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educaportugal

Após o terceiro texto dedicado à educação na primeira infância, Joana de Oliveira surgiu na reflexão conjunta com este pequeno texto:

Estímulos. Penso que poderíamos começar por aí. A quantidade e variedade de estímulos (e agora, pela lógica, deveria dizer "a que as crianças estão sujeitas", não é?) aos quais os adultos estão sujeitos, o trabalho e suas reuniões fora de hora, as formações, o quotidiano – banco, pagamentos, médicos, exames – a família, os encargos, os amigos, o fim de semana para descansar (?), as leituras obrigatórias, ah, e os filhos. O que é que sobra para os filhos? Quando teríamos alguma disponibilidade para eles, estamos feitos num oito. Eles falam, balbuciam, tentam comunicar, e nós não temos mais disponibilidade emocional nem sinapses suficientes para receber, integrar e elaborar as informações que eles nos estão a dar. Ora, as crianças assim como os adultos, comunicam com quem está disponível para comunicar. Com o tempo, desistem. Precisam de respostas, precisam do olhar atento, amoroso ou/e não, da palavra, da risada ou não, mas de comunicar. Se nos pais não houver esta disponibilidade, a criança procura noutro sítio.

Na televisão, no jogo simbólico solitário, na escola com mais 20 ou 25 colegas, na mesma situação deles. Todos aos gritos, todos sem capacidade de esperar a vez de falar e ouvir, de tentar compreender o outro, incapazes de olhar, porque não são olhados. Ficam sem esquemas de comunicação adequados, não por incompetência, mas por falta de prática.

Crianças mal criadas? Talvez crianças não criadas, crianças tidas. Crianças chatas? Adultos, pais, chatos, por falta de hábito na competência de comunicar.

Tentando partir de algumas das ideias descritas pela Joana, surgiu o quarto texto.

“Inventem-se novos pais” IV

O último texto, da autoria da Joana, alerta para um problema extremamente atual no que concerne ao crescimento das crianças: a dificuldade por parte dos pais em gerir o seu tempo. Concordo que hoje em dia não faltam motivos para que os adultos estejam ocupados. Não vou afirmar que é fácil conseguir arranjar tempo para tudo o que quero fazer. Sinto que os meus dias deveriam ter pelo menos quarenta horas, tudo seria mais simples. No entanto, quando decidi ser pai, sabia que teria de prescindir de muita coisa, quer a nível profissional, quer do ponto de vista pessoal. Assim, a partir do momento em que geramos o nosso primeiro filho, nós, os pais, colocamos no topo das nossas responsabilidades esse mesmo ser, pois não foi ele que pediu a sua vinda. Fizemos um pacto silencioso, em que nos responsabilizávamos pelo crescimento espiritual, físico, afetivo e pessoal dessa mesma criança. Quando o segundo filho foi gerado, fizemos o mesmo juramento. Assim, nunca nos permitiremos olhar para estas duas crianças como um fardo, pois somos nós os responsáveis pelo seu aparecimento.

Tendo em conta este facto, procuramos equilibrar o tempo, fazendo com que dê para tudo o que é imprescindível, criando criteriosamente uma lista de prioridades. Não nos colocamos a nós no topo, as nossas vontades e caprichos, mas sim aquilo que merece realmente o nosso empenho. Obviamente que no topo destas prioridades estamos nós os quatro, como um todo, e só depois cada um de nós individualmente.

