Devo começar este texto por afirmar que procuro evitar proferir afirmações que indiquem que as crianças das sucessivas gerações estão cada vez “piores”, seja o que a expressão “piores” queira dizer. Estando três décadas a trabalhar na área da Educação, consigo ter uma ideia da evolução da forma de ser e estar das sucessivas gerações dentro das décadas referidas, pelo menos na realidade onde tenho estado por mais tempo, considerando que estou na mesma área geográfica há 25 anos. No entanto, tenho dificuldade em comparar as crianças e jovens de agora com aquelas com quem trabalhei há 20 anos, visto que tenho a perfeita noção de que a minha memória me pode atraiçoar. Sem dúvida que estas crianças e jovens são diferentes daquelas que conheci há 20 anos. É verdade que vivo agora situações que eram muito raras há 20 anos. Mas não é menos verdade que alguns elementos da minha geração, na zona onde cresci, tinham atitudes muito mais graves do que aquelas que alguma vez soube na zona onde acabei por assentar em adulto. Ou seja, esta discussão não é algo linear como algumas afirmações podem fazer parecer e é muito importante discernir aquilo que são percepções, daquilo que poderá ser a realidade.
Posto isto, vamos tentar determinar aquilo que será real. Temos de começar por assumir que as crianças e jovens de hoje em dia terão de ser diferentes, em muitos aspetos, daquelas de há 20 anos atrás. O mundo é diferente, sobretudo em termos tecnológicos, e esse facto terá de ter consequências, boas e más. Por outro lado, temos de assumir que, se as crianças agora estão “piores”, seja o que isso significa, a responsabilidade de tal facto terá de estar grandemente na geração que os educou. Ou seja, mais do que criticar as crianças e jovens por serem como são, teremos de criticar quem os educou. Sei que esta parte é polémica e que não é algo linear, mas qualquer profissional do mundo da Educação consegue observar, durante a sua experiência profissional, o peso que a conduta dos pais e encarregados de educação tem na forma de ser e estar dos seus educandos, numa esmagadora maioria dos casos. Podemos sempre diminuir um pouco este peso nos pais, considerando as dificuldades que este novo mundo apresenta aos mesmos, no seu papel de encarregados de educação, porém, noutros tempos havia outras dificuldades que agora não existem e, por outro lado, não se evolui arranjando justificações para o fracasso.
Assim sendo, mais do que falar em dificuldades e em fatores que os pais e encarregados de educação não conseguem controlar, é importante pensar naquilo que se poderá fazer no sentido de termos crianças e jovens “melhores”, seja isso o que for. Não sendo fácil estabelecer o que é importante fazer neste sentido, podemos começar sempre por aquilo que, claramente, não se deverá fazer.
Toda esta introdução surge de um episódio recentemente vivido no meu local de trabalho, onde cerca de um milhar de maravilhosas crianças e jovens crescem todos os dias. Para ser mais preciso, este episódio ocorreu numa das cantinas da escola, aquela onde crianças dos 10 aos 16 anos almoçam. Tenho o privilégio de almoçar nesta cantina todos os dias, podendo dizer que esse privilégio resulta de poder usufruir de uma refeição completa e de qualidade, por um valor relativamente modesto. No caso dos alunos, esse valor é bem inferior ao que eu tenho de desembolsar, havendo aqueles que ainda podem usufruir de tal refeição por metade do preço dos demais, ou mesmo sem pagar nada. Claro que, muito raramente, as refeições têm piores dias, onde as cozinheiras (neste caso são todas mulheres) falham na sua arte, mas é mesmo algo muito raro. Para quem almoça todos os dias no local, posso afirmar que, em quase 4 meses deste ano letivo, houve três dias menos bons, um registo que poucos cozinheiros e cozinheiras, profissionais ou caseiros, podem apresentar. Claro que há encarregados de educação, que nunca almoçaram no local, que dizem que a comida “não presta”, ludibriados pelos seus educandos que, mal habituados do ponto de vista alimentar, preferem ir comer a outros locais nas redondezas da escola, comendo mais caro e, na maioria dos casos, comida menos saudável.
O maior problema que temos na cantina da escola é, sem sombra de dúvida, o desperdício que se observa. Impulsionados pela esquisitice alimentar, de alguns, e pela vontade enorme e saudável de ir brincar para o exterior, de outros, muitos alunos acabam por estragar uma parte considerável da refeição, deixando-a nos tabuleiros. Não tendo a escola profissionais suficientes para controlar o que fica nos tabuleiros quando os mesmos são colocados nos carrinhos para o efeito no final da refeição, vai-se observando a normalização deste facto. Mesmo com as diferentes tentativas de alterar esta realidade, através da sensibilização da comunidade escolar, a impossibilidade de ter adultos a controlar esta situação (por estarem ocupados noutras funções), leva a que a mesma seja cada vez mais frequente. Por outro lado, temos ainda alguns pais e encarregados de educação que ficam ofendidos caso um adulto chame a atenção do seu educando para o facto de estar a estragar comida ou por não comer parte da refeição mas, sinceramente, como são poucos e não sabem o que fazem (desculpem a crua honestidade), nem vale a pena perder tempo com esta parte, apesar desta atitude levar a que alguns adultos, que podiam ter um papel preponderante para mitigar este problema, acabem por evitar intervir, por recearem possíveis problemas.
