas é um bom exemplo), não destruíram a autoridade do professor no ato da sua promulgação. Podem ter prejudicado em alguns momentos, mas houve sempre uma tentativa de os corrigir quando eram manifestamente disparates (veja-se a última alteração do estatuto). Daqui a afirmar categoricamente que tais diplomas legais retiraram a autoridade do professor é algo vagamente desonesto e extremamente redutor.

Para completar esta ideia, devo afirmar que as diversas equipas ministeriais que temos tido têm cometido mais erros, e muito mais graves, noutras áreas que não a que diz respeito, puro e simples, à autoridade do professor.

No entanto, devo dizer que a maior parte dos que afirmam que se está a assistir à perda da autoridade da parte do professor não são conservadores da educação. São pessoas bem-intencionadas que dizem aquilo que sentem. A forma de o transmitir é que poderá não ser a mais clara, acabando por proferir um chavão que vem quer dos conservadores da educação, quer dos sindicatos, quer do cidadão comum. E os próprios políticos acabam por entrar no jogo, sejam os sucessivos governos através da demonstração da vontade em restaurar a autoridade do professor, ou a oposição culpando o governo por não fazer nada que impeça a perda da autoridade por parte dos professores. E tudo isto resulta num nevoeiro muito espesso que turva o nosso intelecto e nos impede de pensar e refletir sobre o assunto, que nos conserva no conformismo de uma receita dada.

Tendo em conta tudo o que foi explanado, partamos então de dois pressupostos: o primeiro, que legalmente a autoridade do professor hoje é sensivelmente a mesma de há uns anos; e o segundo, que hoje em dia é, de facto, mais difícil exercer a autoridade. Partindo destes pressupostos surge naturalmente a questão: porque será que é mais difícil exercer a autoridade se ela, teoricamente, é a mesma? Quem vive a escola diariamente consegue encontrar algumas razões mas, obviamente, umas terão mais peso e impacto que outras. Há razões de ordem profissional que concernem quer à formação inicial dos docentes e respetiva qualidade dos mesmos, quer à organização do trabalho dos professores no que toca a questões pedagógicas e/ou disciplinares. Há razões de ordem familiar que se referem à evolução das famílias em termos sociais, económicos ou estruturais. Há razões de ordem educacional, referindo-me neste caso ao paradigma social vigente no que toca aos valores e atitudes relacionados com a educação das crianças e jovens. E haverá ainda, com certeza, razões de outras ordens, em contextos específicos.

De todas as razões que observo, de cada ordem, vejo umas com um impacto maior que outras, e que algumas estão, por vezes, correlacionadas. No entanto, fazendo um esforço no sentido de procurar as razões transversais, aquelas que estão sempre presentes, independentemente dos contextos regionais específicos, ou das estruturas familiares, ou das conjunturas sociais e económicas, vejo duas como as mais prementes: uma prende-se com a dificuldade, e por vezes renúncia, de muitos professores em assumir o seu papel como educadores; a outra prende-se com a mudança de atitude dos pais e encarregados de educação em relação aos professores e à escola, sobretudo no que consideram ser a autoridade dos mesmos em relação aos seus educandos.

Tendo em consideração o facto de cada uma das razões apontadas justificar uma reflexão que, em palavras, ocuparão um texto maior do que o já apresentado, irei optar por criar um texto para cada uma delas, a publicar brevemente.

André Pacheco

Continuando a recuperação de textos que desapareceram da Internet, publico um com dois anos que infelizmente se adequa na perfeição ao momento atual, ainda com maior relevância do que quando foi escrito.

 

O Professor Contratado

Neste agosto fantástico no Algarve, que me acompanha na complicada e sensível elaboração dos horários, escrevo algo dedicado àqueles que mais merecem o meu respeito e defesa. Aproveito ser fim-de-semana, o que me liberta da presença no meu local de trabalho, e preparo-me para uma semana verdadeiramente intensa, onde eu e o meu companheiro de elaboração de horários iremos, finalmente, poder elaborar os mesmos, após todas as novidades legislativas de cariz economicista que obrigaram a modificar por várias vezes a distribuição de serviço. Assim, enquanto o Diretor, teoricamente de férias, aproveita o fim-de-semana para terminar o mapa da distribuição de serviço, eu escrevo sobre aqueles que, após mais um ano letivo onde ganharam ainda mais respeito da minha parte, há muito queria homenagear: os professores contratados.