Com tudo isto, pretendo demonstrar que o que está em causa é o que nos move, quais as razões pelas quais fazemos as nossas escolhas. Neste caso específico, quais as razões que nos levam a procriar. O que leva uma pessoa que vê os seus filhos como um fardo a ter mais filhos? Razões de ordem afetiva, social...? O que são os pais? São o homem e a mulher que geram uma criança, ou aqueles que a orientam e apoiam no seu crescimento? Neste ponto concordo plenamente com a Joana quando fala de “crianças não criadas, crianças tidas”, pois pior que uma educação ineficaz é uma não educação. No entanto, o meu primeiro texto referia-se simplesmente à educação dada às crianças nos seus primeiros 4-5 anos de vida, a educação de base que praticamente molda a personalidade do ser, e condiciona fortemente a forma como a educação será gerida a partir de então. Quando iniciei esta reflexão, somente me referia a essa base educacional construída nos primeiros anos de vida de cada criança. A ênfase que dou a esta fase acontece, porque acredito que são esses primeiros 4-5 anos que irão praticamente determinar de que forma o resto do crescimento da criança irá decorrer. Face às características físicas e psicológicas do ser humano, em que se encontra mais apto a apreender comportamentos no início da sua vida, perdendo gradualmente essa capacidade, facilmente se poderá compreender quão importante é determinar quando se deve começar a tentar incutir certos comportamentos e valores nas crianças. Não é tarefa fácil, pois cada criança tem o seu ritmo de crescimento em cada um dos aspetos que a formam. No entanto, se houver uma verdadeira preocupação e compromisso na procura deste objetivo, tudo poderá ser conseguido. Porém, muitos dos pais que não compreendem o seu papel, quer por verem nele um fardo, quer por ignorarem tais factos, limitam-se a gerir a relação com os seus filhos na perspetiva de uma autoeducação, em que vão cedendo aos caprichos normais de qualquer criança, criando algo com que mais tarde não conseguem lidar, limitando muito do tempo que passam com essas crianças. Deste modo, acredito que se os pais compreendessem e fizessem um esforço considerável nos primeiros anos de vida das crianças, no sentido de moldarem a personalidade das mesmas, procurando, na medida do possível e lógico, incutir-lhes as aprendizagens ao nível da responsabilidade, da autonomia, da entreajuda, do respeito pelo próximo, do respeito pela propriedade alheia, da capacidade de lidar com as frustrações e de todas as regras básicas de vivência em sociedade, muitos destes casos de “crianças não criadas, crianças tidas” não aconteceriam, não se encontrando tanto jovem manifestamente infeliz.

Recupero o terceiro texto dedicado à educação na primeira infância, publicado no anterior sítio Internet em julho de 2004, dois dias após o anterior.

“Inventem-se novos pais” III

Sendo este tema um daqueles nos quais facilmente podemos cair no radicalismo, tal a sua delicadeza, vou fazer um enorme esforço para utilizar um discurso equilibrado, minimamente consensual, visto que as resoluções desta discussão interessam a todo e qualquer ser humano, independentemente das suas diferentes visões. Assim, as possíveis conclusões a que tal discussão poderá levar, terão de ser compatíveis com as diferentes mentalidades individuais. Por outro lado, tal discussão deixará de fazer sentido para aqueles que têm uma visão extremista em relação a este tema. Porém, estes nunca poderiam participar numa discussão, porque nestas temos de estar preparados para ouvir e aceitar opiniões divergentes da nossa. Deste modo, o objetivo desta discussão não é a defesa de uma qualquer corrente ao nível da educação de crianças, mas sim a procura de pontos comuns e de consensos entre as diversas visões de cada um.

Quando se fala em educação, incluindo a de crianças pequenas, uma das expressões que, mais tarde ou mais cedo, surge é a célebre: “na educação não há remédios nem soluções óbvias...”. Não discordo de tal facto, mas acrescentaria algo mais a tal expressão. Sei que não se sabe exatamente o que se há de fazer no que concerne à educação de miúdos, mas sabe-se razoavelmente bem o que não se deve fazer. Deste modo, estes textos de reflexão educativa irão ser dedicados a esses erros crassos que se cometem na educação de crianças. Por outro lado, estes erros permitem descobrir alguns fatores importantíssimos para uma educação bem conseguida. Portanto, podemos modificar a expressão atrás referida para: “Não há soluções para a educação de crianças, mas conhecem-se alguns fatores basilares em tal educação, bem como procedimentos que nunca se devem ter”.

Sendo assim, dedico este texto àquele fator que será, quiçá, o mais negativo na educação de uma criança: quando os responsáveis por tal educação têm opiniões completamente divergentes em relação a como educar a criança. Obviamente que, ao longo do crescimento de uma criança, vão aparecendo múltiplas situações em que os responsáveis por tal educação divergem. No entanto, o problema está no facto de nessas situações cada um tomar uma atitude completamente divergente da do outro, para além de, por vezes, o demonstrarem na presença da criança. Quantas vezes assistimos nós a situações em que um dos progenitores de uma criança faz algo e é automaticamente desautorizado pelo outro, inclusivamente em frente da criança? Este problema não se colocava há uns anos, quando o pai decidia quais os procedimentos a ter relativamente à educação dos filhos, ou quando era a mãe, completamente isolada, que educava os filhos, sendo o pai uma figura relativamente distante. Felizmente são outros tempos. Estando nós em tempos de relativa igualdade entre os progenitores (relativa porque não é total, não faltam exemplos neste país de famílias “à antiga”), surgiu este problema. O que acontece nestes casos? O mais grave é quando a criança perde totalmente o respeito pela autoridade do progenitor sistematicamente desautorizado pelo outro à sua frente. Quando as divergências não acontecem em frente da criança, mas são óbvias para a mesma (sobretudo quando há pouca comunicação entre os educadores), a criança aproveita-se de tal facto. São muitos os casos de crianças que pedem algo a um dos pais e, perante uma resposta negativa, pedem ao outro, conseguindo aquilo que queriam (para verificar tal facto de forma simples, basta observar uma aula com mais de um professor em que estes não comuniquem ou não tentem convergir em termos disciplinares). Até já assisti a crianças que, depois de conseguir o que queriam, através do segundo responsável pela sua educação, foram demonstrar tal facto, com um ar provocador, àquele que lhe tinha respondido negativamente. Os ensinamentos daqui retirados corroem o sentido de justiça de uma criança, demonstrando-lhe que os meios pouco éticos dão resultados práticos, o que interfere com o sentido ético do futuro adulto.

Sendo este um facto óbvio e dificilmente contra-argumentado, resta-nos concluir sobre qual o comportamento que os educadores devem então ter neste ponto específico. Pessoalmente, acredito em duas coisas: comunicação e procura de consensos. O primeiro fator é, para mim, o mais importante. Não só porque, no caso dos progenitores, estar intimamente ligado à qualidade da sua relação afetiva, mas também pelo facto de ser, teoricamente, o fator mais simples e essencial. Essencial, porque sem comunicação não se poderá chegar à procura de consensos, o segundo fator. Mesmo que estes consensos não sejam totais, a sua procura, através da troca de ideias sobre diversos acontecimentos relacionados com a educação dos seus filhos, permitirá uma reflexão conjunta sobre os mesmos, através de argumentação e contra-argumentação, o que levará a compreender melhor os seus papéis de educadores e, consequentemente, tomar as melhores opções em cada situação (costumo dizer que a melhor opção é aquela que resulta de uma profunda reflexão, independentemente do seu resultado, pois este nunca se pode saber de antemão, pois nesse caso não seria necessário procurar algo como a melhor opção).

Tendo em conta que este fator da educação das crianças merece mais tempo de reflexão, fico, para já, por aqui, esperando reações que me permitam ter outras perspetivas sobre este ponto, as quais poderei ter olvidado.

Desde 26/06/2003

Desde então que este espaço tenta ser um local onde a Educação possa ser discutida de um modo livre, com argumentação que ultrapasse o mero senso comum e com respeito pela diferença de opiniões.

Com o fim da weblog os textos antigos serão transportados para este novo espaço, com as repetivas referências temporais. Muita pena tenho por alguns comentários que enriqueciam os textos não poderem ser recuperados.

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