O episódio de que quero falar, foi num dia diferente. Foi num dos dias onde as atividades na escola da parte da tarde são escassas, o que faz com que poucos alunos almocem na escola. Nestes dias, sendo poucos alunos, os adultos presentes no refeitório estão mais disponíveis para observar e apoiar as crianças e jovens.
Aconteceu que o encarregado operacional (vulgo chefe de pessoal não docente), homem sempre atento e muito diligente no seu trabalho, estava perto do carrinho onde os alunos depositam o seu tabuleiro no fim da refeição, quando dois alunos foram lá colocar os seus tabuleiros. Quando o encarregado operacional olhou para os tabuleiros, perguntou ao primeiro, aluno de 5.º ano, mas com um porte físico de um aluno de 7.º ano, porque é que ele tinha marcado a refeição para depois pouco ou nada comer. A resposta do aluno foi pronta, dizendo que tinha sido a sua mãe a marcar a refeição. Claro que o adulto rapidamente perguntou se a mãe dele sabia que ele não comia, estragando a comida e fazendo os pais gastarem desnecessariamente o valor monetário da refeição. Perante tal afirmação, o colega deste aluno disse, como se tal fosse algo positivo, que não pagava a refeição, ou seja, sendo um aluno carenciado, de acordo com as normas em vigor, a refeição, que ele também tinha terminado de desperdiçar, não era paga pela sua família.
A história ainda está no seu início, mas já há muito sobre o que refletir…
Sobre a parte referente ao aluno que está a desperdiçar uma refeição à custa do Estado Social, não me irei alongar. É um tema muito complexo para abordar em poucas linhas. Não vou atrás de “modas” agarradas a pensamentos simplistas, para atacar o Estado Social. Claro que me preocupa saber que há crianças como esta que, usufruindo do apoio do Estado Social, não vê a gravidade do que tinha acabado de fazer. Claro que me preocupa que, possivelmente, esta forma de desvalorizar o referido apoio da parte da criança esteja correlacionado com a mesma desvalorização presente nos pais e encarregados de educação dessa mesma criança. Claro que concordo que deve haver mecanismos para evitar abusos no que concerne aos apoios do Estado Social. Claro que concordo que deve haver formas de educar os adultos e, sobretudo, as crianças e jovens, no sentido de os levar a valorizar os apoios que recebem do Estado Social e os responsabilizar no sentido de procurarem deixar de necessitar dos mesmos e passem a contribuir para que o Estado Social possa apoiar outros que estejam necessitados. Mas também é bastante claro, que mais do que o desperdício desta refeição, é-me muito mais doloroso saber que há quem passe fome e que, para muitas crianças e jovens, esta refeição escolar é a única que têm durante o dia. Mas como disse, é um tema muito complexo que não irei abordar agora.
O que quero abordar neste texto é algo muito mais simples e igualmente importante. É o caso do jovem que, não necessitando, em princípio, do apoio do Estado Social, desperdiça a refeição. Esse desperdício é tão grave quanto o do seu colega. E não podemos esquecer que ele, também, beneficia nesta refeição do apoio do Estado Social, que permite que a escola lhe forneça uma refeição completa por um valor bastante baixo. O que mais me custou foi saber que, na sua cabeça, ele não tem responsabilidade neste desperdício, pois é a mãe quem marca as suas senhas para as refeições. Aliás, ainda me custa mais saber que é a mãe que lhe marca as refeições (os meus filhos estiveram na mesma escola e nunca eu marquei as suas senhas, eles viram com os outros como o fazer e foram desde o início responsáveis por essa parte). Muitos poderão pensar que estou a exagerar ao criticar esta mãe. Sendo assim, irei continuar a história, para ser mais claro.
