Retomo a divulgação dos meus textos de 2004 dedicados à educação em meio familiar, com ênfase na primeira infância. Aqui fica o sexto da série, que tantas lembranças adormecidas recuperou, dando-me o prazer de reviver momentos em que a minha maravilhosa pré-adolescente era ainda uma criança de 3 anos...
“Inventem-se novos pais” VI – O início da educação
Trocando as voltas a mim mesmo, levei a que esta reflexão mudasse de rumo, sem que eu mesmo disso tivesse dado conta. Deste modo, considerei mais interessante para mim e para todos os interessados, não apontar os erros mais frequentes de alguns educadores de forma quase indiscriminada, disparando em todas as direções, mas sim avaliando o nosso, meu e da minha cara-metade, percurso de educadores de uma criança que praticamente concluiu a sua primeira infância. Utilizando a nossa experiência e observação, espero refletir com os interessados com o fim de orientar e apoiar futuros e atuais educadores. Com este propósito, propus-me, no último texto, refletir sobre quando se dá o início da educação, e será este o ponto de partida deste texto.
Diria que a educação começa mal a criança nasce (o que não significa que o nosso papel de pais só surja neste momento). Ainda no berçário do hospital, o comportamento da mãe relativamente ao bebé (infelizmente, o pai está privado desses momentos), é extremamente importante. Isto relativamente à educação de dois aspetos: o dormir e o comer. Vou dedicar a minha reflexão mais ao primeiro ponto, deixando o segundo para mais tarde.
Se observarmos crianças dos 0 aos 4/5 anos, vemos, no que concerne ao hábito de dormir, casos muito distintos. Vemos crianças que, numa determinada hora, vão para a cama, onde ficam sozinhas até adormecerem; outras vão com os pais, também em determinadas horas, adormecendo na companhia dos pais; outras vão com os pais, onde estes “tentam” mantê-las na cama para que adormeçam, realizando várias tentativas, até que consigam, ou até que desistam (neste caso nas sestas da tarde); outras vão para a cama quando querem. Seria extremamente simplista afirmar que uns pais têm sorte e outros azar. No entanto, este é o argumento mais usado nestes casos: o defeito está, pura e simplesmente, nas crianças. Mas, se observarmos o comportamento dos pais relativamente às crianças neste ponto, descobrimos que as coisas não são tão simples assim.
Nos primeiros dias de vida da criança, podemos ver pais sempre com o bebé no colo, e outros a pegar no bebé de uma forma criteriosa. Sabe bem a qualquer pai pegar no seu filho no colo, no entanto, não poderemos pensar só em nós, mas sobretudo na criança. Relativamente a esta, saber-lhe-á bem sentir o calor dos seus pais pegando nela ao colo. Porém, o que se torna hábito deixa de ser um prazer. Deste modo, estamos a retirar um prazer a essa criança, porque o mesmo passa a ser banal. Para além disso, criamos-lhe um hábito que trará muita infelicidade, seja aos pais, seja a ela própria. Com o crescimento da criança, uma de duas coisas irá acontecer: ou lhe iremos retirar um hábito por nós nela inculcado, e daí trazer grande sofrimento ao bebé, ou, por outro lado, sentir-nos-emos prisioneiros daquele ser que não nos deixa realizar os nossos afazeres e ter os nossos prazeres individuais, pois está completamente dependente da nossa presença física ao seu lado, mesmo nos momentos em que não precisa dela.
Voltando à questão da dormida, o que está em causa é a forma como a criança é habituada a dormir. Em relação a este ponto, há dois factos a ter em conta: o ambiente de adormecimento e os horários do mesmo. Este último será, provavelmente, o mais importante. Se a criança for habituada a realizar as suas sonecas aproximadamente no mesmo horário, diariamente, e se for habituada a que a ida para a cama seja definitiva, não uma mera tentativa de adormecimento, ela apreenderá aquele hábito, tornando-se o mesmo natural (no caso das sestas durante o dia, será natural enquanto o seu metabolismo assim o exigir).