Apesar de há muito querer escrever sobre este tema, só agora o faço, impulsionado por um conjunto de artigos, dedicados aos professores contratados, presente no Jornal da FENPROF. Sendo sindicalizado desde o início da minha carreira gosto sempre de ler os jornais e revistas que os mesmos me enviam (apesar de sentir falta da Página da Educação, jornal que recebia quando era sócio do SPN, visto que tem muito mais do que artigos de cariz laboral, abrangendo questões educacionais com uma qualidade que poucas publicações da especialidade apresentam). Deste modo, os artigos dedicados aos professores contratados presentes no referido jornal fizeram-me finalmente escrever sobre este tema que considero fulcral no panorama educativo nacional. Porém, não foi o conteúdo dos artigos que me impulsionaram. A realidade é que nunca senti grande defesa dos sindicatos relativamente à situação dos professores contratados. Se lermos com atenção os acordos efetuados entre a plataforma sindical e o Ministério da Educação facilmente se observa que, regra geral, a contrapartida para as medidas que prejudicam quem se encontra no início e meio da carreira costumam ser benesses para quem se encontra no topo. Todos sabemos que é quem se encontra no topo da carreira que sustenta financeiramente o importante papel que os sindicatos representam, é uma questão de aritmética bastante simples. No entanto, tal não deverá pesar na hora de defender a classe docente no que toca a questões laborais.

Relativamente a este tema devo começar por clarificar um ponto que será, provavelmente, desconhecido para a maior parte dos portugueses: os professores contratados não são, como era norma há 10, 15 anos atrás, professores com nenhuma ou pouca experiência, ou indivíduos ainda a terminar o curso, ou pessoas que, não encontrando emprego na sua área laboral, “caíam” nas escolas (algumas ficando e estando hoje no topo da carreira docente). Atualmente, grande parte dos professores contratados têm já um número de anos de serviço considerável, têm formação específica para a educação, querem ser professores e apresentam uma atitude profissional irrepreensível. Claro que nem todos são assim, pois existe maus trabalhadores em todas as categorias profissionais da docência e em qualquer classe profissional. Posso, inclusivamente, afirmar que, em alguns casos, esses professores são tão bons que são alvo de admiração por parte dos restantes docentes das escolas, e ganham facilmente um peso considerável na vida da escola, transformando-se em peças fundamentais na mesma. Atrevo-me a ir mais longe, afirmando que, caso tivessem passado os anos de serviço que possuem a trabalhar numa empresa privada, estariam a obter posições de relevo na mesma, obtendo salários em conformidade com tal facto.

E é neste último ponto que começa a minha desilusão com os sindicatos. A sua recusa silenciosa em pôr em causa o sistema de escalões salariais na carreira docente faz com que estes docentes continuem a receber, independentemente dos anos de serviço, o mesmo vencimento, isto é, pelo índice 151. Enquanto, pelo último acordo com o Ministério, a plataforma sindical conseguiu que fosse criado mais um escalão, de índice 370! Deve ser maravilhoso para um professor contratado saber que os “seus” sindicatos conseguiram tal vitória. Assim, enquanto continuar a receber o seu baixo salário (em relação aos colegas) enquanto estiver a dar o coiro e o cabelo pela sua escola, ficará descansado sabendo que um seu colega (possivelmente de profissionalismo duvidoso e com menos formação que a sua) poderá aceder a um salário ainda maior que o índice 340 que já aufere (que é mais que o dobro do que o seu salário). Perdoem-me a violência das palavras e as possíveis injustiças proferidas relativamente a alguns professores que se encontram no topo da carreira, mas o facto é que tudo isto me repugna e não compreendo como não incomoda os restantes colegas que, tal como eu, estão na carreira.