Após a interação que dei a conhecer, enquanto as duas crianças se afastavam no sentido da saída do refeitório, o encarregado operacional volta a interpelar aquela, cuja mãe tinha marcado a sua senha, chamando-a de volta para o pé de si, dizendo que ele nem a banana tinha comido, estando no tabuleiro para ir para o lixo, reforçando que, se não a queria, não a deveria ter recolhido para a sua refeição. Neste momento, respondendo com um tom que indicava o sentimento de alguma injustiça na crítica do encarregado operacional, essa criança, que relembro que terá cerca de 10 anos, mas com uma envergadura física maior que muitos alunos de 12 anos da mesma escola, afirmou que não a tinha comido por não a ter conseguido descascar… Foi neste momento que pensei: que andamos a fazer, como sociedade, às nossas crianças? Sei que foi um pensamento simplista. Não sei precisar se casos como este são a maioria, ou se são residuais, mas sei que são mais dos que era suposto e observamos os mesmos, diariamente, nas nossas escolas e não só. Sei também que se observa um número crescente de pais e encarregados de educação que, no limite, tratam os seus filhos como se fossem uns incapazes, “fazendo tudo por eles”. O resultado é essas crianças e jovens passarem a ser uns incapazes em várias situações da sua vida. Posso dar outro exemplo de situações destas, um que para mim foi chocante, mas que é cada vez mais comum. Um dia destes, ao voltar para a escola depois de tomar café a seguir ao almoço, vi um automóvel parar em cima do passeio do outro lado da escola, algo muito comum quando os pais deixam os filhos na mesma. Saiu uma criança, da parte de trás do automóvel, com pelo menos 11 anos, e a sua mãe saiu também, vindo para o lado do automóvel de onde a criança tinha saído, contrário à estrada. Pensei que se vinha despedir do filho, algo perfeitamente natural e usual. Enganei-me. Veio pegar na mochila do filho, que não parecia estar muito pesada, e levou a mochila, enquanto o filho, praticamente do tamanho da mãe, ia ao seu lado, até ao portão da escola, numa caminhada de cerca de 20 metros. No portão entregou a mochila ao filho que, naturalmente e sem grande esforço, a levou a partir daí, por bem mais de 20 metros… Fiquei chocado e a pensar que, se ela pudesse, continuava a levar a mochila dentro da escola. Que fique bem claro que não estamos a falar de uma criança para quem o peso da mochila era um problema. Vê-se muitos pais a levar as mochilas de crianças do 1.º ciclo e não é nenhum choque considerando a envergadura física dessas crianças e o tamanho de algumas mochilas. O que está em causa é o facto de ser cada vez mais comum situações em que crianças, perfeitamente capazes de carregar as suas mochilas, vão com os seus pais ao seu lado, quais seus empregados, a carregar os seus pertences. Acredito que situações similares sempre tenham acontecido, mas neste momento é tão comum que é quase impossível não as observar.
Há cerca de 7/8 anos atrás conheci um caso destes, que chamava bastante a atenção. Numa altura em que morava num local que me permitia ir a pé para a escola, uma mãe (excelente pessoa, isso não está em causa) ia, todos os dias, com os seus dois filhos, um casal, até à escola. Faziam praticamente a mesma caminhada que eu, com três maravilhosos seres humanos que comigo habitavam, fazia, de pouco mais de 5 minutos. O que chamava a atenção nesta mãe era o facto de levar as mochilas dos seus filhos, uma em cada ombro, enquanto eles nada carregavam. Não pensem que os seus filhos eram pequenos. Ela tinha cerca de 13 anos e ele já tinha 15. Ela já era maior que a mãe e ele tinha cerca de 1 metro e 80 centímetros e era corpulento. Sei que ela não o fazia por mal, obviamente, mas também sei que, possivelmente, esta e outras atitudes similares fizeram com que o mais velho fosse um aluno com uma falta de empenho assinalável que o levou ao insucesso escolar, mas receio que este insucesso não será o efeito mais nefasto que esta característica de personalidade poderá trazer na sua vida.
No entanto, nessa altura, numa fase da minha vida em que, indo a pé para a escola, poderia observar mais situações similares, tal era quase inexistente. Hoje em dia, em que faço um pequeno trajeto entre o local de estacionamento a pouco mais de 30 metros do portão da escola, é cada vez mais comum observar situações destas, algo que vejo como preocupante, porque será só a ponta do icebergue de um fenómeno que prejudica o crescimento saudável das nossas crianças e jovens.
Adaptando um provérbio, sabemos que tempos difíceis geram pessoas fortes e que tempos fáceis geram pessoas fracas. Assim sendo, é fundamental que a sociedade compreenda o que é “fazer tudo pelos filhos”. É importante compreender que, muitas vezes, não fazer algo por eles é mais difícil que o fazer e, isso sim, é “fazer tudo por eles”, quando tal contribui para o seu crescimento de um modo equilibrado e saudável em todas as suas dimensões. As crianças e jovens de hoje em dia não nascem “totós”. São fisicamente similares às gerações anteriores e com a mesma capacidade de aprendizagem. Se queremos o seu bem estar (e acredito que todos estes pais querem, porque amam os seus filhos), devemos exigir aquilo que eles são capazes de fazer, para que sejam a melhor versão de si próprios e, consequentemente, potencialmente felizes.
Por fim, devo dizer como terminou a história. Quando chegou ao pé do encarregado operacional, este descascou a banana e deu ao aluno para que ela a comesse e, deste modo, não fosse embora com o estômago praticamente vazio. O aluno assim o fez, comeu a banana e foi embora. Foi a atitude expectável de um adulto que, exigente com os alunos que crescem na escola, demonstra um carinho contínuo e infinito pelos mesmos, mesmo na sua dureza, quando assim a situação o exige. É alguém que, realmente, faz tudo por eles. É alguém que cresceu muito com as dificuldades que a vida lhe foi apresentando desde tenra idade, transformando-se em alguém forte, num ser humano admirável, apesar de todos os seus defeitos.