Em relação ao ambiente de adormecimento, o que está em causa é a forma como as crianças são adormecidas. Nuns casos, desde bebés que algumas crianças são embaladas até adormecerem. Qual não é o espanto dos seus pais que, ao longo do seu crescimento, essas mesmas crianças quando acordam a meio da noite, exigem tal tratamento. Pergunto: porquê o espanto, se assim foram habituadas? Outras crianças, pelo contrário, quando chega a hora de dormir, os seus pais preparam-nas, preparam o quarto, e simplesmente deitam-nas. Elas lá ficam até adormecerem. Dizem-nos que temos sorte, porque as nossas crianças são assim. Creio que seja algo mais do que simples sorte. Sei que cada caso é um caso, e que há crianças mais difíceis de educar neste ponto específico que outras. Nós próprios temos essa experiência. Foi-nos mais difícil incutir este hábito à nossa filha mais velha. Mas desde pequenos que os dois sabem que, quando é para ir para a cama dormir, é realmente para ir para a cama dormir. No início é relativamente simples, porque, salvo os casos de cólicas e outros problemas, as crianças têm o ritmo de dormir três horas, comer em seguida, e assim sucessivamente. Aos poucos vamos introduzindo a ideia da noite, até que ela surge quando deixam de necessitar comer à noite. O problema começa quando eles descobrem que o facto de irem para a cama dormir é uma decisão tomada pelos pais. Aí começam a lutar contra esse facto. Quando vão para a cama choram, gritam, etc.. Se lá formos sempre que eles o fazem, eles descobrem que a sua tática está a surtir resultados. Deste modo, quando nós, os pais, sentíamos que tudo estava bem, que mal entrávamos no quarto e pegávamos neles o choro cessava, quase por milagre, o que fizemos foi deixá-los chorar. Quem nunca o fez não pode imaginar o sofrimento que os pais passam nestas alturas. As dúvidas que estes momentos trazem. Os momentos de tensão entre os dois progenitores. No entanto, com o passar das noites, o choro diminui até que cessa. A partir daqui é fácil, a criança acha natural que a determinado momento é tempo de dormir, deita-se e dorme. No entanto, o trabalho não está terminado (nunca está), tem que se manter a regra. Aquilo que pode demorar meses a construir poderá ser destruído num dia; nunca nos esqueçamos disso.
Para ilustrar tal facto poderei usar o nosso exemplo. Como quaisquer pais, não temos a alegria de estar com os nossos filhos durante todo o dia. Quando terminámos a licença de maternidade, e fomos os dois trabalhar, a Alice ficou, durante alguns momentos do seu dia, ao cuidado de um infantário. Aqui não houve qualquer problema em relação às dormidas, pois o infantário tinha o horário das sestas bem definido, e como ela estava habituada a dormir sem mordomias desnecessárias, manteve o seu saudável hábito. No entanto, mudámos de cidade e, consequentemente, a Alice deixou o infantário que tanto nós gostávamos. Numa nova cidade, onde os infantários e afins estavam lotados, tivemos de recorrer a uma ama. A que nos calhou em sorte era excelente em praticamente todos os aspetos, não nos podendo queixar da nossa sorte. Porém, nada é perfeito. E o primeiro caso com a ama surgiu pela questão das dormidas. Estando a Alice o menos tempo possível na ama, para que pudesse estar connosco a maior parte possível do dia, ela fazia na ama, por vezes, uma sesta sensivelmente a meio da tarde, antes do lanche. Nos dias em que íamos levar a Alice na hora em que ela devia começar a fazer a dita sesta, alertávamos a ama do facto. No entanto, com o tempo, a ama começou a dizer algo que nos começou a deixar preocupados. Quando nós dizíamos que estava na hora da sesta da Alice, a ama dizia que ela quando queria dormir, dizia-o, não sendo necessário deitá-la no imediato. Logo vimos que tal facto, a médio/longo prazo, iria trazer problemas. Enquanto a sesta antes do lanche foi um imperativo biológico impossível de ultrapassar, o problema estava minimizado. Chegava a um momento em que o seu corpo não mais aguentava, e a Alice pedia então à ama para ir dormir (o problema estava minimizado na perspetiva dos adultos, pois para ela não era saudável brincar até à exaustão). O problema para os adultos, e para ela, surgiu quando começou a aguentar acordada até ao lanche, e um pouco mais, não pedindo à ama para ir dormir. Necessitada de descansar, quando a íamos buscar, encontrávamos uma espécie de zombie, cansadíssima e mal-humorada. Quando chegávamos a casa deitávamos a pobre que, fazendo um sono fora de tempo, desregulava todo o resto do seu dia, passando-o com um humor simplesmente assustador (não estando bem com ninguém, nem com ela própria). Face a isto fomos falando com a ama, alertando-a para o que estava a suceder. Perante tal facto, e depois de compreender o que se passava, ela repensou a sua forma de agir com a Alice. Aí aconteceu o que nós esperávamos: quando um dia, por fim, a senhora resolveu deitar a Alice para que ela dormisse (coisa que ela continuou sempre a fazer em sua casa apesar de passar, na altura, uma fase de negação relativamente às sestas à tarde, o que não era de estranhar), a Alice fez-lhe frente, não dormindo, não ficando sequer na cama, levando a que ama desistisse de tal intento. É óbvio que tal acontecimento não nos surpreendeu. Se habituou a criança a decidir sobre quando ir para a cama, como é que queria que a criança, agora mais velha, aceitasse a perda desse privilégio. Estando cientes que, provavelmente, a repetição deste episódio levaria a que a ama nunca mais conseguisse deitar a Alice, tivemos que modificar os horários desta, para que não necessitasse dormir lá nos tempos seguintes. Readquirindo totalmente o seu hábito de efetuar a sesta da tarde, voltou a dormir uma ou duas vezes na ama, não muitas vezes, pois tal não foi necessário.