Compreende-se que, antigamente, os sindicatos tentassem manter o sistema de escalões sem beliscaduras. Nesses tempos, esse sistema, em conjunto com a progressão quase automática (não sejamos hipócritas), fazia com que os professores se esquecessem da injustiça que o sistema significava (e o mal que trazia às escolas), pois sabiam que era uma questão de tempo até atingirem um nível salarial confortável. Mas era tão óbvio de que até os piores profissionais progrediam sem grandes dificuldades que o Ministério atacou a questão da progressão com a criação de quotas. Claro que estas quotas também eram uma injustiça, mas o Ministério pensou que sem estas os professores continuariam a ser avaliados todos por igual, mantendo-se a hipocrisia vigente no sistema de avaliação anterior. No entanto, o sistema de avaliação criado, com ou sem quotas, era uma grande treta, revelando-se igualmente injusto. Agora, com o fim da vergonha da categoria de professor-titular, manteve-se o sistema de avaliação, mas colocou-se umas quotas pelo meio, somente para atrasar um pouco a progressão dos docentes. Ou seja, voltámos à treta do sistema anterior mas com uns atrasos de progressão em alguns casos, o que significará a poupança de uns tantos euros ao Estado. Mas, com tudo isto, pergunto ao Ministério de Educação e aos sindicatos: afinal os professores devem receber de acordo com o tempo de serviço ou com aquilo que realmente fazem nas escolas? Qual é o incentivo que tem um professor contratado, para além do seu profissionalismo e amor pela Educação, quando vê professores sem um pingo de profissionalismo receberem salários que são mais que o dobro do seu? Aliás, qual é o incentivo para qualquer docente, para além do seu profissionalismo e amor pela Educação, perante um sistema remuneratório destes? Se um professor contratado, com a sua experiência considerável, faz o mesmo que outro docente qualquer, por quê ter um salário inferior? E como, infelizmente, existe um paralelo entre o salário e o estatuto profissional, tal facto contribui ainda mais para menorizar estes professores tão relevantes e válidos como os demais.

André Pacheco

 

Este texto teve na altura um único comentário que aqui reproduzo, juntamente com a minha resposta.

Maria, em 25/01/2011, comentou: «Vim aqui dar ao blog numa certa deriva pela blogosfera da Educação. Encontrei este post (e o de cima) não me revendo em tudo o que escreve em ambos. Mas sou contratada há imenso tempo. E sim, muito do que escreveu é verdadeiro, especialmente a insensibilidade para um "congelamento" permanente num índice e num salário. Some-se mais o não se ter direito a qualquer redução de componente letiva como acontece nos quadros a partir dos 40 (não tenho a certeza se é esta a idade) pois, independentemente do vínculo de trabalho, todos envelhecemos e os corpos e as cabeças não se cansam menos pelo facto de se ser contratado ou quadro. E agora, ainda somos mais e mais penalizados (já não bastava a competição natural das listas de graduação/concursos) com esta coisa de andarmos a competir pela ADD, para subir uns lugares na lista e o mal-estar que isso está a causar nas escolas. Deprimente, abusivo e causador de uma série de situações que pugnam pelo abuso, o clientelismo e deontologicamente indecorosas.»

Respondi a Maria no mesmo dia: «Cara Maria, antes demais dou-lhe os parabéns pela coragem de escrever, algo que cada vez menos se vê, tendo para mais escrito de um modo respeitoso e ponderado. Atualmente, ou vejo conspirar em surdina, ou gritar como se de uma discussão futebolística numa taberna se tratasse... Relativamente ao que afirma, mais não poderei fazer do que, tristemente, concordar consigo, juntando que, para além das razões já apontadas por nós, muitas mais se poderiam acrescentar na crítica desta situação. Por fim, resta-me desejar-lhe que, caso esta tenha sido a profissão que, em consciência e com convicção, escolheu, tenha força para viver a sua vida profissional sem permitir que a forma desigual como é tratada lhe traga infelicidade, algo que não é fácil, sobretudo no momento económico em que se vive.»

 

Meses depois descobri que este meu texto andou a ser divulgado por correio eletrónico entre os professores. Descobri-o porque um professor no topo da carreira me mandou uma mensagem por esse meio, criticando o que havia escrito. Contrapus os argumentos usados pelo mesmo, colocando-lhe novas questões sobre o tema, e não obtive qualquer resposta.

Desde 26/06/2003

Desde então que este espaço tenta ser um local onde a Educação possa ser discutida de um modo livre, com argumentação que ultrapasse o mero senso comum e com respeito pela diferença de opiniões.

Com o fim da weblog os textos antigos serão transportados para este novo espaço, com as repetivas referências temporais. Muita pena tenho por alguns comentários que enriqueciam os textos não poderem ser recuperados.

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub