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educaportugal

Quando o atual ministro da educação e ciência foi indigitado para o seu cargo, muitos colegas meus vieram comentar comigo a sua satisfação, ao mesmo tempo que perguntavam a minha opinião sobre o facto e se não me sentia igualmente satisfeito pelo facto do ministro ser da minha área, isto é, de Matemática. Não me querendo, então, alongar muito sobre o assunto, começava sempre por dizer que, em boa verdade, ele não era de Matemática, que a sua formação inicial era Economia (e só posteriormente tinha efetuado estudos no âmbito da Matemática Aplicada), e que, por outro lado, a sua experiência no ensino não superior era muito pobre, ao contrário do que muitos pensavam. Sobre a minha opinião, acabava por dizer que tinha razões para não me sentir satisfeito com a escolha. No entanto, dizia também que, independentemente da minha opinião, o ministro deveria ter o benefício da dúvida, podendo vir a ser uma surpresa para mim demonstrando que eu estava errado. De qualquer modo, estava satisfeito pela escolha por uma simples razão: ou o ministro demonstrava que eu estava errado e a educação em Portugal ficava a ganhar; ou demonstrava aquilo que eu esperava, e os professores poderiam finalmente compreender que o ministro não passava de mais um “educador de bancada”, dos que falam do que não sabem.

Ao longo da legislatura o ministro foi sendo aquilo que eu esperava. Foi tomando muitas decisões com as quais não concordo, no entanto, foi sendo coerente, decidindo de acordo com as ideias que sempre defendeu para a educação. E muitas dessas ideias são também defendidas por muitos professores, deste modo, mesmo não concordando, fui aceitando como normais e expectáveis as decisões tomadas, fazendo sempre apelo ao meu espírito democrático, apesar de considerar que muitas das decisões eram prejudiciais às escolas e, consequentemente, para os seus alunos e professores.

Deste modo, só duas coisas realmente me incomodavam nesta equipa ministerial: as tentativas de justificar o injustificável, de que é exemplo o aumento do número de alunos por turma; e os preâmbulos idiotas de alguns diplomas legais, pejados de juízos de valor sobre fantasmas de correntes pedagógicas das quais o ministro é um crítico. Se, no primeiro caso, ainda se poderá dar o benefício da dúvida visto muitas das decisões tomadas serem resultado do atual estado financeiro e económico do país (só sendo pena que não o assumissem), no segundo caso, dificilmente será aceitável, pois demonstrava uma falta de sentido de estado e um espírito de “vendetta”, claramente reprováveis.

No entanto, nesta última semana, duas decisões vieram mostrar a pior face desta equipa ministerial: a portaria que fixa o número de vagas para o concurso interno e externo de docentes; e o despacho que revoga o programa de matemática do ensino básico.

O primeiro caso representa uma enorme falta de respeito. Falta de respeito pelos diretores cujos cuidadosamente ponderados levantamentos de necessidades não transitórias não foram respeitados. Falta de respeito pelos professores que esperaram quatro anos para tentar de mudar para um quadro de agrupamento mais próximo das suas famílias e, consequentemente, falta de respeito pelas mesmas. Falta de respeito pelos docentes dos quadros de zona pedagógica que esperaram quatro anos para concorrer por um lugar num quadro de um agrupamento. E, por fim, falta de respeito pela verdade, ao deturpar os números das verdadeiras necessidades não transitórias de docentes nos agrupamentos.

O segundo caso é uma irresponsabilidade dificilmente defensável. Não é segredo que o atual ministro da educação não gosta do atual programa de matemática. No entanto, penso que ninguém colocaria a hipótese do mesmo cometer um ato tão irresponsável quanto o agora perpetrado. Seja do ponto de vista financeiro, tendo em conta os avultados investimentos efetuados na criação do atual programa e na respetiva formação de professores. Seja do ponto de vista da tranquilidade nas escolas, onde esta atitude veio trazer uma desnecessária e injustificável agitação. Seja do ponto de vista da seriedade intelectual, visto não haver qualquer indício que justifique a substituição do atual programa. E, mais uma vez, seja do ponto de vista da verdade, tendo em conta que no despacho da revogação em causa se pode ler, relativamente às metas curriculares de matemática: «durante o corrente ano letivo, ao serem aplicadas com carácter não vinculativo, a sua utilização teve resultados muito positivos nas escolas e nas turmas em que as mesmas foram usadas, conforme consultas efetuadas junto das escolas». Não sei se terão escrito tal disparate por ingenuidade ou por simples ironia, mas uma coisa é certa: ou não têm mesmo qualquer conhecimento sobre o que se passa nas escolas, ou não são sérios. Por outro lado, já enjoa a repetição da acusação de dirigismo pedagógico ao atual programa, mais uma vez surgindo no referido despacho. Nem a repetição de tal acusação até à exaustão a torna numa verdade, nem disfarça o dirigismo resultante da aplicação das metas curriculares.

Por fim, espero que todos estes acontecimentos abram os olhos dos professores, para que não voltem a ser ingénuos e tornem a dar crédito ao próximo indivíduo bem-falante que apareça pelas televisões a dizer meia dúzia de chavões provenientes do seu senso comum, sem qualquer conhecimento real sobe educação.

Em Setembro de 2004, na iminência de um novo ano letivo, escrevi o quinto texto dedicado à educação em meio familiar, com ênfase na primeira infância. Deixo aqui o mesmo, pedindo desculpa pelo facto de um comentário da Joana, referido no texto, ter-se perdido no mundo "internético".

 

“Inventem-se novos pais” V

Depois de um interregno considerável derivado da “silly season”, continuo a minha reflexão escrita sobre a educação familiar. Mantenho este tema por considerá-lo um tema emergente e urgente, pois que as implicações do mesmo são importantíssimas para a vida de muitos futuros adultos. Prova da emergência de tal tema é a chuva de textos nos meios de comunicação social escrita que criticam o nosso sistema educativo e os jovens de hoje, apelidando os últimos de preguiçosos e com outros adjetivos desagradáveis. No entanto, custa-me criticar somente esses jovens, algo muito fácil e que acarreta aplausos de todos os quadrantes, esquecendo aqueles que os ajudaram a crescer, que foram corresponsáveis pela sua formação nos mais diversos aspetos. Os contagiados pela “opinite” (expressão muito bem conseguida pelo Miguel), criticam o sistema educativo, consequentemente criticam os jovens, esquecendo o facto de serem os seus educadores, logo grandes responsáveis pelo estado atual das gerações mais novas. Não quero dizer com isto que não haja razões para criticar muitos dos jovens. No entanto, será mais profícuo gastar uma hora por dia a pensar como melhorar a situação atual, do que estar todo o dia a criticar essa mesma situação.

Apesar das críticas dos “opiniteiros” se dirigirem quase exclusivamente aos jovens, continuo a bater na tecla da primeira infância, onde se forma quase totalmente o carácter e a personalidade da criança, facto que a Joana ajudou a explicar.

Assim, continuo a refletir sobre a questão da procura de consensos entre os educadores sobre o rumo a dar relativamente à educação dos seus educandos.

Um dos fatores importantes para que tal aconteça é a tal comunicação entre os educadores sobre os comportamentos dos seus educandos, e sobre o que fazer para melhorar alguns aspetos dos mesmos. Para tal, será inicialmente necessário que os educadores acreditem no seu papel preponderante na formação da personalidade dos seus educandos. A partir do momento em que acreditam que uns nascem “assim” e outros “assado”, portanto nada havendo a fazer, estamos perante um final catastrófico. Verifica-se, no entanto, que os defensores do determinismo só o são após uma má experiência relativamente aos seus educandos, sendo mais uma forma de justificar o seu “insucesso”. Na realidade, antes de se verem no papel de educadores, todos sabem apontar os erros efetuados por outros educadores. O que sucede então com esses indivíduos quando se vêm nesse papel? Admito não fazer a mínima ideia em alguns dos casos. Existem aqueles que nunca refletiram muito sobre questões educativas. Para além disso, confundem progenitores com pais e, face à falta de vontade em ser pai na sua plenitude, deixam que os seus filhos cresçam e se autoeduquem. O resultado é, na esmagadora parte dos casos, catastrófica, salvo quando existe a intervenção de outros adultos que vão incutindo alguma educação nessas crianças. Depois há aqueles que, por uma série de acontecimentos desafortunados na sua vida, perdem a força para educar os seus educandos. Estes dificilmente poderão ser criticados. Havendo ainda muitas e diversas situações, nas quais se consegue explicar minimamente o que se passou com os educadores para “falharem”, há, no entanto, uma que se apresenta como a mais enigmática: é o caso daqueles que sempre apontaram defeitos à educação ministrada por outros educadores e, quando na situação de educadores, imitam-nos. Já observei e tentei compreender estes casos, mas nunca o consegui. Falta-me a coragem para os interpelar sobre o assunto, pois que o mesmo é muito melindroso, podendo gerar um conflito desnecessário. Compreendo que não é fácil pôr em prática certos procedimentos com os nossos filhos, sobretudo aqueles que implicam sofrimento dos mesmos. O sofrimento que sentimos nessas ocasiões é, por vezes, brutal. No entanto, se os amamos, não compreendo que se opte pelo caminho mais fácil para nós, que levará a um enorme sofrimento futuro dos nossos filhos. Alguns pais dizem: sabemos que estamos a criar maus hábitos no nosso filho, mas quem sofre as consequências somos nós. Infelizmente, futuramente, esse jovem irá ser alvo de um grande sofrimento derivado desses maus hábitos. Em muitos casos, o sofrimento vem a curto prazo, devido às críticas constantes dos pais, à falta de habilidade em lidar com os seus pares, fazendo com que estes os coloquem de parte, e à falta de vontade de outros adultos privarem com estas crianças, pois o prazer em tal facto passa a ser residual.

O prazer supremo resultante do esforço de educar o melhor possível os nossos filhos, é ter orgulho nos mesmos, poder elogiá-los, vê-los felizes e sociáveis, e verificar que as outras crianças e adultos apreciam a sua companhia. Por estes factos, e por saber que os estamos a ajudar a serem potenciais futuros adultos felizes, vale a pena efetuar sacrifícios no sentido de lhes incutir as melhores aprendizagens.

Haveria ainda muito a escrever sobre este assunto, no entanto, irei passar para outra questão ligada à educação na primeira infância: quando começa essa mesma educação?

Desde 26/06/2003

Desde então que este espaço tenta ser um local onde a Educação possa ser discutida de um modo livre, com argumentação que ultrapasse o mero senso comum e com respeito pela diferença de opiniões.

Com o fim da weblog os textos antigos serão transportados para este novo espaço, com as repetivas referências temporais. Muita pena tenho por alguns comentários que enriqueciam os textos não poderem ser recuperados.

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